Entre o museu e o manicômio: quando a arte se encontra com a loucura
Historiadora analisa como o modernismo brasileiro e os pioneiros da arteterapia ajudaram a mudar o olhar sobre as obras de pacientes-artistas
“De poeta, carnavalesco e louco… todo mundo tem um pouco”. Foi com esse enredo que a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro cantou e desfilou na Marquês de Sapucaí no Carnaval de 1997. Se o samba-enredo é, como defendem alguns pesquisadores, uma criação original do país, pode-se dizer que o Brasil também deu contribuições singulares para um melhor entendimento e apreciação do elo entre a arte e a loucura.
Essa é uma das conclusões que vêm à baila no livro Aprender com a Loucura (WMF Martins Fontes), da historiadora da arte Kaira Cabañas. Percorrendo a ponte entre museu e manicômio (nos dois sentidos), a professora americana revisita o modernismo brasileiro e os médicos precursores de uma abordagem mais empática na clínica psiquiátrica nacional para montar um quadro em que as fronteiras do são e do insano e os limites da própria arte se diluem.
Na obra, Kaira retorna ao início do século 20 para traçar a evolução do relacionamento entre críticos e curadores com a produção vinda dos hospitais psiquiátricos – contexto em que emerge, por exemplo, a ideia de Art Brut na França – e se debruça sobre o papel do fazer artístico dentro de ambientes terapêuticos, um movimento cujas repercussões extravasariam a clínica. É no cruzamento dessas rotas que percebemos a “porosidade” entre as instituições de arte e de assistência.
Nessa confluência em que o conceito de normalidade também se esgarça, a professora compartilha percursos icônicos balizados pela relação entre arte e loucura no Brasil, caso dos psiquiatras Osório César e Nise da Silveira, pioneiros na arteterapia, e de Arthur Bispo do Rosário, consagrado artista plástico após uma vida dentro de uma colônia para pacientes psiquiátricos – e cujas obras hoje são reverenciadas mundo afora.
O mesmo Bispo que, naquele Carnaval de 1997, foi homenageado no samba-enredo “No reino da folia, cada louco com sua mania”, da escola Unidos do Porto da Pedra: “Tão louco quanto Bispo do Rosário/ Fez do mundo um inventário / Para doar ao criador”. Se a arte depende de imaginação, temos muito a aprender com o que se convencionou chamar de loucura.
Com a palavra, a autora.
Depois de ler seu livro, ficamos com a sensação (ou convicção) de que a arte é a grande instância a questionar os limites entre o que seria loucura e o que seria sanidade mental. Concorda com esse diagnóstico? Em outras palavras, a arte rompe definitivamente o conceito de normalidade?
É interessante que o livro faça você enfrentar questões sobre a normalidade. Ao final, o que ele traça, sob a perspectiva da história da arte, é como o trabalho dos pacientes psiquiátricos permaneceu no centro das práticas institucionais e curatoriais artísticas no Brasil do século XX até hoje. Portanto, a questão é sobre as instituições e como elas definem o que é “arte” ou, no caso do asilo, o que é considerado “loucura”. Ambos mudam no tempo e a depender da situação sócio-política.
Ao mesmo tempo que defendo a singularidade do modernismo brasileiro, as mesmas instituições artísticas que incluíram essas obras (MASP e MAM-SP) não conseguiram levar em consideração seus locais de produção (os manicômios) e socialmente incluir a população segregada do hospital: os pobres dos centros urbanos, imigrantes e negros, assim como as mulheres, cada qual frequentemente considerado como uma ameaça à “ordem” social.
Como essa maior conscientização sobre bem-estar mental nos últimos anos está se refletindo no mundo da arte, na maior aceitação de artistas com diagnóstico de transtornos mentais e na revisão da obra de artistas-pacientes?
O fato, por exemplo, de o Centre Pompidou [na França] ter recentemente aceitado uma grande doação de mais de 900 obras de “Art Brut”, que inclui trabalhos de pacientes psiquiátricos, realmente não altera categorias ou práticas de inclusão/exclusão e não influencia o argumento principal do livro. A porosidade entre a instituição de arte e a instituição psiquiátrica – ou seja, o museu e o manicômio – forneceu as condições de possibilidade para que fosse feita a defesa, por parte do modernismo brasileiro, da produção de pacientes psiquiátricos como arte.
Muito além dessas grandes aquisições, hoje é mais revelador recorrer a outras instituições com equipes engajadas. O Museu de Arte Osório César [em Franco da Rocha, São Paulo] foi reaberto em 2020, após 16 anos fechado, e o Museu de Imagens do Inconsciente [no Rio de Janeiro] inaugurou sua nova ala em 2022. Recomendo fortemente a todos que visitem esses museus, e que aprendam com suas coleções e programas. Acho que há muito mais trabalho a ser feito em termos de inclusão cultural. Por exemplo, o que impede grandes instituições (como até mesmo a atual Bienal) de incluir artistas vivos que trabalham em espaços relacionados ou adjacentes à clínica?
Pensando na recepção e na crítica de arte em si, o que acha que ainda não aprendemos com a loucura?
O que é a “arte em si”? A arte é sempre produzida em relação… Eu continuo aprendendo com os apelos contemporâneos para uma maior inclusão e uma ruptura com a clínica. Esse processo tem menos a ver com a eliminação de relações persistentes com o cenário terapêutico do que com o desafio aos espectadores contemporâneos de não limitar tais práticas artísticas relacionadas à terapia aos efeitos potencialmente curativos da arte, desqualificando, assim, o seu estatuto e contribuição como arte e cultura.
Para ativistas e pesquisadores baseados no Brasil, como Eduardo Torre e Paulo Amarante, o objetivo de tais práticas relacionadas à terapia (ou espaços psiquiátricos) é permitir a ressignificação das possibilidades de vida e mudar o imaginário social da loucura. Também sempre aprendo com meus colegas do Espaço Aberto ao Tempo [projeto mantido por Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Rio]: Daniel, Edu, Gina, Lula Wanderley, Marcus, Regina, entre outros [terapeutas, pesquisadores, poetas, artistas, usuários da psiquiatria].
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