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Coluna da Lucilia

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Reflexões sobre o tempo

A cada fase da vida, uma nova forma de enxergar o mundo

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 10 jul 2026, 13h23
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Anos atrás, quando fiz 64, foi impossível não pensar na canção dos Beatles em que Paul McCartney imaginava a vida nessa idade. Tanto que ela inspirou uma das minhas primeiras colunas aqui na VEJA. A letra falava de uma rotina doméstica e cheia de ternura — embora um pouco caricatural — e perguntava se ainda seríamos necessários naquela idade aparentemente tão avançada. E então, quando a mítica idade finalmente me alcançou, vi que a música tinha envelhecido mais que eu. Olhei em volta e nada evocava uma despedida, nem uma vida monótona e recolhida. O que eu via ao meu redor era trabalho, viagens, curiosidade, estudo, família e planos. Muitos planos.

Agora eu me encontro às vésperas dos 70. O número redondo vem sempre carregado de símbolos, crenças e expectativas alheias. Em outras épocas, chegar a essa idade significaria ocupar o lugar daquele que distribui conselhos e lembranças. Uma presença querida, mas menos ativa. Essa imagem já não dá conta da realidade. Basta folhear os jornais. Outro dia, uma reportagem chamava atenção para o peso dos trabalhadores maduros na economia: pessoas entre 50 e 79 anos já respondem por 20% da renda do trabalho no país. Em outra página, lia-se que a Copa de 2026 bateu recorde de jogadores com mais de 40 anos. Até no futebol, no qual a juventude sempre pareceu reinar absoluta, a experiência faz bonito em campo.

“Descobri que nenhuma idade chega pronta. Somos nós que preenchemos seus contornos”

Essas notícias confirmam com dados algo que a convivência já me mostrava. Atingir a maturidade não significa sair de cena, mas uma nova forma de ocupar o palco. Com o tempo, escolhemos melhor onde colocar energia. O ímpeto pode mudar, mas o desejo de participar, aprender e contribuir continua vivo.

É claro que o corpo é parte importante da nova atitude. Ele cobra atenção de um jeito novo. Já não aceita qualquer abuso com a mesma facilidade, nem perdoa noites maldormidas como antes. Eu, no entanto, aprendi a ver esses sinais não como inimigos, mas como mensageiros que nos indicam o que fazer para manter a liberdade. Cuidar da saúde, nessa fase da vida, significa preservar autonomia: poder andar, viajar, trabalhar, brincar com os netos, sentar-se à mesa com prazer e levantar-se dela com leveza.

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Aprecio uma riqueza conquistada em silêncio: a de ter vivido muitas versões do mundo, até chegar à atual, em que temos desde injeções para suprimir excessos à mesa até máquinas capazes de responder a quase tudo. Ao longo dos anos, vi tecnologias nascerem, hábitos desaparecerem, famílias se transformarem e certezas ruírem.

Tendo vivido tudo isso, descobri que nenhuma idade chega pronta. Somos nós que preenchemos seus contornos. Com os anos, achamos novas formas de olhar para as coisas. Aprendemos a reconsiderar urgências e a deixar ir vaidades. Certas vontades, ao contrário, ficam mais nítidas. Em vez de ver cada fase como um marco a alcançar, passei a vê-las como novos pontos de observação. Desse novo mirante, continuo a não enxergar o cenário nostálgico da música dos Beatles. O horizonte me propõe uma pergunta: o que fazer com o tempo que ganhamos? A resposta é: vivê-lo bem, com saúde, presença e curiosidade. Honrar os anos, em vez de brigar com eles. Nenhuma vida se resume à idade que alcança. O essencial é seguir inteiro dentro dela.

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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