A mulher do intelectual
Fechando um trabalho editorial e, portanto, sem tempo para escrever um artigo hoje, deixo vocês com o meu trecho favorito de uma obra-prima que sei quase de cor há muitos anos:
“Na medida em que se tiver opção, é preciso regrar-se de modo a estar tanto quanto possível nas imediações de pessoas superiores. A isso também a mulher do intelectual deve estar atenta. Que ela não abra a porta de sua casa às cegas; que seu tato seja tal qual um crivo; em vez da companhia das altas rodas, que ela estime a das almas elevadas; às pessoas que pretensamente têm muito espírito, que ela prefira pessoas de grande peso, instruídas e de juízo firme, sabendo-se que no mundo se passa tanto mais facilmente por espirituoso quanto mais radicalmente se deu cabo de sua inteligência. Acima de tudo, que ela não vá, por futilidade, por vaidade, por algum interesse sem maiores consequências, arrastar o marido para a casa de gente tola.
Mas o que estou dizendo? Os próprios tolos também nos são úteis e nos ajudam a completar nossa experiência. Não os procurem: deles já há o bastante! Mas aqueles que encontrarem, saibam tirar deles proveito, intelectualmente, numa espécie de contraprova, e humana e cristãmente, pelo exercício das virtudes de que eles são os clientes.
A sociedade é um livro a ser lido, apesar de ser um livro banal. A solidão é uma obra-prima; mas lembrem-se das palavras de Leibniz, que até do mais imprestável dos livros sempre conseguia tirar algum proveito. Os senhores não pensam sozinhos, tal como não pensam unicamente com a inteligência. Sua inteligência se associa a suas outras faculdades, sua alma a seu corpo, e sua pessoa a suas relações. É tudo isso seu ser pensante: componham-no o melhor que puderem; mas que as próprias taras que ele apresentar, tal como as doenças que tiver, tornem-se valores, por meio de algum louvável gesto de sua grandeza de alma.”
A.-D. SERTILLANGES, A vida intelectual, p. 60.
Felipe Moura Brasil – https://www.veja.com/felipemourabrasil
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