Os três porquinhos e uma casa chamada corpo
Inspirada na fábula, uma conversa durante um voo revela histórias de disciplina, doença e superação — e lembra que a saúde também é uma construção diária
Nessa genial fábula, três porquinhos constroem suas casas com materiais de diferente resistência e, quando um malvado lobo tenta atacá-los com seu potente sopro, as duas primeiras — de palha e madeira — não resistem e obrigam os porquinhos a irem para a terceira, onde a sólida construção, que deu mais trabalho, demandou mais tempo e persistência, suporta bravamente o ataque, evitando que o maldoso lobo devorasse os porquinhos.
Como sabem, vivo viajando por aí. E não é que eu e dois porquinhos sentamos juntos na mesma floresta chamada avião? Só que, diferentemente da história, os três construíram casas sólidas.
Passamos a viagem falando da nossa preocupação, de como tem sido comum ver porquinhos que não se preocupam com a construção de suas casas. Meus companheiros de viagem tinham histórias incríveis. A primeira contou que esteve fora do seu peso por muito tempo e que, apesar de passear pelo quintal da vida sem dificuldades, percebia as indiferenças e limitações que esse excesso de peso lhe trazia.
Aos poucos, com planejamento, dedicação e muito esforço, foi construindo sua nova casa — na verdade, seu novo corpo. Retirou 60 kg de entulhos e hoje vive em um lar bonito, confortável, do jeito que sonhava. Sem cirurgia ou medicações, somente com determinação. A manutenção não tem sido fácil, mas ela sabe que, se descuidar de sua construção, o lobo mau da obesidade e de outras doenças pode entrar. É uma luta diária o cuidado com a alimentação e a atividade física, mas ela bem sabe que é a única maneira de cuidar do seu lar.
O segundo porquinho também tem uma história fantástica de como se dedicou para ter um lar firme. Sentado em uma cadeira de rodas motorizada, contou como sua vida mudou ao descobrir, aos 14 anos, que estava desenvolvendo uma doença que limitava seus movimentos. Não desistiu: procurou orientação e tratamento e, passados mais de uma década, estava com uma enorme e sólida vontade de viver. Sabia que sua força seria testada diariamente pelos lobos das limitações, mas que ele não os deixaria passar da porta de sua casa. “Pode soprar o quanto quiseres, que não tenho medo!”
Eu era o terceiro e, dentro da minha confortável e consistente casa, não parava de admirar o enorme esforço de meus companheiros de voo.
Depois de conhecermos a história de nossas casas, começamos uma longa jornada avaliando como grande parte da população está cuidando mal das suas, chamadas corpo humano. A obesidade vem aumentando. Dados da última análise do Ministério da Saúde demonstram que 62% da população brasileira está morando em casas de madeira — ou seja, está acima do peso — e 25% em casas de palha, já com obesidade.
Como toda residência, se não cuidarmos da manutenção e da estrutura, ela tem grande chance de ficar fraca e, em um sopro — que não será de um lobo, mas sim do próprio organismo —, tudo desabar. Só que, diferentemente da fábula, não teremos outra para nos abrigar.





