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Fernando Schüler Fernando Schüler Por Fernando Schüler

A espiral da tribo

Devemos trocar a paixão por um político pela defesa calma de ideias

Por Fernando Schüler Atualizado em 13 Maio 2022, 15h58 - Publicado em 14 Maio 2022, 08h00

Toda crítica ao meu candidato é “fascista”, escreve um ativista bacana nas redes sociais. Como se trata de intolerância consentida, “lado certo” da história, tudo bem. Fosse uma banalidade isolada, não haveria problema. Mas não é o caso, infelizmente. O radicalismo estéril voltou com força, e é provável que dê o tom ao debate eleitoral. Sua versão mais comezinha é a retórica do “golpe”. Não importa muito se há ou não conexão com a realidade. Importa deixar claro quem é a democracia, quem é a escuridão. A democracia deixa de ser um sistema, por definição aberto, comum a todos, e passa a ser um tipo de propriedade. No fim do dia é a lógica do medo, velha conhecida do marketing político. Filme visto em 2018, reprisado mês a mês, nos últimos três anos, e agora novamente. Sinal de que de algum jeito funciona. Serve de salvo-conduto para toda sorte de palavrões e gesto intolerante, além de, claro, render alguns votinhos.

Outro sinal de que passamos do ponto na histeria política é a destruição serial das amizades no altar da política. As histórias me chegam a toda hora. Dos velhos amigos que deixam de se falar; da madrinha “desconvidada” pelos noivos por um post no Facebook. Da música que o sujeito se nega a gravar porque o compositor votou no outro candidato anos atrás. Para quem é militante e faz da política sua vida, isso pode fazer lá algum sentido. Para a maioria das pessoas, é apenas um sinal de perda de autonomia pessoal, além de coisas muito básicas sobre a civilidade. Da política, enfim, que vai invadindo esferas da vida que deveríamos proteger.

Os remédios para essas coisas são difíceis. O primeiro deles é cultivar alguma dose de dúvida sobre si mesmo. Considerar, por exemplo, que você pode estar redondamente enganado em suas escolhas políticas. O militante típico costuma rir disso, do alto de sua pilha de certezas. De minha parte, sempre achei a hipótese fascinante. E um certo alívio. Se por acaso eu tivesse a “certeza de Deus” de que domino a verdade, meu único dever seria largar tudo e me tornar profeta Zaratustra de minhas próprias opiniões. Conheço muita gente assim.

No limite extremo, essas coisas terminam em tragédia. Foi o que aconteceu com Wynn Bruce, ativista ambiental que se imolou em frente à Suprema Corte americana dias atrás. Era budista, tinha 50 anos, sujeito inteligente, mas estava convencido de que era preciso fazer alguma coisa com o aquecimento global. Em um fim de tarde de abril, sentou-se em frente da Corte, colocou fogo em si mesmo e ardeu durante um minuto, sem um pio. Rendeu algumas matérias tristes nos jornais e uma pequena homenagem, que juntou cinquenta pessoas. Um dia, quem sabe, seu gesto inútil será uma nota de pé sobre o perigo de levar certas ideias longe demais.

“Devemos trocar a paixão por um político pela defesa calma de ideias”

Outra razão para jamais cair no buraco sem fundo do radicalismo político diz simplesmente que, em que pese a política e as eleições sejam importantes, tendemos a exagerar. Os políticos, por óbvio, dirão o contrário. Eles e todo o ecossistema que vive da política, incluindo ativistas e marqueteiros, tentarão nos convencer de que o que está em jogo é incrivelmente importante. Dirão que esta eleição “definirá quem somos”, será a “mais decisiva da história republicana”, como já comecei a ler por aí. Conversa fiada. Acompanhei todas as nossas oito eleições presidenciais, desde 1989, e em todas se escutou coisas do tipo. Eleições fazem parte do feijão com arroz da democracia, e — com mais ou menos barulho — não será diferente desta vez.

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Os marqueteiros das campanhas também vão tentar nos convencer de que os candidatos expressam a mais perfeita dicotomia entre o bem e o mal. Que um é a civilização, outro a barbárie; que um quer a paz, outro a guerra; que “um quer o ódio, outro o amor”, como vi em um filminho meloso dias atrás. Bobagem. Nossa história recente é mostra disso. Não faltou gente, nos últimos anos, dizendo que Lula e o PT nos empurrariam o “modelo venezuelano” goela abaixo. Que nosso caminho seria o “socialismo” e coisas do tipo. Não foi. Também não faltou gente dizendo que Bolsonaro era o “Chávez brasileiro”, que nosso destino era o “fascismo” ou, numa curiosa versão do túnel do tempo, a “Alemanha dos anos 30”. Também não foi. Em ambos os lados, é previsível, os delirantes continuarão delirando. É da sua natureza, não há muito que fazer.

Uma boa hipótese para entender o radicalismo reinante em nosso mundo político vem do que o jurista e filósofo americano Cass Sunstein chamou de “lei da polarização grupal”. A tese sugere que grupos nos quais a opinião é homogênea tendem a apresentar uma espiral de radicalização. Caminham implacavelmente em direção ao ponto extremo já indicado pela sua posição de partida. Vamos imaginar: se o grupo é bolsonarista, a turma logo estará vendo uma conspiração diabólica do STF e do “sistema” para derrubar o capitão; se é antibolsonarista, todos logo estarão “estarrecidos” (como, alias, li por esta semana) que ninguém perceba o golpe (sempre ele) que está sendo preparado “à luz do dia”. O.k., pode haver algum exagero na descrição, mas temo que não. A espiral de radicalização acontece basicamente pela ausência de ideias “inconvenientes”, na direção oposta, capazes de funcionar como mecanismo de freio, obrigando as pessoas (no mínimo) a justificar ou moderar suas visões, e um efeito identitário, que dá prestígio não a quem produzir desconforto, mas a quem se mostrar ainda mais leal às ideias da tribo. Em síntese, geramos homogeneidade em uma sociedade plural, por paradoxal que isso possa parecer. O fim lógico são as patologias do ódio. A solução do problema envolve, segundo Sunstein, “apostar em ambientes nos quais as pessoas se exponham aos pontos vulneráveis de suas próprias ideias, e não simplesmente a ecos, suaves ou não, de suas próprias vozes”.

Não acho isso nada muito simples. Romper com a polarização tribal supõe alguma disposição na direção dos outros. No fundo, supõe baixar a bola. Deixar de se imaginar em um episódio qualquer de Star Wars, brigando com Darth Vader e o império do mal, e imaginar, por um momento que seja, que o lado escuro da força casualmente possa ser o seu. Como costumava me dizer um bem-humorado professor, ainda não inventaram o help desk da verdade. Ainda bem.

O que no fundo deveríamos fazer é trocar a paixão por um político pela defesa calma de ideias. De todas, não vejo opção melhor do que a da liberdade. Além de expressar algo por si só valioso, sem o que somos apenas um pedaço de nós mesmos, a liberdade é, de longe, a paixão mais prudente. Se você estiver inteiramente errado na sua defesa, não terá enfiado goela abaixo de ninguém uma maneira de viver. Não apenas terá deixado que cada um faça suas escolhas, como jamais defenderá alguém ser posto no xilindró em razão de suas opiniões. Aprenderá mesmo a celebrar, com o tempo, que as pessoas pensem de um jeito completamente diferente do seu, e mesmo que possa haver algo a aprender escutando o que elas dizem. O que, aqui entre nós, nos dias complicados em que vivemos, já não é pouca coisa.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 18 de maio de 2022, edição nº 2789

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