Um dia na seita de Gwyneth Paltrow, a guru das curas alternativas
Jornalista expõe em livro a força e as falácias da indústria do bem-estar, estrelada por nomes como o da atriz americana. Leia trecho exclusivo
Um verdadeiro banquete para os curiosos, uma mistura confusa de teatro e práticas de bem-estar, a conferência da Goop poderia muito bem ter sido chamada de Convenção de Saúde Alternativa. Seiscentas mulheres bem-vestidas pagaram de US$ 500 a US$ 1.500 por um dia inteiro de alimentação saudável, mimos sem toxinas e a oportunidade de admirar a Gwyneth sem culpa.
Dentro de um galpão em Century City que mais parecia um hangar de jatos de luxo, as convidadas aprenderam a importância das bactérias intestinais, como nossas mentes manifestam doenças no corpo e o uso de veneno de rã como agente de cura. Elas bebericavam café Bulletproof (com adição de manteiga e óleo de coco) para “turbinar o cérebro”, enquanto recebiam vitamina B12 na corrente sanguínea por via intravenosa. As mais jovens analisavam o futuro com um xamã empunhando cristais. Outras passaram por uma “leitura de aura”.
A fundadora da Goop, Gwyneth Paltrow, levou consigo suas amigas famosas. Eram, como ela mesma afirmou, amigas com quem ela constantemente trocava contatos de curandeiros: a atriz Cameron Diaz, a estilista Nicole Richie e a supermodelo Miranda Kerr. Esta última estava empolgada para compartilhar sua descoberta mais recente: a terapia com sanguessugas, em que essas criaturas pegajosas sugam o rosto de uma pessoa e o sangue coletado é, então, espalhado de volta sobre a pele. “Saúde é riqueza”, disse Kerr à plateia.
Para ser justa, nem todas as fãs da Goop levam Paltrow a sério. Para elas, a atriz e seu site de estilo de vida são mais uma forma de entretenimento do que uma fonte confiável de informações. Saber que algumas das recomendações de saúde promovidas pela Goop levantam mais do que algumas dúvidas faz parte da diversão — é parte da “jornada”, como talvez Gwyneth dissesse. Elas recebem de braços abertos (e tonificados pelo Pilates) o kit de enema de café de US$ 135 e a vaporização vaginal (supostamente para “limpar” o útero).
De certa forma, a Goop não é muito diferente dos caixeiros-viajantes do século XIX, que transformaram apresentações médicas itinerantes em eventos populares de entretenimento. Brandindo elixires mágicos e misturas com infusão de ópio, esses vendedores conheciam bem a psicologia da persuasão; percebiam uma lacuna que poderia ser facilmente preenchida com tônicos, um pouco de empatia e truques hipnotizantes no palco. E o público não via problemas nisso. Muitos sabiam que o Rattlesnake King [um curandeiro americano do século XIX] caminhava na linha tênue entre saúde e sensacionalismo. Para eles, assistir ao show de charlatanismo era sua versão de um jantar seguido de um cineminha. A elite de Santa Monica não é diferente: eles fazem sua colonterapia com uma pitada de ceticismo.
A conferência oscilava entre informativa e empoderadora, excêntrica e totalmente pseudocientífica — mas, acima de tudo, foi divertidíssima. As mulheres se recostavam em espreguiçadeiras na área externa decorada com a marca, fazendo amizades e trocando ideias sobre práticas de meditação e estilos de tênis. Enquanto eu fazia uma “manicure orgânica” (uma manicure com esmalte “não tóxico”), conversei com uma mulher de 20 e poucos anos que havia passado a última hora assistindo ao desfile de moda.
“Mas elas não estão todas só de legging de ioga?”, perguntei.
“Sim”, ela respondeu, “mas são as melhores leggings de ioga”.
As filas mais longas levavam, naturalmente, direto aos caixas, em uma cena que só pode ser descrita como a Black Friday do autoaperfeiçoamento. As fãs da Goop talvez estivessem ansiosas para saber mais sobre o último modismo em saúde, mas eram suas tendências consumistas que impulsionavam o faturamento do site com anúncios e produtos.
A partir das 9h30, as participantes lotaram diversas lojas internas, cada uma dedicada a um setor diferente, como athleisure (tendência que mistura peças esportivas e casuais), beleza e produtos para o lar. E, é claro, todas as palestrantes aproveitaram para promover seus próprios livros e linhas de suplementos. Não é de se admirar que a empresa esteja avaliada em mais de US$ 250 milhões.
Paltrow, no entanto, continua sendo a maior atração. Enquanto as participantes se aglomeravam nos assentos do auditório, a fundadora da Goop subiu ao palco usando um vestido longo de grife com estampa paisley. “Por que nenhuma de nós tem se sentido bem?”, perguntou ela à plateia. “E o que podemos fazer a respeito?”. Uma boa pergunta, para a qual a atriz, transformada em guru, oferece respostas em forma de sucessivas dietas detox.
Olhando ao redor do salão abarrotado de bolsas Louis Vuitton, eu não tinha dúvidas de que aquela plateia tinha acesso a médicos e especialistas e aos melhores serviços de saúde do país. Ninguém ali parecia doente. Ninguém agia como se estivesse doente. Uma maquiadora negra que trabalhava em um estande de retoque — uma das poucas mulheres não brancas no ambiente — comentou: “Para mim, elas parecem bem”.
E, mesmo assim, lá estavam, lá estavam elas gastando centenas, ou até milhares de dólares, em conselhos de saúde dados por uma atriz sem nenhuma formação médica. Sem formação alguma na área. E, certamente, sem qualquer aceitação pela medicina tradicional. A mesma atriz que admitiu, quando confrontada pelo apresentador de TV Jimmy Kimmel sobre as recomendações mais bizarras da Goop: “Caramba, eu não faço a menor ideia do que a gente fala por lá”.
Enquanto Gwyneth Paltrow continuar oferecendo acolhimento, as fãs da Goop não questionarão uma mulher adulta que já declarou ter feito uma purificação de oito dias à base de leite de cabra — uma dieta que, segundo especialistas médicos, não oferece benefício algum, exceto “mais flatulência”.
Então, se não tem aceitação da medicina nem respaldo de estudos científicos, o que se tornou tão sedutor na Goop? Como Paltrow conseguiu se infiltrar de forma tão eficaz na cabeça de suas clientes?
Parte da resposta está no campo da saúde alternativa, que cresce rapidamente. A Goop faz parte de um ecossistema maior e em plena expansão: hoje 30% dos norte-americanos usam medicina alternativa, sendo as mulheres mais receptivas a ela. Alguns recorrem aos tratamentos alternativos como um complemento, embora muitos os adotem em substituição à medicina ocidental. As mulheres, ou para ser mais exata, as mulheres insatisfeitas, lideram esse movimento.
Elas estão saindo do consultório médico em busca de algo mais. E a gorda galinha dos ovos de ouro de Gwyneth está feliz em botar ovos vaginais de jade para elas. Mas o que exatamente está inspirando essa conversão em massa?
* Rina Raphael é jornalista, com passagens por grandes veículos da imprensa americana, e autora de O Culto do Bem-Estar, recém-publicado pela Editora Contexto, em parceria com o Instituto Questão de Ciência





