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Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz
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Licença para beliscar

Um snack fora de hora é demasiadamente humano

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 16 ago 2021, 10h16 - Publicado em 13 ago 2021, 14h00

A pandemia colocou no vocabulário cotidiano do Japão a palavra kuchisabishii. Nas reuniões on-line, em consultórios médicos de Tóquio, nas revistas especializadas ou não, cada vez mais se ouve falar de kuchisabishii. Antes de nos afogarmos na sopa de letrinhas, o Google nos ensina a pronunciar corretamente: “kutchí-sabichí”. Literalmente, significa “boca solitária”, se bem que traduções literais em geral não ajudam muito a compreender o sentido das palavras estrangeiras.

O termo se refere, na verdade, ao hábito de comer por puro tédio, enquanto zapeamos a TV ou teclamos no computador. Quem sente a sensação de não ter nada melhor a fazer durante o confinamento prolongado acaba assaltando a geladeira seguidamente mesmo sem ter fome. Uma hora pega uma lasquinha de queijo. Mais tarde, ataca o resto da compota. Pouco depois, prepara um sanduíche. Se kuchisabishii fosse um verbo, a sua tradução seria “beliscar”.

É interessante notar, no entanto, que kuchisabishii não tem a conotação negativa que nós, brasileiros, costumamos atribuir ao nosso “beliscar”. A expressão japonesa não é entendida como compulsão alimentar. Não designa fraqueza de caráter, nem indício de transtorno. Para os japoneses, beliscar fora de hora não é condenável. É algo que faz parte da vida. É como se dissessem: se você tem vontade de entreter a boca mastigando bobagens sem o devido apetite, então vá em frente, sem culpa, entregue-se ao kuchisabishii. Melhor assim do que tentar reprimir o desejo, cobrando-se sem trégua uma atitude de determinação férrea em relação ao que come.

“Lembre-se de que, em tempos de superação, é o.k. não se sentir o.k., como mostrou Simone Biles nos Jogos”

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Gostei de conhecer a palavra e de saber que a filosofia dos japoneses os estimula a perdoar esse comportamento. E gostei porque, de certa maneira, me reconheci nessa atitude. Ouvi na expressão ecos de meus próprios conselhos. Afinal, minha dieta sempre considerou eventuais derrapadas em direção à cozinha como parte do processo de reeducação alimentar. É preciso identificar a linha tênue que separa a autocondescendência do perdão que merecemos nos conceder. É necessário, por vezes, calar o irritante grilo falante — a nossa consciência — que nos exige demais. Ou seja, depois de saborear um pedaço de bolo no meio da tarde, evite pensar que, só por isso, o regime fracassou. Nesse caso, você estaria desistindo precocemente de uma rotina saudável. Seria o equivalente à autossabotagem. Não resistiu ao bolo? Comeu antes de pensar? Tudo bem, aprenda com os japoneses: isso é apenas kuchisabishii.

A pandemia tem cobrado um preço alto. Por isso, sejamos gentis com nós mesmos. Lembre-se de que, em tempos de superação, é o.k. não se sentir o.k. — um conceito trazido à pauta na Olimpíada, com a desistência da Simone Biles de concorrer em algumas provas para preservar sua sanidade mental. Sim, a positividade pode ser tóxica, uma ideia que os japoneses aplicam aos supostos desvios da dieta. Descontar nossas ansiedades na comilança é uma coisa. É compulsão. Outra coisa, diferente, é se permitir snacks imprevistos. Não por gula desmedida, não por voracidade excessiva, mas apenas para atender a recaídas demasiadamente humanas.

Publicado em VEJA de 18 de agosto de 2021, edição nº 2751

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