O amor e outros demônios na União Soviética
Livro inédito de um dos grandes prosadores russos do século XX chega ao país em uma edição esmerada e espirituosa
Um dos maiores autores russos do século passado morreu no ostracismo, vivendo em um quarto de porão e fazendo faxina na União dos Escritores de Moscou. Entre o sonho da Revolução e o pesadelo stalinista, Andrei Platónov (1899-1951) deixou uma obra peculiar, uma espécie de reconstrução épica do cotidiano e dos anseios no coração de um povo comprometido com uma causa e várias paixões. Uma prosa estranha com gente esquisita aos olhos de quem vive no mundo capitalista do século XXI – e é nisso que residem seu assombro e encanto.
O leitor brasileiro tem a chance agora de conhecer um volume inédito desse “engenheiro ferroviário, filho de operário e sonhador”, nas palavras da tradutora Letícia Mei, que verteu o engenhoso Moscou Feliz ao português pela Editora Ubu. Nessa novela (ou romance?) inacabada, censurada por Stálin e publicada apenas com a queda da União Soviética (URSS) no início da década de 1990, podemos ter contato com uma rara mágica literária: Platónov constrói uma atmosfera que conjuga, ao mesmo tempo, inocência e ironia, crença e desilusão.
Moscou Feliz não é (só) a história de uma cidade, mas de uma mulher, órfã criada pelo Estado que se forma paraquedista e guarda na memória uma cena dos dias de Revolução que irá acompanhá-la dia após dia. Moscou Tchestnova é seu nome e, entre encontros e desencontros com funcionários do regime (reservistas, cientistas…), irá alimentar utopias, despertar paixões, semear decepções… Como o país que lhe serve de pano de fundo.
Para entrar nesse clima, a Ubu elaborou um projeto gráfico espetacular: uma edição em capa dura cujas páginas do texto são emolduradas por reproduções de uma revista fotográfica soviética que circulou entre as décadas de 1930 e 1940. Cada recorte conversa com as cenas do livro, como se fossem feitos um para o outro – aquele elo íntimo também sonhado pelos homens que amaram Moscou.
E só conseguimos desfrutar dessa prosa que suscita estranhamento, curiosidade e reflexão graças ao trabalho da pesquisadora e professora Letícia Mei, premiada tradutora do russo. Nesta entrevista, ela nos ambienta na União Soviética de Platónov, sintetiza quem é o autor e explica o poder de sua literatura.
Com a palavra, Letícia Mei.
No posfácio de Moscou Feliz, você comenta que figuras de peso como o Prêmio Nobel de Literatura Joseph Brodsky colocaram Andrei Platónov no panteão dos grandes autores russos do século XX. Poderia resumir, a quem nunca travou contato com ele, no que consiste sua força literária? Sem ser um dissidente, Platónov propõe uma língua nova, muitas vezes enigmática, para narrar o real em toda a sua complexidade e absurdo. Maksim Gorki, figura de proa do realismo soviético e que tentou defendê-lo inúmeras vezes, reconhecia seu talento, mas alertava: era, sem dúvida, um grande escritor, porém teria dificuldades para ser publicado, pois sua escrita apresentava a realidade “sob luz farsesca” e tinha algo de intrinsecamente anárquico. A partir de 1929, todo e qualquer experimentalismo artístico foi considerado ilegal e a arte deveria ter função pedagógica e doutrinária, enfatizando o conteúdo com vistas exclusivamente à educação socialista das massas e à criação do novo homem soviético. Assim, surge a figura ideal do “herói positivo”, consciente politicamente e disposto ao sacrifício pelo coletivo. Esse herói encontra-se na obra de Platónov, mas, ao contrário do esperado – um ser dotado de confiança absoluta no êxito da revolução e de crença inabalável num futuro auspicioso iniciado pela Revolução Bolchevique –, o herói platonoviano duvida, angustia-se e, portanto, sofre.
E isso causou problemas ao autor, certo? Era inaceitável para uma literatura que deveria ser didática, modelar e edificante. Um dos grandes méritos de Platónov é precisamente recusar (de forma consciente ou não) uma visão monolítica do ser humano e ousar construir uma linguagem literária que tateia, pela sátira ou pelo fantástico, em busca de respostas que nunca são encontradas, numa época em que duvidar era um gesto de grande ousadia.
Ainda que defensor do ideal sinalizado pela revolução, Platónov jamais se colocou como um autor panfletário e justamente por isso enfrentou inúmeros problemas que culminaram em seu ostracismo literário em vida. A revolução que ele promove na língua – léxico deslocado, sintaxe tensionada ao máximo, registros mesclados… – coaduna-se com a revolução política na qual ele acreditou, mas que, paradoxalmente, na visão do governo era uma ameaça que poderia miná-la.
Você também expõe no livro que uma das principais características da prosa de Platónov está na criação de uma sensação de “estranhamento” no leitor, tanto pelo estilo como pela construção narrativa. Esse é o grande traço dos russos modernos? Por que esse “estranhamento” se tornou tão relevante à literatura do século XX? Segundo o escritor e teórico formalista russo Viktor Chklóvski, que formulou o conceito de ostroniénie – também traduzido como “desfamiliarização” –, a literatura deveria buscar criar um efeito de estranhamento, desautomatizando a linguagem desgastada e devolvendo-lhe o frescor original. O emprego desse procedimento é um traço artístico fundamental das vanguardas russas em suas várias manifestações, mas eu não diria de todos os russos modernos, pois logo o Partido asfixiaria as experimentações e as puniria com severidade: com o exílio metafórico da escrita silenciada pela censura, com o exílio real em áreas remotas ou até mesmo a morte. No I Congresso Internacional dos Escritores, em 1934, ficaram estabelecidas as características a serem exploradas para que o artista não fosse considerado um “inimigo do povo”. Enquanto vigorou o realismo socialista – e ele perdurou oficialmente até a glasnost na década de 1980 –, a arte aceita era aquela que não poderia provocar nenhum estranhamento, que não admitia nenhuma dúvida, tampouco uma linguagem que se abrisse a múltiplas exegeses. Como a diretriz principal era educar o novo homem, o modelo deveria ser infalível, otimista e a linguagem acessível. Platónov faz um trabalho extraordinário em suas contradições: foi alguém que apoiou o ideal da revolução, trabalhou por ele, mas sua escrita denunciava a ausência de uma confiança cega no futuro. Além disso, as personagens sinalizam um desejo de se integrar ao todo, e sua linguagem conserva uma aura de mistério primordial, aquele mesmo mistério que cerca a própria origem da linguagem, que pertence mais ao campo do mítico e que se abre para a experiência do estranhamento.
Esse estranhamento reflete, então, um colapso de uma visão de mundo estritamente racional? O estranhamento como procedimento artístico tornou-se fundamental para a literatura moderna de um modo geral, na medida em que todo o sistema em que estamos inseridos promove o contrário: a automatização do pensamento, a busca por respostas racionais e objetivas na esteira do movimento impulsionado pelo pensamento forjado nos séculos que nos antecederam – Iluminismo, Positivismo, Revolução Industrial… Por outro lado, muito veio a se contrapor a tal automatismo e ao racionalismo: a Psicanálise, o Simbolismo, o Surrealismo, as revoluções… Uma vez que o racional não dá mais conta da complexidade do humano e do mundo, e que a arte se liberta da obrigação de representar realisticamente o mundo, ela se abre para o subjetivo, e passa a investigar os sentidos não dados por meio de uma nova linguagem, mais fragmentada. Evgueni Zamiátin, um autor contemporâneo de Platónov, dizia que “a verdadeira literatura não é aquela produzida pelos bem-pensantes e zelosos funcionários, mas pelos loucos, eremitas, sonhadores, rebeldes e céticos.” Platónov foi um engenheiro ferroviário, filho de operário, mas foi, sobretudo, um sonhador, e sua linguagem autêntica e inovadora nos devolve essa experiência incômoda de olhar o mundo com olhos que ousam duvidar.
Houve algum desafio em particular na empreitada da tradução? Houve muitos! Foi um dos autores mais difíceis que já traduzi. O livro não é longo, mas as dificuldades de se traduzir Platónov estão por toda a parte: identificar e recriar uma sintaxe extremamente complexa mesmo para a flexível língua russa; uso de diversos registros de linguagem, por exemplo, o tom burocrático de uma repartição entremeado à fala cotidiana da personagem; imagens e palavras insólitas para um determinado contexto; recursos sonoros e rítmicos que resvalam na linguagem poética… A narrativa é construída por meio do emprego do próprio discurso ideológico oficial deslocado para a boca das personagens, oriundas das camadas mais populares, que articulam discursos alheios, desprovidos de singularidade e que são, portanto, alijadas de sua identidade. Comparo o trabalho de traduzir Platónov ao da tradução de poesia: som e sentido estão intrinsecamente ligados para criar um efeito. Portanto, na tradução da literatura de Platónov – assim como na tradução de um poema –, penso que não se deve explicitar e interpretar o que é insondável, deve-se manter as elipses, os enigmas, e buscar recuperar a sonoridade e a potência das imagens ilógicas. Acima de tudo, aceitar que há uma parcela de mistério que não aceita respostas fechadas.
Em sua perspectiva, o que Moscou Feliz diz de mais impactante sobre o que era viver na União Soviética? A URSS durou muitos anos. A Revolução de Outubro de 1917 instaurou o governo bolchevique que não se estabeleceu pacificamente. Longos anos de guerra civil se arrastaram até a criação da URSS em 1922. Nas décadas seguintes, muito aconteceu (ou não aconteceu) até a sua queda em 1991. Do primeiro Congresso dos Escritores Soviéticos em 1934 até o último já no período da glasnost na década de 1980, houve o Grande Expurgo Stalinista, a Segunda Guerra Mundial, a morte de Stálin, a subida e a queda de Khruchtchov, o período de estagnação sob Brejnev, Andrópov e Tchernienki e a instituição da perestroika. Durante todo esse período, marcado por tantos acontecimentos relevantes, o realismo socialista vigorou. Por um lado, Moscou Feliz fala de uma URSS específica: a do tempo de Platónov, em que artistas que apoiaram a revolução e sonhavam com a liberdade – lembrem-se de que a Rússia czarista era implacável em sua censura – ainda eram animados pela esperança sinalizada por Outubro de 1917, mas o entusiasmo juvenil dos anos 1920 já arrefecera com a subida de Stálin ao poder e com o recrudescimento feroz da opressão. Por outro, a obra tem um alcance maior ao nos lembrar das utopias perdidas, da falta de rumo e de perspectivas e, nesse sentido, ela é extremamente atual.
Trata-se de um livro inacabado… Que destino imagina para a personagem Moscou que as páginas que nos chegaram não puderam contar? Foram encontrados dois cadernos com manuscritos da obra: um dos anos 1920, mais otimista, o outro, da década seguinte, com um tom mais desacreditado. Uma das anotações que aí se encontram é: “A trama não deve se resolver no último capítulo, porque a história não deve ter um final.” Quem sabe o que poderia conter uma terceira ou quarta versão? Pela afirmação do próprio autor, não acredito que haveria um final possível, pois é justamente a abertura, a indefinição sobre o rumo das personagens e o futuro da sociedade o que sustenta o romance. De certa forma, Moscou Feliz tem traços de uma tragédia contemporânea: os destinos não são mais traçados pelos deuses como na tragédia grega antiga, ao mesmo tempo em que o “deus” do Partido também não provê respostas (embora tivesse tal ambição). As personagens não parecem convencidas nem confiantes. Elas vagueiam, sempre em movimento, mas sem rumo, e assim não chegam a lugar algum. O herói positivo de Platónov não é o herói da obediência, mas da harmonia, ele é virtuoso, cheio de amor e de fraternidade. Pessoalmente, imagino que Moscou, essa personagem apaixonante e apaixonada, cumpriria seu destino: manter-se irreverente, generosa, intensa e, acima de tudo, livre, ainda que morresse em nome dessa liberdade.





