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Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz
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De filha para pai

Agosto é o mês em que celebro a vida de Seu Santos

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 13 Maio 2024, 22h53 - Publicado em 11 ago 2023, 06h00

Em maio, mês das mães, relembrei aqui os aprendizados que tive com a minha, Dona Floripes. Chegado agosto, recordo duplamente Valentim dos Santos Diniz, que aniversariava próximo do Dia dos Pais. Ele nasceu em 1913, há 110 anos e, embora tenha morrido em 2008, seus ensinamentos permanecem fortes em mim. Curiosamente, na ocasião em que partiu, comecei minha fala na missa em sua homenagem mencionando algo que não aprendi com ele: seu assobio. Meu pai assobiava como ninguém! Com o silvo, ele anunciava sua chegada. Talvez fosse a deixa para tomarmos prumo enquanto ele ainda estava na soleira e não sermos pegos fazendo algo de errado.

Se não me ensinou a assobiar, ele me legou a determinação. Aliás, é mais justo dizer que a força de vontade para mudar, a inquietude que faz ir além e a tenacidade para não esmorecer são, mais do que lições aprendidas, quase um dever diante da história de meu pai. Ele era apenas um garoto de 16 anos quando deixou a Guarda, em Portugal, para tentar a sorte no Brasil. Desembarcou em Santos em 25 de novembro de 1929. Morando temporariamente na casa de um familiar em São Paulo, uma cidade tão grande e tão distante de sua aldeia, foi muito sagaz para arrumar o primeiro emprego. O jovem Valentim olhou ao redor e, vendo aquele monte de gente nas ruas, achou que o negócio era ir aonde iam todos. Vestindo seu terno e calçando sapatos bem engraxados, entrou no bonde mais cheio. Foi dar no centro da cidade, lugar que, entendeu logo, era o berço das oportunidades. Achou um banco de praça e lá se sentou.

“Para ele, sucesso era consequência do trabalho. Não se lamentava nem permitia que nos queixássemos”

Repetiu o ritual por quarenta dias, até que o ensejo se apresentou. Um homem, intrigado com sua constância, quis saber o que fazia ali. Meu pai explicou que era imigrante e esperava uma chance. Foi contratado como caixeiro do armazém dele. Casou-se com minha mãe em 1936 e, no ano seguinte, tornou-se sócio do estabelecimento. Dali para a padaria, da padaria para a doceira e, dela, para o primeiro supermercado. A história de meu pai não se resume ao registro de seus sucessos empresariais. Mas, se o repasso, é porque seu amor e sua dedicação ao trabalho estavam no cerne da personalidade que demonstrava em casa.

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Para ele, o sucesso era consequência do trabalho. Ele não se lamentava nem permitia que nos queixássemos. “Problema” era uma palavra proibida aos filhos. Sua coragem era o exemplo para nos fortalecermos e seguirmos em frente no caminho escolhido. E, quando chegávamos lá, onde quer que “lá” fosse, estava sempre presente, como se esperasse naquele banco. Quando lancei meus primeiros livros, não perdeu as noites de autógrafos; quando criei minha marca de alimentos, ele me deu o maior presente, sua confiança no meu tino. Com ele aprendi a estar no meio das pessoas, como o adolescente na multidão. A ser persistente, antes até de ter um objetivo claro, e a trabalhar com afinco para obtê-lo, quando o definisse. A observar com cuidado o entorno.

A vida finita é só a de carne e osso. Seu Santos, como todos os pais que se foram, existe para sempre em cada espírito que tocou. Celebremos, em agosto ou em qualquer data, o que vivemos e continuamos vivendo com nossos pais.

Publicado em VEJA de 11 de agosto de 2023, edição nº 2854

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