O ‘poderoso chefão’ da saúde: as máfias das canetas emagrecedoras
Como no enredo do clássico filme, há maus profissionais de saúde aproveitam os novos tratamentos para entrar no "rentável negócio" da obesidade e diabetes
“O Poderoso Chefão”, essa obra-prima do cinema que cativa gerações de fãs da grande tela, é inquestionavelmente uma das minhas preferidas e, certamente, de milhões de cidadãos, embora possua um detalhe devastador: a valorização e idolatria, de forma imperceptível, por um criminoso, que não prospera apenas pela violência, mas pela exploração da vulnerabilidade humana.
Com um elenco de gigantes e uma direção e enredo perfeitos, nos envolvemos e viajamos em uma saga de bandidos que nos parecem poderosas pessoas com valores de família. O menos enaltecido é um filho que se dedicou a uma carreira militar difícil, à base de muito estudo e sacrifício, conseguindo até um reconhecimento por títulos, mas sem os ganhos financeiros de seus irmãos. Com o tempo não resiste ao poder da “família”.
A carreira de um médico, como de muitas outras profissões, envolve caminhos muito difíceis e uma luta eterna pelo reconhecimento de seu valor financeiro e profissional e, assim como na tela, existem também os criminosos.
Com a chegada das novas drogas no mercado, quero dizer, canetas emagrecedoras, gangues de maus “profissionais” de saúde das mais diversas áreas resolveram entrar no rentável negócio da obesidade e diabetes. São milhões de usuários que necessitam dessas drogas (lícitas) e farão de tudo para comprá-las. Existem as “famílias dos médicos”, dos “nutricionistas”, “dentistas”, “biomédicos”, dentre outras menores, que tentam dividir os seus territórios e manter seus inescrupulosos lucros não se preocupam com o usuário. A máfia vende proteção falsa. As canetas falsificadas vendem saúde falsa. E assim como no filme, a oferta não é irrecusável, é perigosa.
O tráfico se tornou internacional e digital. É possível comprar as canetas para revenda de países como Paraguai, e também da internet. E, diferentemente até dos traficantes de cocaína, ninguém avalia a qualidade do produto, o que importa é vender.
No universo mafioso, quem entra no jogo aceita riscos sem conhecer as regras. E no mercado das canetas ilegais não é diferente: não há controle de procedência, não há garantia de composição, não há responsabilidade médica, não há quem responda quando algo dá errado. Mas há quem compre. A difusão de conteúdos elaborados por gangsteres da área da saúde contribui para a comercialização dessas drogas para emagrecimento de forma ilegal. Assim como os mafiosos, os responsáveis por isso oferecem uma esperança distorcida a pacientes que buscam uma saída desesperada. Novas drogas como a retatrutida, que nem estão liberadas para uso, também já são comercializadas e são alardeadas como mais potentes e poderosas. Bem como na trama, a parte séria dos órgãos fiscalizadores do governo tenta de alguma forma impedir, instituindo normas, fazendo apreensões e prisões, mas acaba perdendo a batalha.
Don Corleone é um simpático senhor, com seu olhar poderoso e sedutor, impõe respeito e não mede escrúpulos para aumentar seus lucros. Hoje, vivemos uma perigosa idolatria pelas falsas verdades vendidas nas redes sociais e seus Don Corleones. No cinema, a máfia é estilizada. Na vida real, ela é suja, silenciosa e destrutiva. Bocas, quero dizer clínicas, vendem e injetam de forma ilegal substâncias de origem duvidosa, muitas vezes produzidas em “laboratórios” clandestinos. Mas o que fica visível aos pacientes são mafiosos vestidos de branco. Pessoas morrem, apresentam reações graves, mas as “famílias” só pensam nos negócios. Como na ficção, formatam encontros e decidem sobre estratégias de como se manter nesse rentável mercado, fugindo da lei e da ordem. Formatam novas sociedades, especialidades e tentam usar algumas interpretações da lei a seu favor. Mas quando a saúde é usada como moeda de troca, o crime deixa de ser simbólico e se torna ético e fisicamente violento.
É curioso como o ser humano se seduz e admira o dinheiro e o poder. A sensibilidade, dedicação, profundo zelo e cuidado com o paciente, não parecem mais interessar nesse filme chamado vida real. O personagem bonzinho, chamado de bom médico, assim como na trama de Hollywood, está perdendo audiência para os gangsteres, mas certamente não perderá para a história, pois o final de todos que decidem por esse ilícito caminho foi muito bem demonstrado por Marlon Brando e seus comparsas.”





