Outros mundos: histórias para quem não se contenta com esta realidade
H.P. Lovecraft, China Miéville e o criador de The Witcher: lançamentos oferecem aventuras espetaculares e um bom programa para quem não vai pular o Carnaval
Um universo em que outras criaturas sencientes, inteligentes e híbridas dividem espaço com a nossa espécie – e a magia convive com a tecnologia. Uma terra onde bruxos cheios de cicatrizes são contratados para matar monstros que ameaçam aldeias. E um mundo onde entidades de outras dimensões cósmicas buscam penetrar nosso cotidiano, nos deixando atordoados e de cabelo em pé. Que tal desbravar histórias de tirar o fôlego de três escritores que ousaram criar outras formas de vida e realidade?
A Cicatriz
Autor: China Miéville
Editora: Boitempo Editorial
Tradução: José Baltazar Pereira Júnior
Páginas: 528
Poucos autores conseguiram conceber um universo tão peculiar e assombroso como o escritor britânico China Miéville com a sua série Bas-Lag. No primeiro volume da trilogia, Estação Perdido, somos apresentados a Nova Crobuzon, uma terra que parece egressa de uma revolução industrial, onde magias arcanas convivem com tecnologias sofisticadas e pessoas como eu e você podem ter relações afetivas e sexuais com uma raça de besouros humanoides. E acompanhamos os passos e os recuos de um cientista e seus exóticos comparsas que terão de deter uma ameaça que eclodiu pelos ares, as assustadoras mariposas-libadoras, numa aventura que inclui conexões com outras dimensões e outras formas carnais e robóticas de encarar a existência. No segundo título da série que acaba de sair no Brasil, A Cicatriz, deixamos Nova Crobuzon para navegar pelos mares até a colônia de Nova Esperium na companhia de uma linguista e uma carga viva surreal de seres híbridos e enxertados. Mas um ataque vai virar o destino da protagonista de cabeça para baixo e colocar personagens e leitores em rota de colisão com batalhas e criaturas das profundezas. Uma das melhores realizações do casamento entre fantasia e ficção científica, sem perder de vista a crítica social.
Ficção completa de H.P. Lovecraft
Autor: H.P. Lovecraft
Organização e tradução: Guilherme da Silva Braga
Editora: Penguin-Companhia
Páginas: 1640
Esta nova edição, que reúne em dois volumes a produção de contos e novelas do autor americano, vem colocar um clássico no panteão dos clássicos. É difícil pensar na literatura fantástica, nas histórias em quadrinhos e nos filmes de terror produzidos ao longo do século XX sem ver os dedos e as inspirações de H. P. Lovecraft (1890-1937). O mestre do horror cósmico idealizou forças e entidades de outras eras e dimensões no espaço que por vezes rompem as tramas da nossa realidade, desconcertando estudiosos, famílias e cidades. Mitos, criaturas difíceis de descrever, rituais de magia negra e alfarrábios com segredos sobrenaturais convergem numa prosa única, barroca e tensa a um só tempo. Um dos méritos desta antologia da Penguin-Companhia, organizada pelo expert Guilherme da Silva Braga, é intercalar os textos mais conhecidos do escritor – Dagon, O Chamado de Chtulhu, A Cor que Caiu do Espaço… – com outros menos famosos e não menos surpreendentes, sem falar em todo o apuro na tradução e nos materiais explicativos. Assim, tanto os fãs quanto os forasteiros serão enredados nos mistérios lovecraftianos.
A Encruzilhada dos Corvos
Autor: Andrzej Sapkowski
Tradução: Luiz Henrique Budant
Editora: WMF Martins Fontes
Páginas: 248
O universo de The Witcher foi popularizado com o jogo de videogame e, mais recentemente, o seriado de TV. Mas beber da fonte, isto é, ler os livros que colocaram o bruxo Geralt como um dos grandes personagens da literatura fantástica contemporânea é, de fato, uma experiência e tanto. Agora, temos a oportunidade de conhecer as origens do protagonista da série escrita pelo polonês Andrzej Sapkowski, que colocou tempero e folclore eslavos numa saga de contornos mágicos e medievais, gerando, assim, uma mitologia e uma geografia próprias. Em A Encruzilhada dos Corvos, quem já conhece esse mundo vai encontrar um Geralt recém-saído do covil dos bruxos, tentando ganhar moedas e a vida em troca da caça de terríveis monstros que azucrinam povoados. Mas você não precisa ter percorrido os outros livros para apreciar este aqui: a obra também se sustenta sozinha, no melhor gênero aventuresco. Em suas páginas, veremos como o bruxo de cabelos brancos ganhou suas primeiras cicatrizes – no corpo e na alma.





