Prepare-se para a próxima pandemia – e isso não é uma mera profecia
Médico começa a publicar trilogia sobre a história das doenças infecciosas - com lições do passado para crises que podem pintar no futuro
Se tem uma frase que viralizou entre médicos e cientistas dedicados ao estudo e ao manejo de doenças causadas por patógenos, é a seguinte: não se trata de discutir SE virá uma nova pandemia, mas de QUANDO ela virá. Parece catastrófica – e até é, se nos lembrarmos da crise da covid-19 -, mas ela tem fundamento biológico e histórico. De tempos em tempos, a humanidade é desafiada em larga escala por um micro-organismo.
Vivemos esse filme com o coronavírus, mas ele também foi rodado, com mais ou menos vítimas, entre gregos e romanos, com a Peste Negra na Idade Média e na esteira da avassaladora Gripe Espanhola no início do século XX, para ficar apenas em alguns registros. Na verdade, nossa trajetória entre vírus e bactérias remonta às nossas origens como espécie. Não só: as infecções ditaram caminhos e destinos entre nossas civilizações.
Das febres que derrubam o cidadão de cama às pandemias que fazem soar as trombetas do Apocalipse, o fato é que não dá para separar nossas vidas e a nossa história dos patógenos com os quais dividimos o planeta. E entender esse passado cheio de germes, pústulas e espirros é entender também como chegamos até aqui e o que podemos fazer para prevenir desastres futuros.
Essa é a proposta de De Miasmas a Vacinas, o primeiro volume de uma trilogia de publicação independente sobre a história das doenças infecciosas. Obra do infectologista Eduardo Toffoli Pandini, ela começa muito antes de o Homo sapiens pisar a Terra – sim, os micróbios vieram antes de nós -, percorre dezenas de teorias, povos e doenças até nos deixar em um século XIX assolado por pestes e guerras. E a saga continua, claro.
Em entrevista a VEJA, o médico-historiador conta o que mais o preocupa hoje e por que não podemos desmobilizar os esforços para detectar e conter uma próxima pandemia – até porque candidatos virais não faltam.
Com a palavra, Eduardo Toffoli Pandini.
Na história das doenças infecciosas, há um episódio que mais o intriga? Acho que a epidemia de influenza de 1918, que ficou conhecida como Gripe Espanhola. É curioso como é tão pouco lembrada nos dias de hoje. Ela começou durante a Primeira Guerra Mundial, mas provavelmente causou mais mortes do que a Primeira e a Segunda Guerra juntas. Houve uma espécie de ressurgimento da memória dela durante a pandemia de covid-19, mas ela ainda é menos referenciada do que a Peste Negra, por exemplo. Pode ter sido o trauma coletivo, ou o fato de sua memória se misturar com a da guerra, mas esse apagamento é bastante intrigante.
Pensando no saldo de aprendizados da pandemia de covid, acredita que a sociedade tenha incorporado ou esquecido as lições da crise? Infelizmente, a sociedade parece ter esquecido a maior parte das lições da pandemia de covid. Deveríamos reforçar a vigilância contra novos patógenos, e não desmantelar esse sistema, como tem sido feito. A oposição à vacinação e ao uso de máscaras se tornou uma plataforma política atraente em grande parte graças ao tom conspiratório e à dificuldade dos comunicadores sérios em fazer frente aos propagadores de fake news. A pandemia mostrou que esse é um tema extremamente relevante. Mas como lidar com notícias falsas em saúde de forma efetiva é uma lição que ainda precisamos aprender.
Hoje se fala do risco de novas epidemias por doenças evitáveis em razão da queda na imunização e da hesitação vacinal. Qual doença mais o preocupa nesse sentido? Diversas doenças evitáveis têm risco de retornar devido à hesitação vacinal. Dentre elas eu destaco o sarampo, pela alta mortalidade e fácil disseminação, e a poliomielite, pela possibilidade de causar sequelas como paralisia das pernas ou mesmo confinar pessoas a aparelhos de ventilação mecânica por meses ou anos.
Concorda com a expressão corrente entre especialistas: “A próxima pandemia não é questão de SE, mas de QUANDO”? Sim. Pandemias ocorrem periodicamente na história da humanidade, e hoje estamos expostos a cada vez mais patógenos, seja porque a civilização está presente em mais regiões do planeta, seja pela facilidade de transporte pelo mundo. Além disso, há uma quantidade enorme de vírus, bactérias e fungos por aí. A grande maioria é e continuará a ser inofensiva, mas um ou outro pode adquirir uma mutação ao acaso e se tornar perigoso para a nossa espécie.
Se tivesse que apostar em um patógeno para a próxima pandemia, qual seria? Fazer previsões é difícil, mas a forma como estamos lidando com a gripe aviária me preocupa. O vírus influenza A H5N1 vem causando uma grande mortandade entre aves selvagens e de criação e já demonstrou ser capaz de ser transmitido para mamíferos, mas não tem sido feito um esforço para rastrear e impedir a disseminação dele entre os animais, especialmente nos EUA. A cada vez que ele circula entre animais de criação, existe o risco de que adquira mutações que o tornem capaz de ser transmitido também entre humanos.







