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Crítica e autocrítica

O Brasil pode criar novas balizas para o exercício do contraditório

Por Dora Kramer 2 nov 2018, 07h00

Ainda sob os efeitos do azedume geral, pode ser difícil pensar em produzir limonadas a partir da colossal quantidade de limões encruados nas almas e entalados nas gargantas país afora. Não falo de pacificações ao molde de conversões forçadas por um bom-mocismo de ocasião. Tampouco me refiro a pregações por união nacional mediante a interferência da figura de um pacificador, dada a semelhança com o anseio por um salvador.

Tudo isso é mito. Civilizatório, realista e institucionalmente pedagógico é o aprendizado do exercício do contraditório dentro das balizas do bom-senso. A eleição de Jair Bolsonaro, do jeito e pelas razões (ainda a ser completamente desvendadas e catalogadas) que ocorreu, põe o Brasil diante de uma preciosa oportunidade de subir de patamar na qualidade das relações entre governantes e governados.

Por paradoxal que soe, esse caminho foi aberto pelo ambiente de acirramento extremo que vem tomando conta do país já há algum tempo e que chegou aos píncaros durante a campanha eleitoral. Tivemos um processo inédito do qual resultou uma situação também sem precedentes. Nenhuma das eleições anteriores, desde a retomada do voto direto para presidente, produziu uma vitória que aborrecesse com tanta estridência tal volume de eleitores. O mesmo teria ocorrido caso o vencedor fosse o oponente, diga-se.

Somados os votos dados ao derrotado com a manifestação dos que preferiram não se posicionar (já expressando aí uma posição), grosso modo tivemos um contingente de praticamente metade do eleitorado habilitado. Isso significa que o eleito já inicia sua trajetória sob intenso mau humor social. Ruim? Depende da perspectiva. Se a ideia é que governos novos precisam ter aceitação unânime para se legitimar e conseguir trabalhar, a resposta é sim, bem ruim.

Podemos, contudo, adotar outro ponto de vista, aquele segundo o qual a existência de uma substanciosa massa crítica no país melhora a sociedade, aumenta o grau de consciência de cidadania e alimenta a noção de que governos existem para servir à coletividade, e não para servir-se dela com apropriação indevida do dinheiro de todos e da captura de consciências. Nesse caso, a existência de uma oposição social vigorosa é benéfica. Já vimos o que a subserviência a mitologias da propaganda oficial fez nos governos do PT.

Estabeleceu-se a lógica da criminalização da crítica, e, com isso, os então locatários do poder sentiram-se desobrigados de qualquer autocrítica. Quando tentaram voltar, depararam com uma força antagônica cujas fundações foram fincadas no pecado original do elogio à unanimidade. Não fosse isso, talvez as coisas tivessem tomado outro rumo em decorrência da vigilância e das exigências rigorosas da sociedade.

Jair Bolsonaro não terá a vida boa de Luiz Inácio da Silva no tocante à aceitação impune por longo período. E querem saber, senhoras e senhores? É ótimo que assim seja.

Publicado em VEJA de 7 de novembro de 2018, edição nº 2607

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