Proteína, suplementos, calorias, canetas emagrecedoras, jejum, biomarcadores… Esses termos se tornaram familiares em nossas conversas sobre alimentação. Embora me alegre saber que hoje entendemos melhor os aspectos da saúde ligados à nutrição, eu me pergunto se, nesse esforço de medir tudo, não corremos o risco de empobrecer uma das mais ricas experiências humanas: comer. Foi o que pensei ao saber da morte do jornalista italiano Carlo Petrini, fundador do slow food.
O movimento trazia um conceito simples, mas poderoso: comida não é só combustível. Ela carrega história, território, trabalho, afeto, prazer e responsabilidade. A causa de Petrini nasceu nos anos 1980, como reação à abertura de um McDonald’s na Piazza di Spagna, em Roma. Na ocasião, manifestantes serviram pratos de penne aos passantes, lembrando que havia uma cultura local sólida a proteger. O gesto poderia ter ficado como uma provocação italiana, de ar folclórico e fanfarrão. Mas cresceu porque tocava em algo maior do que a mera crítica ao fast food. Era uma convocação para olhar com atenção o ato de comer.
“Não se pode, a cada refeição, empunhar no garfo o peso do planeta. Mas é possível ter consciência”
Carlo Petrini ressaltou a importância de perguntar de onde veio o alimento, quem o produziu, que costumes preserva, que tipo de encontros e afetos propõe. Hoje, esse legado se mostra ainda válido. Muitas vezes parecemos precisar de uma justificativa funcional para o mero ato de fazer uma refeição. Assim, há quem coma tomate pelo licopeno, sardinha pelo ômega-3, iogurte pelos probióticos, cúrcuma por ser anti-inflamatória. É claro que tudo isso importa. Seria tolice desprezar o conhecimento científico sobre aquilo que pomos no prato. Mas todo alimento vai além de sua ficha nutricional. A memória, a conversa e o pertencimento não aparecem em exames, mas podem estar num prato de massa. Sempre busquei preservar essa dupla dimensão da alimentação, como instrumento de saúde, mas também de afeto e reconstrução pessoal. Comida saudável, para mim, não é triste e restrita, mas aquela que permite uma relação inteligente com o prazer. Petrini gostava de resumir sua bandeira na defesa de alimentos bons, limpos e justos. Bons no sabor e na qualidade. Limpos no respeito ao ambiente. Justos com quem produz. Por aí fica fácil entender que as consequências de comer são maiores do que as registradas na balança.
Cada escolha envolve uma cadeia invisível, do agricultor ao mercado e ao cozinheiro, passando pelo solo, a água e o transporte. Não se pode, a cada refeição, empunhar no garfo o peso do planeta. Mas é possível ter consciência sem estragar o apetite. Privilegiar o alimento da estação, valorizar quem cozinha, em gestos pequenos, mas significativos. O tempo dedicado à comida, do preparo ao consumo, não é perdido. É vivido. Num mundo fascinado pela eficiência, comer devagar é lembrar que a vida não é mera performance. Não por acaso são justamente os italianos que dizem “a tavola non si invecchia”: à mesa, não se envelhece. O corpo precisa de nutrientes. A alma, de rituais. A boa mesa oferece um pouco dos dois. O criador do slow food morreu. Que siga vivo o espírito do movimento, para nos lembrar de que comer bem é cuidar do corpo, mas comer com sentido preserva a humanidade do gesto.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997





