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Jeronimo Teixeira Intervenção Por Jerônimo Teixeira Crítica da cultura e cultura da crítica. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Ninguém pensa nas criancinhas?

A menina de classe média na performance com homem pelado conta mais na guerra ideológica do que o garoto que pede dinheiro no semáforo

Por Jerônimo Teixeira Atualizado em 24 out 2017, 15h02 - Publicado em 6 out 2017, 20h28

O episódio do homem-pelado-com-criança no MAM me lembrou de uma Bienal do Mercosul que visitei, no final do já tão distante século XX, quando eu ainda morava em Porto Alegre. Na Usina do Gasômetro, havia algumas obras “interativas”, dessas que pedem a manipulação do público. Os organizadores da bienal, porém, julgaram que o visitante gaúcho médio era muito bruto para mexer nesses brinquedinhos com as próprias mãos engorduradas de churrasco. Monitores – estudantes de arte – foram escalados para puxar as cordinhas ou girar as manivelas das tais obras participativas.  Vários clichês repetidos por artistas e curadores – o conceito da obra relativiza o lugar da arte e problematiza a relação convencional do artista com o público  – se esfarelaram nas mãos dos puxadores de cordinha e dos giradores de manivela.

Bem antes da Bienal do Mercosul, lá  na virada dos anos 50 para os 60, Lygia Clark criou uma série de esculturas dobráveis intituladas Bichos. Na controversa performance La Bête, Wagner Schwartz, ao que parece, faz basicamente o que faziam os monitores de Porto Alegre: manipula a réplica de um Bicho (sem qualquer double entendre) enquanto o público olha. Com duas diferenças: em Porto Alegre, os monitores estavam todos vestidos, com camisetas da Bienal, enquanto Schwartz fica completamente nu. E, ao contrário do que ocorria na bienal, o público da performance afinal é convidado a tocar e manipular – não o Bicho da Lygia Clark, mas o bicho pelado.

Essa arte que convida o espectador a “participar” baseia-se em um pressuposto equivocado: a ideia de que contemplar um quadro de Caravaggio, Picasso ou Malevich é uma experiência “passiva”. Algumas obras participativas até foram interessantes, mas a ideia envelheceu. Performance com nudez também é da temporada retrasada. Gente que se escandaliza com artista pelado, então, é coisa antiga, mais velha que polaina e internet discada. Nada disso deveria ser notícia em 2017.

Mas então entrou uma criança em cena.

E depois veio o Alexandre Frota.

 

***

Patrícia Galvão, a Pagu, foi uma devotada militante do Partido Comunista Brasileiro nos anos 30. Acreditava na revolução, na ditadura do proletariado e nos bigodes de Stalin. Em um depoimento que escreveu sobre esse período, publicado em 2005 pela editora Agir com o título brega de Paixão Pagu, a autora de Parque Industrial relata as humilhações a que se submeteu em prol da causa: chegou a fazer sexo com um homem de quem o Partidão deseja extrair informações.  O sujeito, previsivelmente, não se mostrou muito cavalheiresco: “Deixou-me como se deixa uma meretriz. Fiquei enrolada, tremendo de frio, nos restos do roupão”.  Esses sacrifícios extremos não abalaram sua fé militante na verdade do comunismo. Mas então ela visitou a União Soviética, e a desilusão veio brutalmente encarnada na forma de uma criança, “uma garotinha de uns oito ou nove anos em andrajos”. Na Praça Vermelha, em Moscou, a menina pediu esmola à visitante brasileira. Diz Pagu: “Todas as conquistas da revolução paravam naquela mãozinha trêmula estendida para mim, para a comunista que queria, antes de tudo, a salvação de todas as crianças na Terra (…) Então a revolução se fez para isso? Para que continuem a humilhação e a miséria das crianças?”.

A narrativa de Paixão Pagu encerra-se com este episódio. Embora Patrícia Galvão só fosse romper em definitivo com o PCB depois de amargar anos na cadeia, durante o Estado Novo, parece certo que a criança com fome e frio causou uma fissura na sua crença. Penso nisso sempre que ouço algum conhecido reafirmando sua confiança na presidente que sofreu impeachment e no presidente que a antecedeu e promoveu. O mensalão, o petrolão, o triplex, o sítio, a sede do instituto, a pior crise econômica da história – a convicção de muita gente de esquerda não se abalou com esses eventos. Crianças mendicantes, então, nem sequer arranham o monólito da fé petista. Pois ainda víamos (ou fingíamos não ver) crianças pedindo troco em portas de restaurante e limpando para-brisas mesmo nos prósperos anos em que os pobres  viajavam de avião. Já dizia um sábio judaico que sempre haverá pobres (João 12:8), com ou sem passagem aérea. Mas será irrealista ou ingênuo afirmar que nenhuma civilização digna de ser assim chamada pode admitir que crianças vivam pelas ruas, achacando passantes para ganhar uns trocos?

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“Temos de pensar nas criancinhas”: a frase soa como um ramerrão demagógico, com notas de sentimentalismo hipócrita. Já foi  até satirizada em Os Simpsons. No entanto, seria o caso de perguntar: alguém de fato pensa nas crianças? Não falo da criança de classe média-alta ameaçada por uma abstrata “erotização da infância” denunciada por santarrões da direita ou por um fantasioso “consumismo infantil” combatido por ONGs do progressismo dodói. Falo do filho de pais abusadores ou negligentes, da criança que mofa anos em abrigos, esquecida pela burocracia judicial que deveria cuidar de sua adoção. Falo do garoto que outro dia mais sujou do que limpou o vidro do meu carro quando parei em um semáforo. Alguém pensa nessas crianças?

A turba que se manifestou diante do MAM e os signatários do abaixo-assinado que pede nada menos que o fechamento do museu desejam nos fazer acreditar que eles se preocupam, sim, com as crianças. Correram todos para as portas da instituição, com o valente Alexandre Frota à frente e o valoroso MBL na retaguarda, porque uma menina que faz três refeições ao dia tocou nas patas do bicho nu. Perdoem, manifestantes: eu não acredito na preocupação de vocês. Sequer respeito vocês: não consigo respeitar gente que faz levianamente a grave acusação de pedofilia, gente que não tem senso nem de proporção, nem de ridículo.

Não, eu não  levaria uma criança para ver La Bête (aliás, tampouco levaria um adulto). E sequer descarto totalmente a possibilidade de que essa experiência, ainda que breve, tenha sido prejudicial ou, em certa medida, traumática para a menina.  Só que isso não é problema meu, e nem dos auto-intitulados liberais que desejam regular a vida alheia. É problema exclusivo dos pais da garota  – e que pai ou mãe não terá jamais causado algum trauma ou ressentimento que o filho carregará para a vida adulta? (Em outro texto, comento brevemente o poema exemplar que Philip Larkin escreveu sobre o tema.) Criança em apresentação de homem nu é, vá lá, inapropriado. Mas falar em pedofilia revela uma desmedida estúpida e uma estupidez desmedida. Pedófilo corre o risco de se tornar o novo fascista: um vitupério político, esvaziado de sentido pela banalização na discurseira sem fim das redes sociais.

Em si mesmo insignificante, este caso foi inflado por seu valor de propaganda na estúpida “guerra cultural” da internet, como, de resto, já ocorrera no episódio do Queermuseu. A idiotia da disputa ideológica nunca terá descido tão fundo: o homem-pelado-com-criança no MAM levantou, ao que parece, mais indignação do que o escabroso caso do menino que dormia na cela de um estuprador no Piauí (eu pelo menos não soube de nenhum ex-ator pornô levantando cartazes na frente da colônia penal). Essa desproporção diz muito sobre a miopia moral dos nossos moralistas.

 

 

 

 

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