Admirável mundo sênior
A rica fase do envelhecimento precisa ser vista com outros olhos
Volta e meia, ao ver imagens de outros tempos, tomamos um susto com quão cedo se envelhecia. Em antigos álbuns de fotografia, novelas ou programas de auditório, pessoas de 30 ou 40 anos parecem sisudas e contidas. Dava para pensar que a juventude durava menos. Naturalmente, não foi o ritmo do relógio que mudou, e sim a nossa ideia do que significa envelhecer. Essa constatação me voltou à mente de tanto ouvir falar em NOLT — new older living trend. A sigla, que em inglês significa “nova tendência de vida na velhice”, define aquelas pessoas que, com 60 ou mais, rejeitam o recolhimento esperado dos idosos. Mas tenho para mim que o rótulo de “tendência” reduz o fenômeno. Acho que estamos vendo um novo paradigma sobre a velhice, que vem há décadas se desenhando.
Durante séculos, envelhecimento foi sinônimo de declínio. Como se vivia menos, tudo chegava mais cedo: o casamento, os filhos, as responsabilidades. E a velhice também. A primeira virada foi física. Em vez de aceitar eufemismos como “melhor idade”, toda uma geração se mexeu para reverter os efeitos do tempo sobre o organismo. Corrida, musculação, cuidados estéticos, melhores hábitos alimentares, reposição hormonal — e não só para mulheres. Todo um arsenal de medidas para evitar que os anos se traduzissem em perda de energia ou autonomia. Não seria mais o corpo a determinar que era hora de sair de cena.
“Idosos que voltam a estudar ou trabalhar não negam o tempo, mas se recusam a vê-lo como limitador de horizontes”
Porém, mesmo se o estado físico atestava vigor, a data de nascimento continuava a representar uma baliza, por exemplo, no mercado de trabalho. A questão passou então a ser não só manter a vitalidade, mas o lugar no mundo. Continuar aprendendo, trabalhando, criando. Não como hobby ou passatempo, mas como uma autêntica função social. Até porque, em boa parte do mundo, as populações de idosos crescem muito mais que as taxas de natalidade. É o tal do “tsunâmi grisalho”. Aliás, li uma boa síntese sobre essa expressão em uma reportagem britânica. Tsunâmi é uma força destrutiva, dizia o texto. Envelhecer, por outro lado, é uma conquista — da ciência, da saúde, da economia, da sociedade.
Em alguns lugares, essa lógica está mais incorporada. O Japão costuma ser citado nesse debate não apenas por seus fatores demográficos, mas por ter uma cultura que lida melhor com a impermanência. Lá, idosos seguem trabalhando e são valorizados por sua experiência, seu repertório e sua capacidade de se relacionar. Conceitos como o wabi-sabi, que reconhece a beleza das marcas do tempo nos objetos, mostram que, para esse povo, idade não implica obsolescência.
O fato é que hoje, em qualquer parte do planeta, pessoas mais velhas que voltam a estudar, aprendem novas tecnologias, mudam de carreira, iniciam projetos ou retomam desejos antigos não estão tentando negar o tempo, mas recusando a visão de que ele seja um limitador de horizontes.
Quando presumimos que certas fases da vida são, por definição, menos interessantes ou produtivas, estreitamos o campo de possibilidades para quem envelhece e para a sociedade como um todo. Talvez não importem tanto os rótulos ou tendências com que tentamos abordar o assunto, e sim compreender que estamos construindo um admirável mundo sênior. Um mundo no qual mente e corpo bem cuidados permitem desfrutar de uma vida mais longa. Um mundo no qual é possível celebrar a passagem do tempo, em vez de negá-la.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





