Em HQ, artista argentina entrelaça crise de 2001 com história de imigração
Premiada desenhista Sole Otero fala sobre relação de amor e ódio com avó que saiu da Itália para fugir do nazismo
Naftalina, lançada recentemente pela WMF Martins Fontes, entrelaça a crise econômica de 2001 na Argentina com a saga de uma família de imigrantes italianos. A graphic novel da artista argentina Sole Otero é narrada pela jovem Rocío, que revisita a vida de sua avó, Vilma, em uma trama sobre renúncias, segredos e a complexidade dos laços familiares.
Nascida em Buenos Aires em 1985, Sole é ilustradora, designer têxtil e autora de títulos elogiados como Poncho Foi e Intensa. A artista combina uma narrativa sensível com um apurado uso de cores e texturas influenciado por sua formação têxtil. Nesta entrevista a VEJA, ela discute as fronteiras entre memória e ficção, o papel do feminismo em sua obra e suas inspirações visuais.
Para começar pelo básico, como você chegou à ideia deste livro? Naftalina foi a primeira ideia que tive para uma novela gráfica, porque é muito inspirada na minha família, sobretudo na minha avó paterna. A ideia surgiu quando ela morreu, já há bastante tempo — embora no livro a data da morte seja ficcionalizada. Ela teve uma vida complexa, muito contraditória, e foi uma pessoa que eu amei e detestei ao mesmo tempo. Eu queria falar sobre essa contradição de sentimentos, meus e dela. Foi um projeto que guardei por muito tempo; fui deformando e “amassando” a ideia enquanto fazia meus outros livros. No início, não sabia bem como abordar o tema, mas com o tempo encontrei a forma de contá-lo e ele acabou se tornando meu terceiro livro.
Como foi para você lidar com o tema da religião? Fui praticante por 20 anos e isso era realmente parte da minha identidade. Acredito que há uma mudança geracional profunda, muito relacionada a uma identidade argentina — e provavelmente brasileira também — em que a tradição do catolicismo foi se desfazendo nas nossas gerações. Há uma diferença de perspectiva entre o que acontecia na geração da minha avó, com seus mandatos católicos, e a forma como nós, talvez distanciados disso, questionamos e vemos essas regras de outra maneira, muito conectadas também ao feminismo.
Quanto tempo você dedicou à pesquisa? Como foi esse processo para você? O processo teve duas partes. Entre o momento em que tive a ideia e o momento em que comecei a desenhar, passaram-se muitos anos de reflexão e terapia sobre o tema. Cheguei a escrever um primeiro roteiro e fazer páginas de teste, mas abandonei para fazer Intensa, meu segundo livro, pois sentia que ainda precisava resolver algumas coisas. Voltei ao projeto em 2019.
E o que aconteceu depois? A pesquisa propriamente dita foi pequena, pois a história baseia-se muito em anedotas familiares e histórias do bairro. Misturei as duas famílias italianas, a do meu pai e a da minha mãe, porque conhecia melhor a história materna, enquanto a paterna estava um pouco perdida. Fiz uma viagem à Itália para tirar o passaporte e aproveitei para visitar Coriano, o povoado onde minha avó cresceu. Não foi uma grande investigação, fui mais para tirar fotos e sentir o ambiente. O trabalho maior foi de montagem: compilar essas histórias para criar uma ficção interessante de ler, sem deixar de falar sobre o que eu queria abordar da minha família.
E qual era o centro dessa história que você queria contar? O centro era tentar entender a minha avó. Tentar compreender de onde vinha aquele ressentimento ou o maltrato que ela às vezes dirigia aos outros; entender que essa raiva vinha do fato de ela ter querido ser algo que não pôde, porque não a deixaram. Naquela época, isso começava a ser visto como uma injustiça, não mais como algo natural. O fato de ter se sacrificado pelos outros contra a sua vontade a deixou amargurada. O livro é um ato de tentar entendê-la para não repetir os mesmos passos, como na constelação familiar: ao compreender a impostura de outra pessoa, tento mudar isso em mim, aproveitando a possibilidade geracional de não seguir os erros dos nossos antepassados.
O que Naftalina diz sobre a Argentina de hoje? O livro situa-se na crise econômica de 2001, mas eu o fiz num momento em que sentia que a Argentina se aproximava de uma crise semelhante. Eu estava de saída para viver na França por questões econômicas, e conectei isso com a história daquelas pessoas que, em 2001, tiveram que partir. Colocar a personagem perdendo a avó naquele momento tinha a ver com o que eu estava vivendo. Embora o estouro de 2001 não tenha se repetido exatamente daquela forma, a Argentina vive ciclos de crise. Não tivemos uma fuga massiva como na Venezuela, mas há essa conexão com a história da minha avó: ela foi uma imigrante que veio da Europa trazendo esperanças para este continente, e agora as gerações seguintes fazem o caminho inverso.
O ambiente dos quadrinhos sempre foi muito masculino, mas agora vemos nomes como você ganhando destaque. Como você vê esse despertar para o trabalho das mulheres nas HQs? Primeiro, há um contexto global nos últimos 50 anos em que as mulheres passaram a ter mais disponibilidade para produzir obras artísticas. Nos quadrinhos, especificamente, o rótulo “novela gráfica” ajudou a aproximar leitores de temas mais intimistas, como acontecia na literatura. Mas não foram só os temas intimistas; as mulheres também chegaram aos quadrinhos de gênero e super-heróis. Isso tem a ver com as ondas do feminismo e com pioneiras que abriram caminho. Eu li [a iraniana] Marjane Satrapi na adolescência e ela foi uma grande inspiração para eu perceber que podia contar uma história assim. Na Argentina, Maitena também foi uma referência no humor gráfico, mostrando que era possível.
Você já visitou o Brasil para divulgar seu trabalho? Estive no Brasil em 2016, em um festival em Belo Horizonte [o FIQ], com o coletivo Chicks on Comics. Conheci um pouco da fronteira e o Rio de Janeiro, mas foi essa a única vez que fui a um festival aí.
Você está trabalhando em algo novo agora? Sim. Tenho um livro posterior a Naftalina, chamado Walicho, que é sobre bruxaria, uma história de terror ligada às raízes coloniais e à mistura de culturas na Argentina [programado para ser publicado em 2027]. E agora estou trabalhando em uma história pós-apocalíptica situada na Patagônia. É sobre vários personagens tentando recomeçar e recuperar as esperanças depois de uma destruição pessoal e mundial. Senti a necessidade de fazer algo que me desse um pouco de esperança diante do cenário político e ecológico atual.
Poderia indicar três autores argentinos de quadrinhos que você considera fundamentais? Quino é fundamental; ele deixou uma marca em toda a história da HQ argentina, muito sólida e vanguardista. Para citar nomes da minha geração ou contemporâneos que me inspiram: Powerpaola — que é equatoriana/colombiana mas viveu muito tempo na Argentina e começou comigo —, ela conseguiu coisas na novela gráfica que me ajudaram a decidir caminhos. Também citaria Juan Sáenz Valiente e Ignacio Minaverry. Minaverry é um autor muito único, com uma estética e temas incríveis, um dos melhores autores que temos agora na Argentina.
Seu traço me lembra muito a estética da xilogravura. Como sua formação em design têxtil influenciou isso? Estudei design têxtil na faculdade, o que me ajudou muito a montar paletas de cores e entender como combiná-las. Sou um pouco autodidata no estudo da cor, observando como diretores de cinema a utilizam para expressar emoções, o que conecto com a minha sinestesia (conecto emoções e sons a cores). O design têxtil aparece no meu interesse por texturas e padrões; em Naftalina, uso papéis de parede decorativos nos fundos e mostro a avó bordando. Aprendi a tecer e bordar com as mulheres da minha família, então usar essas texturas foi uma forma de plasmar essa herança no livro.





