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Cristovam Buarque

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Um sonho para a COP30

O ideal seria ter os países unidos em nome da humanidade

Por Cristovam Buarque 19 set 2025, 06h00 | Atualizado em 19 set 2025, 16h38
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Em recente entrevista, o líder indígena, ambientalista e filósofo Ailton Krenak foi direto ao ponto, ao descrever seus temores em relação à COP30, marcada para novembro em Belém: “A sociedade fora, os povos originários fora, a Amazônia fora, e o mercado dentro”. O acadêmico da ABL alertou para o risco de desperdiçarmos uma grande oportunidade. O evento, realizado com a coordenação do embaixador André Corrêa do Lago, diplomata experiente, confiável e de visão humanista, pode culminar em desesperança, sem reais caminhos para barrar a marcha rumo à catástrofe ecológica.

Há um problema que se sobrepõe a todos os outros: as autoridades de cada país zelam, sobretudo, por suas fronteiras e pelas soluções a curto prazo. Há disputa entre posições de dirigentes nacionais e muito pouco de um olhar para o futuro da humanidade. Não pensam, enfim, em cada país como pedaço do mundo. O egoísmo, ainda que embebido de ideias louváveis, é norma.

“Um caminho é substituir a ampliação do consumo pela ampliação do bem-estar”

A COP30 repetirá o erro das 29 edições anteriores se for um encontro de nações em busca de compensações financeiras para suas transições energéticas, e ponto. É preciso reorientar, a médio prazo, a marcha da civilização na lida com o crescimento da produção e do consumo. É preciso ensinar as crianças, hoje, a serem adultos mais atentos. A transição para o equilíbrio ecológico e o desenvolvimento sustentável não está, enfim, apenas na mudança das fontes de energia. O segredo, se é que existe, está na educação infantil para formar uma mentalidade com novos objetivos de progresso da humanidade. A COP30 pressupõe, portanto, de modo a não fracassar, aquilo que as anteriores não fizeram: pôr o tema educacional no centro das conversas e decisões. Trata-se de estabelecer um compromisso mundial para oferecer escola de qualidade aos 2 bilhões de crianças em idade escolar, seja no modelo tradicional, seja utilizando as novas ferramentas da internet e da inteligência artificial. Trata-se de promover conteúdo que forme nova consciência, baseada em um pacote seminal de princípios: reconhecer que todas as economias e populações estão interligadas e compartilham um destino comum, ameaçado pela crise ambiental e pelo abismo da desigualdade; formular uma nova geografia, em que os países estejam entrelaçados; promover um sentimento de solidariedade e respeito entre os seres humanos — e destes com a natureza, que os sustenta e enriquece.

O modo mais sério, e talvez o mais rápido, de chegar a esse ponto é alinhar-se com a visão de Krenak, do diálogo permanente com a Terra. A resposta adequada é adotar um propósito que substitua a ampliação do consumo pela ampliação do bem-estar, da liberdade, do deslumbramento estético e da sustentabilidade no longo prazo.

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Dificilmente os dirigentes nacionais reunidos na COP30 aceitarão essa pauta planetária e de longo prazo para a promoção da educação. Mais uma vez, a pauta deverá se concentrar em quantos dólares serão canalizados para cobrir as perdas, e não em quanto seria necessário para financiar a educação que — ela, sim — pudesse promover a transição da consciência das novas gerações em direção a novas diretrizes civilizatórias. É quimera aparentemente impossível — mas nada impede o sonho possível, o desejo de um mundo genuinamente melhor.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2025, edição nº 2962

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