Em época de Copa do Mundo, me pego pensando em uma experiência que meus netos não conheceram. Houve um tempo em que o Brasil entrava em campo e a família se reunia diante da televisão com uma confiança quase natural na vitória. Não era apenas torcida, mas uma certeza compartilhada, alimentada por jogadores que fizeram do nosso futebol uma arte.
Hoje, os mais jovens acompanham outro futebol, em outro país e com outros recursos. Assistem aos jogos com o celular na mão, recebem comentários em tempo real, veem bastidores, estatísticas e opiniões antes mesmo de a partida acabar. Para eles, a Copa passa por esse fluxo permanente de informações, enquanto para mim ainda é a lembrança da família reunida em casa, da televisão ligada e de uma esperança que parecia pertencer a todos.
Quando conto isso, percebo que não estou falando apenas de futebol, mas tentando transmitir um sentimento de época. Há experiências que uma geração só conhece pelo relato da outra. Do mesmo modo, há aspectos do mundo atual que nós compreendemos melhor quando aceitamos aprender com os mais jovens.
Outro dia, conversando com minha neta Valentina, ouvi dela uma observação sobre escolhas mais conscientes. Não era uma lição filosófica, apenas uma conversa comum. Mas, naquele comentário, havia um jeito de enxergar a vida diferente do meu. Talvez seja justamente aí que a troca aconteça: quando a memória de uma geração encontra a sensibilidade de outra.
“Entre a lembrança de uma Copa antiga e uma ideia nova trazida por uma neta, existe um território fértil”
É um costume imaginar que os mais velhos ensinam e os mais jovens aprendem. A vida, porém, não se organiza de forma tão simples. Os anos nos trazem repertório, perspectiva e histórias que nenhum buscador ou ferramenta de inteligência artificial consegue oferecer. Mas filhos e netos também nos apresentam novas linguagens, tecnologias, preocupações e maneiras de estar no mundo.
Esses encontros entre pessoas que não são “da mesma época” têm até um nome próprio: intergeracionalidade. Assim, solto, o termo parece um “palavrão”, algo meio acadêmico. Mas o que descreve é simples: a troca entre pessoas que nasceram em tempos diferentes e, por isso, carregam referências distintas sobre a vida.
É também uma ideia cada vez mais presente, se pensarmos que a população envelhece e o convívio entre faixas etárias se alarga. Não à toa, tornou-se critério importante para organizadores de um concurso de iniciativas para a longevidade do qual, em breve, devo participar.
A medicina, a ciência e os cuidados preventivos vêm nos dando a chance de viver mais e melhor. Mas a longevidade não se mede apenas em anos. Ela também pode ser medida pelas conversas que ainda teremos, pelas histórias que poderemos contar e ideias que estaremos dispostos a escutar.
Para isso, é preciso alguma abertura. Não tratar toda novidade como ameaça, nem transformar experiência em sermão. Perguntar, ouvir, discordar quando for o caso, rir das diferenças e reconhecer que cada idade enxerga uma parte da cena.
Entre a lembrança de uma Copa antiga e uma ideia nova trazida por uma neta, existe um território fértil. É nele que as gerações se encontram. Quanto mais longa a vida, maior a chance de atravessarmos esse território juntos.
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
TUDO SOBRE A COPA,
EM UM SÓ LUGAR







