Se tem um aroma capaz de fazer muita gente desviar do caminho é o de pão saindo do forno. O apelo não tem a ver só com a fome, mas com o lugar tão antigo que esse alimento ocupa em nossa história. Antigo mesmo. Estamos falando de mais de 14 000 anos, quando nem havia agricultura. Milênios antes de plantar o trigo, o homem já fazia pão com os cereais que encontrava pelo caminho, e pode ser até que o gosto por ele tenha incentivado o cultivo de grãos.
Não é à toa que o Dia Mundial do Pão e o Dia Mundial da Alimentação dividem a mesma data, 16 de outubro. Neste ano, o lema escolhido pela FAO é “Inove hoje. Alimente o amanhã”, reforçando o vínculo entre o futuro da nutrição e seu símbolo mais remoto e cotidiano. Cada lugar tem sua própria versão do alimento, para manter vivo o ritual ancestral de convívio que é dividir o pão. Mesmo a etiqueta preserva essa lembrança: quando ele é acompanhamento ou couvert, não o cortamos com a faca. Ao destacar pequenos pedaços com as mãos, reproduzimos esse gesto universal.
Sua simplicidade se desdobrou em significados infinitos, ocupando não só um lugar à mesa, mas também no vocabulário. Ele sintetiza nossas necessidades básicas, o pão nosso de cada dia, expressão nascida na religião cristã, significando a partilha. Trabalhamos para ganhar o pão, enquanto um mal-intencionado pode tirar o pão da boca de alguém. Mas, como se sabe, nem só de pão vive o homem. Por isso, em Roma se praticava a política do pão e circo. E, falando em política, o pão foi um dos estopins para a Revolução Francesa, encerrando a Era Moderna.
“O ato do padeiro representa o trabalho, a espera e a confiança na transformação”
Todo esse poder cabe em quatro elementos. Farinha, água, fermento e calor compõem um alimento vivo. Basta olhar a massa descansando. Ela infla, muda de textura e de cheiro. No forno, ganha cor e casca. O pão nasce, cresce e envelhece diante de nossos olhos. Mas, mesmo quando endurece, pode ser reaproveitado. Vira torrada, farinha, crouton, pudim, rabanada, sem deixar de ser pão. Ele também registra a história das inovações. Transformar um grão duro em farinha e descobrir como fazer uma massa crescer foi uma enorme inovação tecnológica. Depois vieram os moinhos, os fornos, novos tipos de fermentação e múltiplas maneiras de trabalhar os cereais. Hoje pesquisamos sementes mais resistentes e formas mais eficientes de produzir aquilo que nos nutrirá.
Para minha família, o pão tem significado particular. Meu pai, Valentim, chegou ao Brasil adolescente e começou trabalhando em um armazém. Seu primeiro negócio foi uma padaria. Depois, a doceria e, mais adiante, o supermercado, que cresceu e proveu milhões de pessoas que trabalharam no grupo. Tudo começou no pão.
O ato do padeiro diante da massa representa o trabalho, a espera e a confiança na transformação. Mudam as receitas, mas o processo permanece. Não adianta correr. O fermento precisa de tempo, e cada etapa depende de respeitar sua ação. Essa sabedoria antiga nos mostra que inovar não supõe jogar fora o que veio antes. Alimentar o mundo envolve aumentar a escala da produção, a distribuição e o combate ao desperdício, buscando uma nutrição saudável. Criamos novas maneiras de matar a fome, mas a imagem mais eloquente para dizer que ninguém deve sofrê-la continua sendo a de um pão sobre a mesa.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017







