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Isabela Boscov

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Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo

Por Isabela Boscov Atualizado em 11 jan 2017, 15h57 - Publicado em 28 jan 2004, 15h54

Todo pano à frente.

Mestre dos Mares tem aventura, idéias e o talento sempre fabuloso de Russell Crowe.

O H.M.S. Surprise é lento, não exatamente elegante, vai carregado de homens e é pequeno demais para levar canhões de longo alcance, mas o capitão Jack Aubrey o ama. Jack adora conferir o cordame, sentir a vibração do timão ou subir até o topo do mastro principal e olhar o horizonte. Corpulento como o Surprise, brusco e sem paciência para o raciocínio abstrato, Jack é, entretanto, dotado de energia e otimismo inesgotáveis, além de um dom instintivo para navegar e comandar. Da maneira como foi concebido pelo escritor Patrick O’Brian numa série de vinte livros, Jack Aubrey é uma força da natureza.

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Nada mais adequado, portanto, que seja personificado por Russell Crowe, um ator que é também ele uma força da natureza, em Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo. Capitão da Marinha inglesa durante as guerras napoleônicas, na virada do século XVIII para o XIX, Jack recebe como missão localizar e capturar o navio francês Acheron, que é mais veloz, mais bem armado e muito mais moderno do que o seu. O Acheron, além disso, é uma espécie de fantasma, que tem o hábito de surgir e abrir fogo contra o Surprise quando menos se espera. Para Jack, porém, caçá-lo é mais um esporte que uma tarefa. A despeito da escassez de suprimentos, da inferioridade técnica e dos protestos de seu amigo Stephen Maturin (Paul Bettany), naturalista e cirurgião de bordo, o capitão persegue o Acheron de oceano em oceano com um entusiasmo que raramente deixa de inflamar sua tripulação.

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Não é acaso que o Acheron quase nunca seja visto por inteiro ou em detalhe. O australiano Peter Weir dirige Mestre dos Mares como uma aventura que reconstitui com desvelo os empreendimentos navais britânicos – incluindo o quase impenetrável vocabulário náutico, os compartimentos sufocantes do navio, os currais e galinheiros instalados no convés, as batalhas sangrentas e as cirurgias toscas que se seguem a elas, as superstições dos marinheiros e a completa ausência de mulheres em cena. Mas Weir vai bem além disso. O Acheron está sempre à frente do Surprise, como uma visão, porque ele é isso mesmo: um futuro que ainda mal se pode divisar. O que interessa a Patrick O’Brian e a Peter Weir é esse mundo à beira de uma transformação, do romantismo para o racionalismo, da força humana para a Revolução Industrial, do antiquado para o moderno. E o microcosmo desse mundo é, evidentemente, o Surprise, onde o romântico e o racional – na pele de Jack e de Stephen – colidem e produzem reações inesperadas.

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Abarcar esse tipo de idéia numa superprodução de estúdio é uma ambição tremenda, e o diretor acrescenta a ela outro fator ainda: o registro de costumes. O que Jane Austen fez pelos ritos sociais dos salões e mansões desse período, O’Brian faz pelo universo dos tombadilhos. Aí o elenco escolhido por Weir, entre atores na maioria desconhecidos, se mostra altamente capaz. Do cozinheiro ranzinza interpretado por David Threlfall a Blakeney (Max Pirkis), que aos 13 anos é o oficial caçula do navio e enfrenta uma amputação logo no começo da história, os desempenhos são impecáveis não só do ponto de vista dramático como também no rigor com os modos, o linguajar e o sotaque – desde sempre as grandes obsessões inglesas. Vários passos adiante de todos, porém, está Russell Crowe.

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Não há outro ator, hoje, que seja um fenômeno comparável de economia, eficácia e carisma – qualidades que não têm preço num filme em que boa parte da emoção está no controle que os personagens exercem sobre seus sentimentos. Crowe é o oposto de, por exemplo, Tom Cruise: não eleva a voz, mal começa a esboçar uma expressão e já a apaga e é tão seguro de seu talento que não vê necessidade de chamar a atenção para si. Quanto mais generoso ele é com seus companheiros de cena, mais brilha – e a cena final, um dueto de violino e violoncelo com Paul Bettany, é uma evocação antológica do misto de antagonismo, afinidade e camaradagem que os dois amigos compartilham.

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Patrick O’Brian, que morreu em 2000, aos 85 anos, tinha olhos e ouvidos atilados para esse tipo de detalhe: o escritor era um personagem de si mesmo, como mostra sua biografia. O nome tipicamente irlandês, descobriu-se há alguns anos, não passava de um pseudônimo para encobrir Richard Patrick Russ, inglês de ascendência alemã que na juventude largou a mulher e os dois filhos – um deles à morte – para ir morar com a condessa Maria Tolstoy. Reinventado, O’Brian prestou, junto com a amante, serviços à Inteligência inglesa, traduziu numerosas obras do francês – várias das versões britânicas de Simone de Beauvoir são dele –, escreveu uma elogiada biografia do pintor Pablo Picasso e alguns romances de história naval. Já cinquentão, criou Jack Aubrey e Stephen Maturin.

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Os vinte volumes protagonizados pela dupla (que começam a ser lançados agora no Brasil, pela Record) são um caso raro de casamento entre sucesso editorial e prestígio literário. Não faltam ação e enredo aos livros (uma queixa que alguns podem fazer do filme). Mas o que os torna marcantes, assim como a Mestre dos Mares, é o inebriamento com que O’Brian descobre e redescobre, a cada episódio, que épocas e costumes podem ficar antiquados. Já a curiosidade, a iniciativa e os anseios dos homens são os mesmos, e a matéria-prima mais moderna de que a ficção dispõe.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 28/01/2004
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2004

Trailer


MESTRE DOS MARES – O LADO MAIS DISTANTE DO MUNDO
(Master and Commander: The Far Side of the World)
Estados Unidos, 2003
Direção: Peter Weir
Com Russell Crowe, Paul Bettany, Max Pirkis, James D’Arcy, Chris Larkin, David Threlfall, Jack Randall, Ian Mercer, Robert Pugh
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