A sabedoria popular, sempre ela, não nos deixa esquecer que os melhores resultados vêm quando se junta a fome com a vontade de comer. Mas a expressão nos lembra também que, se a fome é algo nítido e palpável, a vontade de comer é mais fugidia e difícil de entender. Ou de justificar. Atire a primeira pedra quem nunca abriu a geladeira estando perfeitamente saciado. Comer vai muito além de abastecer uma máquina. Tem a ver com memória, com afeto, às vezes com distração.
Em muitos casos, é apenas um grande prazer. E isso não deveria ser visto como um pecado. De uns anos para cá, nossa relação com a dimensão emocional da alimentação vem se modificando de maneira nunca antes vista. O grande agente dessa mudança são elas, as canetas emagrecedoras. Pode ser uma libertação obter, com a ajuda da ciência, o controle daquele anseio urgente de repetir o prato, beliscar algo no meio da tarde ou adoçar a boca depois da refeição. Porém, para muitas pessoas, a perda de apetite tem um sentido além do literal. É fato que a ação positiva no metabolismo é inconteste. Não só o emagrecimento é muito facilitado, como também há melhora geral nos exames clínicos. Acontece que, mesmo sentindo-se felizes com os efeitos no corpo, muitas pessoas relatam perda de entusiasmo.
“Atire a primeira pedra quem nunca abriu a geladeira estando perfeitamente saciado”
Não uma tristeza, propriamente, mas uma sensação nebulosa de que uma boa parte da vontade de comer (ou de viver) evaporou com a fome. Usuários desses medicamentos às vezes relatam que, embora continuem encontrando prazer em suas atividades cotidianas favoritas, como sair para ver amigos ou cultivar algum hobby, precisam se lembrar de praticá-las. Precisam, em suma, racionalizar um impulso que, antes, era natural. A ciência ainda tenta entender o mecanismo exato pelo qual as canetas agem sobre outras compulsões que não a alimentar e, mais amplamente, sobre esse ímpeto de ir buscar algo que chamamos genericamente de desejo. Tradições antigas argumentam que os desejos são os inimigos da felicidade. Para os estoicos, almejar o que não se tem leva à insatisfação perpétua. Para os budistas, o desapego é a via para a plenitude. Será que os medicamentos trariam também uma revolução espiritual, então? Não sei. Fico me perguntando se, tendo conquistado o domínio da fome e da vontade de comer, sem que a alma tenha tido tempo de caminhar junto, sabemos o que fazer com o espaço que essa ausência deixa. Nelson Rodrigues, que entendia como poucos as nossas obsessões, talvez se divertisse nos vendo às voltas sem elas. Não faço aqui uma defesa da compulsão. Há vontades que aprisionam e precisam ser contidas. Mas também há desejos que nos dão contorno.
Um gosto, uma mania, uma paixão, um projeto. Nem tudo que nos move é perfeitamente razoável. Ainda bem. O desafio, como sempre, está na medida. Encontrar o “caminho do meio” que pregava, de novo, Buda. Comer sem ser governado pela comida. Beber sem precisar da bebida. Amar sem se perder no outro. Desejar sem se tornar servo do desejo. A pergunta que devemos nos fazer não está na bula das canetas. Do que temos fome quando a fome passa? A resposta não virá da balança, mas do modo como cada um reconstrói seus prazeres, escolhe seus vínculos e descobre quais vontades ainda merecem ser cultivadas. Preservar o gosto pela vida também é parte da saúde.
Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005






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