Há alguns anos, quando ainda não era possível fazer compras com um simples clique, sempre aproveitava as viagens ao exterior para visitar livrarias. Voltava sempre com a mala cheia de novidades, principalmente sobre dietas e gastronomia. E foi assim que, há quinze anos, me caíram nas mãos alguns livros que poderiam ser traduzidos num único conceito – o da “dieta da não dieta”. Nunca me esqueci daquelas leituras, até porque a tese dos autores reforçava minhas próprias convicções.
Aqueles argumentos agora me voltam à cabeça porque andei percebendo que muita gente, intuitivamente, passou a aplicar seus conceitos. O legado do distanciamento social parece ter levado as pessoas a serem mais gentis consigo mesmas. Noto uma atitude mais compreensiva em relação às demandas do corpo. Imagino que, por conta disso, aqueles regimes radicais estão saindo de moda, abrindo espaço para dietas construídas a partir do bom senso.
Não se trata de reivindicar um passaporte para excessos. Dar-se o direito de sentir prazer à mesa não é o mesmo que se empanturrar. Ao contrário, as delícias resultam da qualidade, não da quantidade. E se um ou outro dia você passar da conta, evite a autoimolação. Todos nós damos nossas derrapadas, e eu também não sou exceção. Derrapar não é fracassar. Basta, no momento seguinte, retomar o controle.
O problema das dietas radicais é que elas não resistem ao menor revés. Repita aquele prato delicioso servido na casa da sua mãe, e você logo ouvirá as trombetas do apocalipse, anunciando que todo o esforço até então ruiu por terra. A verdade, porém, é que a ideia da dieta tradicional está na origem dessa frustração. Uma pessoa submetida à severa contenção alimentar não pensa em mais nada a não ser em comer. Daí à transgressão das boas regras da alimentação é um pulo – e o candidato a uma silhueta mais fina volta à casa inicial desse jogo enviesado.
Temos experimentado dias agradáveis de verão. O momento é excelente para colocarmos em prática hábitos saudáveis de alimentação. Comer mais devagar é um bom começo. O ritmo mais lento facilita a identificação dos sinais de saciedade, a partir do qual já não saboreamos a comida com a mesma intensidade do que quando nos sentamos à mesa. É a hora de depositar os talheres sobre o prato.
A dieta da não dieta recomenda que façamos as pazes com a comida. A expressão, aliás, remete ao sentido primordial da palavra. Dieta é simplesmente a cota habitual de alimentos que ingerimos todos os dias. Apropriado pela medicina moderna, passou a significar a abstenção, com fins terapêuticos, de certos alimentos. A dieta da não dieta, entretanto, rejeita a própria mentalidade de dieta. Tudo o que ela propõe é que honremos a nossa fome, em consideração a nós mesmos, mas também a quem se dedicou à arte de cozinhar.
Afinal, quem consegue apreciar um prato preparado com esmero se, entre uma garfada e outra, temos que contar as calorias ingeridas? Eu não! Prefiro sentir os sinais emitidos pelo meu corpo e ouvir minha alma cantar.







