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Fernando Schüler Fernando Schüler Por Fernando Schüler

Eufrásia e Carnegie

A grande sacada é que os ricos doem em vida. Apliquem seu dinheiro de um jeito inteligente e evitem sua dispersão

Por Fernando Schüler Atualizado em 3 dez 2021, 10h30 - Publicado em 4 dez 2021, 08h00

Eufrásia era sinhazinha da fazenda de Hera, neta do barão de Itambé, herdeira dos Teixeira Leite, nobreza do café e do embrionário capitalismo brasileiro, no triste século XIX. Quando o pai morreu, no início dos anos 1870, decidiu ser uma mulher do mundo. Foi para Paris, com a irmã, fez-se investidora, multiplicou a fortuna herdada. No meio do caminho teve um romance desses tórridos e enrolados, com Joaquim Nabuco, mas isso é outra história. No fim da vida, tinha ações de 297 empresas. Morava em um palacete, perto do Arco do Triunfo, e sua fortuna valia coisa de 2 toneladas de ouro.

Pouco antes de morrer, em um apartamento de Copacabana, em 1930, Eufrásia fez seu testamento, legando quase tudo que tinha a Vassouras. Entre muitas coisas, mandou que cuidassem da chácara de Hera, que abrissem um hospital e dois educandários, um para ensinar as meninas a “lavar, engomar, coser e bordar”, outro masculino, para iniciar os meninos nas “artes mecânicas”. Tudo com o cuidado de dar 20 contos aos mendigos de Vassouras e 20 000 francos aos de seu quarteirão, em Paris.

O futuro foi ingrato com as doações de Eufrásia. O educandário masculino acabou virando uma unidade do Senai. O instituto feminino fechou as portas quando as freiras se foram, no início dos anos 1990. O hospital está lá, até hoje, deficitário. A Casa da Hera prossegue intacta, e vale a visita. Para bancar a caridade, Eufrásia mandou liquidar seus bens e garantir “a importância em dinheiro”. Comprou apólices da dívida pública, com juros de 5% ao ano. Não previu a hiperinflação brasileira, que ajudou a derreter seu legado.

Alguns anos antes, no lado norte da América, Andrew Carnegie também vinha fazendo suas doações. Só que de um jeito diferente. Imigrante pobre, self-­made man, Carnegie fez fortuna na siderurgia, na segunda metade do século XIX. Com 66 anos, vendeu suas indústrias a J.P. Morgan e se tornou o maior filantropo americano.

Fez diferente de Eufrásia. Em vez de dispersar seu dinheiro em doações assistenciais, optou por criar instituições. No coração de Manhattan, criou o Carnegie Hall. Tchaikovsky regeu sua Marche Solennelle no concerto inaugural. Fundou o Carnegie Endowment for International Peace, já eleito como o melhor think tank do planeta. Aos 76 anos criou a Carnegie Corporation of New York, para cuidar de sua fortuna e suas doações.

“A grande sacada é que os ricos doem em vida. Devagar aprendemos”

A história de ambos diz um pouco sobre nosso atraso. É evidente que a fortuna de Carnegie era muito maior do que a de Eufrásia. E que Eufrásia foi um ponto fora da curva, e em especial na história de nossas mulheres, até os inícios do século XX. Era uma financista de traço cosmopolita, e ao final da vida agiu com generosidade. Doou tudo à “caridade”, e é aí que se revelam não apenas suas limitações, mas o atraso evidente da formação brasileira.

Eufrásia poderia ter agido, como doadora, com a mesma sabedoria que o fez para acumular sua fortuna. Poderia ter criado uma corporação similar à estabelecida por Carnegie. Bem administrado, talvez fosse hoje o maior fundo de filantropia do Brasil. Não o fez. Investigar as razões disso pode nos ajudar a entender quem somos. E a melhorar como país.

A primeira razão está na cabeça das pessoas. Talvez vá aí a maior contribuição de Carnegie. Em 1889, ele escreveu um texto canônico da filantropia americana, “The Gospel of Wealth”. Ele parte da defesa do livre mercado e da acumulação da riqueza, base do progresso moderno, mas seu ponto crucial é: o que fazer com a riqueza?

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Há três opções. A primeira é deixar para os filhos. Carnegie tripudia. É preciso deixar educação, não riqueza. Heranças gordas servem mais ao orgulho familiar do que ao bem-estar dos filhos. Legar a riqueza ao morrer também é um erro. Além do risco da má gestão, há o problema ético. “Morrer rico é morrer desonrado”, provocou. É preciso viver, e não apenas morrer, com um propósito.

A grande sacada é que os ricos doem em vida. Apliquem seu dinheiro de um jeito inteligente e evitem sua dispersão. Visão ética da vida: ganhar dinheiro no mercado e depois investir em coisas que ajudem a melhorar o mundo. Criar bibliotecas públicas, por exemplo. Carnegie estudou numa, quando criança, e mandou construir perto de 3 000 ao longo da vida. Um século depois da última grande doação de Carnegie, Bill Gates e Warren Buffett criaram o Giving Pledge. Converteram a intuição original em um movimento global. Um clube dos bilionários que topam doar, em vida, metade ou mais de sua fortuna. Duzentos e vinte já assinaram.

Li a carta do jovem bilionário da tecnologia português José Neves se comprometendo a doar dois terços de sua fortuna. “A filantropia não é cultural em Portugal”, escreveu, “onde se espera que o Estado providencie quase tudo.” Me lembrei do Brasil. De nossos setenta bilionários, só Elie Horn topou. Tem muita gente boa por aqui, mas de algum modo continuamos mais atrasados do que Eufrásia.

Nosso maior desafio é institucional. Em vez de instituições independentes e sem fins lucrativos, lastreadas em endow­ments, como são as universidades da americana Ivy League (Harvard no topo, com seu fundo de 40 bilhões de dólares), continuamos apostando no velho modelo das autarquias federais, inteiramente dependentes do Erário, modelo que vale para quase todos os nossos grandes museus e orquestras, complicando a vida de quem quer doar e fazer com que as coisas andem para a frente.

Meio século depois da morte de Eufrásia, o banqueiro Moreira Salles criou duas instituições e dois endowments: o Instituto Moreira Salles e o Instituto Unibanco. Outros vieram, timidamente. Talvez tenhamos hoje trinta fundos razoavelmente estruturados, contra dezenas de milhares nos Estados Unidos. Devagar vamos aprendendo. Sinal recente disso são os fundos criados de baixo para cima, por ex-alunos de universidades. É o caso do Amigos da Poli, ligado à USP, hoje com algo próximo de 35 milhões de reais e investindo mais 1 milhão de reais por ano em projetos. Ele nasceu da “ideia maluca” de Eduardo Vasconcellos, ex-­aluno, e vem inspirando iniciativas em vários estados. É tudo muito incipiente e com um paradoxo gigante: fundos privados, gestão independente e visão de longo prazo, conectados a uma malha estatal estruturalmente ineficiente, em regra de costas para o mercado.

São as contradições brasileiras. Eufrásia queria educar meninas para “bordar e costurar”; Carnegie queria “colocar escadas ao alcance das pessoas”. Eufrásia converteu seu dinheiro em títulos do Tesouro; Carnegie em ações. Eufrásia esperou a morte para doar; Carnegie decidiu fazer em vida. Eufrásia distribuiu à caridade; Carnegie forjou instituições, multiplicando seu capital e projetando sua visão de mundo para muito além de si mesmo.

Ainda assim, saúdo Eufrásia porque podemos, quase um século depois, refletir sobre seus acertos e erros. Refletir sobre o mato que cresce, no entorno de muitas de suas obras, em Vassouras, metáfora triste de nosso atraso. Mas também sobre as coisas que vêm avançando, Brasil afora, e que ao tempo da colheita serão objeto de nosso orgulho.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 8 de dezembro de 2021, edição nº 2767

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