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Coluna da Lucilia

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A visita da sorte

Podemos preparar o caminho, mas não decidir quando ela chega

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 19 jun 2026, 10h48
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Se você procurar por “sorte” no dicionário, o mais provável é que as primeiras definições falem em “força imprevisível” ou difícil de explicar. Para muitos, ela é mesmo um capricho, que aparece sem aviso, como um golpe de vento mudando o rumo das coisas. Outros já a interpretam como algo que se constrói, quase como se decorresse da sabedoria das nossas escolhas. Conceitos e convicções à parte, seguimos tentando decifrar esse elemento escorregadio que, cedo ou tarde, aparece para todos.

A crença na sorte acompanha a história da humanidade. Amuletos e rituais existem desde a pré-história. Ainda não dominávamos a escrita, mas buscávamos controlar o acaso. Mesmo as pinturas em cavernas são interpretadas como tentativas simbólicas de criar um futuro favorável: nossos antepassados desenhavam a caçada que desejavam ter. Tentar antecipar os resultados era uma forma de reivindicar participação no destino. A linguagem pode ter mudado, mas essa ambição permanece. Mesmo quem não admite a hipótese de “contar com a sorte” se dispõe a “criar oportunidades”, “estar aberto”, “colocar-se em movimento”. E pode ser que não seja mera força de expressão. A ciência vem corroborando essa noção de que a sorte depende de certos traços.

Foi o que li em um artigo recente no jornal inglês The Guardian, que defendia que curiosidade, atenção e abertura aumentariam a probabilidade de se deparar com bons desfechos. Pessoas mais dispostas a abraçar o inesperado ampliam suas possibilidades, dizia o texto. Hábitos simples também ajudariam essa predisposição, como dormir bem, ter contato com luz natural ao acordar e cultivar atividades ligadas a seus interesses. Achei as conclusões muito animadoras. Ainda assim, me pus a refletir. Se a sorte sempre pareceu mágica e imponderável, o que acontece quando tentamos sistematizá-­la? Não será que a transformamos em outra coisa, uma espécie de método?

“A boa fortuna é uma visitante discreta. Não se anuncia, nem se repete quando e porque queremos”

Penso no personagem Forrest Gump e em seu ditado particular, herdado da mãe: a vida é uma caixa de chocolates, você nunca sabe o que vai encontrar. A trajetória do protagonista desse sucesso do cinema vai avançando ao sabor de encontros improváveis. Ele parece só se deixar levar, mas, olhando com cuidado, não se trata só de acaso. Forrest tem uma inclinação a seguir em frente, estar presente, dizer “sim”.

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Não consigo deixar de pensar que há algo de contraditório na tentação de domesticar a sorte pela lógica. O desejo de controle acaba reduzindo nossa exposição ao imponderável. E nossa insistência em dissecá-la acaba roubando parte do encantamento que a cerca.

Não acho que tenhamos de ser passivos, ficar sentados esperando o desenrolar dos acontecimentos. Há espaço, sim, para criar condições, cultivando repertório, afinando a atenção a detalhes de situações que, às vezes, passam despercebidos. Não é pouca coisa: é como arrumar a casa para receber sua visita. Mas, para mim, a boa fortuna ainda é uma visitante discreta, que tem seus próprios critérios de chegada. Não se anuncia, nem se repete quando e porque queremos.

No entanto, uma coisa é certa. Temos de perceber quando ela passa por nós, às vezes disfarçada de acaso, às vezes fantasiada de encontro. Se não soubermos reconhecê-la e não deixarmos a porta aberta, dificilmente ela vai entrar.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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