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Jeronimo Teixeira Intervenção Por Jerônimo Teixeira Crítica da cultura e cultura da crítica. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Para que servem mesmo as manifestações?

A "ocupação" e o protesto de rua incorporaram-se à cultura brasileira contemporânea. O debate sério de ideias fica sempre para depois

Por Jerônimo Teixeira Atualizado em 18 out 2017, 11h44 - Publicado em 5 Maio 2017, 18h04

Greve geral: aconteceu tem uma semana, eu sei. Mas um blog dedicado à crítica cultural tem seu próprio tempo (vale dizer, o blogueiro é muito, muito lento). Pois antes de falar desse evento que já parece mais velho que o Orkut e as polainas (“como é antigo o passado recente”, lamentava-se Nelson Rodrigues), peço licença para recuar ainda mais no tempo. Quero falar de uma noite em que andei pela Avenida Paulista, há quatro anos.

A caminho da sessão de autógrafos de um amigo, entre a estação de metrô e a livraria, vejo uma passeata. Corria o estúpido ano de 2013, mas as manifestações de massa que depois seriam pomposamente chamadas de “Jornadas de Junho” já haviam se encerrado. O que eu via era apenas o rebotalho da revolução que não houve: trinta, talvez quarenta pessoas, tentando, sem sucesso, fechar uma das vias da Paulista. Saindo da livraria, resolvi fazer a pé  o percurso até minha casa. Reencontrei o mesmo grupo discursando, apitando, berrando sob o vão do Masp. Não lembro contra o que ou contra quem protestavam. Sei apenas que não era só por 20 centavos.

Dois ou três quarteirões adiante, parei para ver um grupo de jovens dançando ao lado de um imitador de Michael Jackson. A coreografia era meio capenga; o figurino, mambembe, mas todos se esforçavam para, ao som do boom-box, acompanhar o dançarino mais experiente do grupo. Havia ali uma vibração, uma espontaneidade que faltavam às palavras do alto-falante embaixo do museu de arte. Ao som de Thriller, tive um momento de transcendente iluminação: toda a impostura de um grande clichê da cultura progressista contemporânea se revelou ali. Falo do imperativo da “ocupação”. Sim, pelo menos desde o Occupy Wall Street, em 2011, “ocupar” se tornou a ordem do dia, de todos os dias. Ocupar as ruas, as avenidas, os bairros, a cidade, o espaço infinito. Não interessa quem ocupará, ou com que propósito: ocupar, apenas, já basta. (E ainda temos a canhestra locução “fazer uma ocupação”, que parece carregar mais peso político.)

Eis o fato cabal que os imitadores de Michael Jackson demonstram: as ruas, as avenidas, a cidade já estão ocupadas.

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Depois de 2013, protestos e manifestações se incorporaram à cultura e à rotina do país. Há sempre alguma passeata pelas ruas brasileiras, não poucas vezes acompanhada de explosões de truculência policial. Ainda esta semana, na mesma Paulista dos que dançam ao som do falecido “rei do pop”, houve um esdrúxulo conflito envolvendo palestinos e simpatizantes, de um lado, e neodireitistas contrários à imigração, de outro. Viramos uma nação de piqueteiros, um país de barricadas. Alguns dirão que a baderna e a barulheira produziram resultados efetivos, que tal ou qual lei ou medida ou mudança foi “conquistada” pela pressão popular. Permaneço cético. (A inflação acumulada de 2013 foi de 5.91%; no ano passado, de 6,29%. Os tais 20 centavos já eram!)

O leitor encontrará, na minha vizinhança, blogs mais equipados para falar das repercussões políticas e econômicas da greve da semana passada, ou para esmiuçar as reformas trabalhista e da previdência, contra as quais os manifestantes do dia 29 de abril protestavam. Meu objetivo aqui é examinar rapidamente a dinâmica que esses eventos têm no debate público o que é um tema pertinente à cultura contemporânea. Há, para início de conversa, um exasperante mesmismo nas reações a qualquer grande manifestação. É tudo tediosamente previsível: sempre sabemos não só quem estará contra e a favor de cada manifestação, mas também o que dirão a respeito. As críticas resumem-se a duas linhas simplistas e simplórias: 1 – Passeatas chamadas pela esquerda só reúnem vagabundos, pobres-diabos de olho no sanduíche de mortadela, sindicalistas e barnabés que saem para defender seus arraigados privilégios; 2 – Passeatas organizadas pela direita só têm gente rica e branca, vale dizer, a elite que detesta pobre em avião e que deseja preservar seus arraigados privilégios.

Uma opinião não está equivocada apenas porque é previsível, eu sei. Mas um bom debate se faz em outros termos: ao ouvir nosso adversário, reformulamos e revisamos nossas ideias, incorporamos novos dados e admitimos novas modulações em nossos próprios argumentos. Ainda que não mudemos nossa posição original, idealmente tudo isso permitirá que contestemos com mais eficiência as ideias contrárias à nossa.

Manifestações de rua promovem exatamente o oposto disso tudo. Eu figuro o debate público brasileiro como uma Kombi velha, com pneus carecas. Toda nova manifestação é uma imenso areal no seu caminho. A Kombi patina sem sair do lugar, o motor esquenta, uma fumaça preta sai do escapamento. Os passageiros, no entanto, estão muito satisfeitos com a quantidade de areia que o veículo levanta.

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A Liberdade Guiando o Povo - Eugene Delacroix (1798-1860)
A Liberdade Guiando o Povo – Eugène Delacroix (1798-1860) Museu do Louvre/Reprodução

A Liberdade Guiando o Povo é desses quadros que todo turista vê de passagem para a sala onde está a Mona Lisa. Não há como deixar de vê-lo, porque é de grandes dimensões (2,6 m x 3,25 m). Mesmo aqui, em minúscula reprodução digital, impressiona pelas tintas dramáticas que Eugène Delacroix sempre tinha em sua palheta.  Como não se inflamar de patriotismo diante da figura triunfal de pálidos seios desnudos que levanta a bandeira? Patriotismo, sim, ainda que a França não seja a nossa pátria. As pinturas de Delacroix, dizia seu amigo Baudelaire em um comovido e comovente necrológio publicado no ano da morte do artista, 1863, sustentam a memória “da grandeza e da paixão do homem universal”. O episódio retratado, com um misto de alegoria e realismo, é a Revolução de 1830. O Povo, guiado pela Liberdade, derrubou Carlos X, monarca que andava pondo as manguinhas absolutistas de fora.
Mas agora, leitor cafajeste, pare de olhar para a bandeira que a Liberdade está dando, e observe a área abaixo de seu pezinho descalço: são cadáveres que se veem ali. Alguém dirá que é um inconveniente das revoluções, tal como, mais perto de nós, pneus e ônibus queimados e vitrines estilhaçadas são um inconveniente da justa expressão da revolta contra isso-tudo-que-está-aí. Mas repare também na figura imberbe à direita da Liberdade. Que idade terá o moleque? Não mais do que 14 anos, eu diria. E carrega uma garrucha em cada mão (suponho que sejam garruchas; não entendo de armas). O quadro é belo, e carregado de aspirações elevadas, sim. Mas como não ver naquele garoto (possível modelo para Gavroche, personagem de Os Miseráveis, de Victor Hugo) uma trágica prefiguração do menino famélico que vemos portando uma AK-47 em qualquer revolução ou guerra civil africana?
Não desejo tirar as coisas de proporção: o quadro é sobre a revolução que depôs a dinastia Bourbon. O Brasil tem passado por consideráveis turbulências políticas, mas nenhuma delas realmente comparável a isso. Nem o mais violento enfrentamento entre os black blocs e a tropa de choque se equipara à revolução retratada por Delacroix. Gavroche, porém, está sempre por perto:  em qualquer manifestação, haverá um metafórico menino armado bem ao seu lado. Duvida? Dois exemplos:

1 – Você pode ter saído à rua apenas para pedir o impeachment constitucional da mandatária que pedalou sem bicicleta, mas ao seu lado está o doidinho pedindo “intervenção militar já”.
2 – Você pode ter saído à rua apenas para protestar contra uma reforma da previdência que, na sua avaliação, roubará direitos dos brasileiros, mas ao seu lado estarão defensores de tiranos e tiranetes da estirpe de Chávez, de Maduro e dos Castro Brothers.
Seu adversário dirá que, ao se colocar ombro a ombro com essas figuras lamentáveis, você já não poderá mais ser diferenciado delas. Acusação movida pela má fé, sim. Estará totalmente equivocada?

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Pré-História
Militantes pré-históricos a caminho de uma ocupação na caverna Natural History Museum/Reprodução

Entre tantas análises, especulações e elucubrações sobre as razões que levaram multidões às ruas em  2013, que eu saiba não houve nenhuma tentativa de explicação darwinista. Não se pode descartar a hipótese evolutiva. Repare que, a despeito do tão propalado dinamismo da vida urbana, as multidões que vivem em cidades são eminentemente estacionárias. Da perspectiva de algum gene ambulante que tenhamos herdado de nossos ancestrais primitivos, metrô nunca sai da caverna, e carro e ônibus serão apenas cavernas que se movem. O ímpeto nômade que do Pleistoceno em diante nos impulsionou da África para o resto do mundo vive sufocado nas metrópoles. Tudo pode ter começado pelo simples desejo de andar, apenas andar.
Por isso ninguém se importou em saber aonde se queria chegar.

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Na homenagem póstuma a Delacroix, Baudelaire dizia que o pintor, além de ser um consumado dândi que gostava de tecidos ingleses, pertencia à “classe dos céticos polidos”. Afastava-se tanto dos utopistas quanto dos furibundos, e estaria mais próximo de Voltaire do que de Rousseau. O poeta de As Flores do Mal não fala da Liberdade Guiando o Povo em seu necrológio é uma avaliação de conjunto do homem e de seu legado, na qual quase não há considerações sobre obras individuais , mas seria interessante saber como ele encaixaria esse quadro de candente exaltação política no tal “ceticismo polido”. Talvez essa pintura responda mais ao lado “selvagem” do artista, de que Baudelaire também fala. Ou talvez ratifique outra avaliação genérica do poeta sobre Delacroix: “Tudo em sua obra é desolação, massacres, incêndios; tudo testemunha contra a eterna e incorrigível barbárie do homem”.

A figura alegórica da Liberdade, porém, está ali mais para justificar os massacres e incêndios do que para testemunhar a bárbarie. Os revolucionários podem dizer que, desta vez, pelo menos, valeu a pena, pois eles tinham essa figura luminosa como guia.  A exaltação pontual pela causa, pela luta de um povo para derrubar um déspota, decerto foi razão suficiente para suspender o “ceticismo polido” do pintor, que, afinal, vinha de uma família com tradição revolucionária. O entusiasmo, porém, deu-se a posteriori, no estúdio: durante os “três dias gloriosos” do quebra-pau de 1830, Delacroix foi apenas um cauteloso observador.

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Quando “ocupada”, a rua não comporta ceticismo. Sei disso porque já estive lá. Não me arrependo: o que se pedia então era não só justo e legítimo, mas também necessário. Incorporei-me discretamente à massa. Não estava vestido a caráter (a cor não me favorece), não levei cartaz, não gritei palavras de ordem. Mas me deixei embalar pelo entusiasmo dos garotos de garrucha na mão: registrei, em uma rede social, uma nota inaceitavelmente generosa sobre certas lideranças da muvuca. Aspirantes à carreira política devem ser tratados sempre com desconfiança, não com generosidade.

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Dizia antes que manifestações não fazem nada pela discussão pública de ideias. Na verdade, as manifestações de alcance nacional vem promovendo uma nova modalidade de debate: o debate sobre as manifestações.

Tudo, de novo, muito previsível. A depender da inclinação ideológica dos comentaristas, o protesto terá sido um fracasso ou um sucesso. As avaliações do Datafolha sobre o número de pessoas na rua são corrigidas para mais ou para menos, mais uma vez de acordo com a filiação política do estatístico diletante. Quando há eclosões de violência, elas são creditadas aos manifestantes radicais   ou à polícia, mas raramente são os fatos que determinam essas avaliações de responsabilidade. A frase feita do jornalismo televisivo “a manifestação começou pacífica, mas terminou com episódios de vandalismo” é contestada tanto na oração principal quanto na subordinada, de novo ao sabor das paixões de cada um. E quando a manifestação é da “direita”, seguem-se obrigatoriamente bizantinas discussões sobre a composição étnica das multidões.

Joel Pinheiro da Fonseca, em um excelente artigo na Folha de S. Paulo sobre a recente greve geral, observa, sensatamente, que não há consenso sobre como aferir o sucesso ou fracasso de uma manifestação. Diz mais: “Não sabemos os fatos, e ‘tudo bem’, porque o que importa é o impacto. Também não temos ideia clara do impacto. Então, resta a cada lado repisar sua narrativa na esperança de que ela prevaleça sobre uma suposta massa de indecisos”. No entanto, em um artigo anterior, o mesmo colunista se perguntava, retoricamente, “por que não estamos na rua?”. Falava então da necessidade de voltar aos protestos, como em 2013, para se contrapor à paralisia moral e institucional em que vivemos. As manifestações com que ele sonha teriam a missão nada modesta de “refundar o Brasil”! Desconfio que Gavroche precisaria de mais do que duas garruchas para chegar a tanto.

Ora, se sequer existe, como o próprio Joel diz, um modo claro de mensurar o sucesso de uma protesto de rua, como poderemos ler, nos gritos e faixas da multidão, as diretrizes para “refundar” o país? Pense em qualquer proposta ampla e consistente para um novo Brasil e depois tente resumi-la em um cartaz. Ou se atenha apenas à discussão um tanto menos genérica do momento: previdência social. Há incontáveis minúcias e exceções, e complexas regras de transição, e a nem sempre fácil matemática das tabelas progressivas que determinarão o valor final da aposentadoria. Para quem se opõe a toda e qualquer reforma, claro, um cartaz com NÃO dá o recado todo. Mas a conversa adulta sobre o tema não pode ser condensada em alguma rima que a multidão repete ao ritmo de um funk da Valesca Popozuda. Quando há tantos canais para discutir seriamente as políticas públicas, de que serve realmente a gritaria? Por que, afinal, sair à rua em uma democracia, ainda que precária e bagunçada como a nossa? Se não há a urgência de derrubar o soberano que, como Carlos X (ou Maduro), desfez uma assembleia legalmente eleita e censurou a oposição, que razão existe para parar o trânsito?

A liberdade de manifestação pacífica tem de ser sempre plenamente assegurada, sim. Não contesto de modo algum esse fundamento da democracia. O “ceticismo polido”, no entanto, recomenda que deixemos ao nosso vizinho, que já terá no guarda-roupa uma camiseta vermelha ou amarela, a tarefa de gastar a sola do sapato andando a esmo pela avenida principal da cidade. Meu conselho, reconhecidamente discutível e francamente idiossincrático: fique em casa. Durma no sofá com o gato no colo, bote as séries da Netflix em dia, leia As Flores do Mal (e releve o fato de que o próprio Baudelaire passou pelas barricadas da Revolução de 1848, nas quais clamava pelo fuzilamento do general Aupick seu padrasto)Cuide do seu jardim, como aconselhava o patrono dos “céticos polidos”.

Não estou, de modo algum, dizendo que todas as manifestações se equivalem nos seus objetivos e  métodos. O sujeitinho que acredita na queima de pneus ou ônibus como meio de expressar sua visão de mundo está automaticamente excluído da civilização. Mas suspeito que mesmo a mais pacífica e ordeira manifestação é, no fundo, uma tentativa de intimidação política. Pois resta um único argumento que somente uma manifestação de rua pode oferecer: o argumento bruto do número de participantes.

Mesmo esse argumento, no final das contas, é ilusório: a maioria estará sempre em casa. Ou talvez em outra rua, dançando Thriller.

 

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