Por que a saúde mental virou uma urgência coletiva no Brasil e no mundo?
O avanço dos índices de sofrimento mental entre a população brasileira mostra que estamos lidando com um desafio estrutural coletivo
Saúde mental está na ordem do dia. No Brasil e no restante do mundo, a incidência de transtornos como ansiedade, depressão e burnout tem atingido níveis epidêmicos. É difícil precisar se os casos estão de fato aumentando ou se os números crescem porque passamos a falar mais sobre o tema, muito provavelmente há uma combinação das duas coisas. O fato é que nunca sofremos tanto com questões ligadas à saúde mental.
Vejamos a seguinte comparação: pouco mais de uma década atrás, em 2014, cerca de 200 mil brasileiros foram afastados do trabalho por episódios depressivos, transtornos de ansiedade, reações a estresse grave e problemas correlatos. Dez anos depois, em 2024, ultrapassamos a marca dos 440 mil afastamentos anuais, segundo dados do Ministério da Previdência Social, um salto de mais de 100%.
Não por acaso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a classificar o Brasil como o país com o maior número absoluto de pessoas convivendo com transtornos de ansiedade. Quase 10% da nossa população enfrenta esse problema.
Os jovens estão entre os mais impactados. Um informe recente da Fiocruz, com base em informações do SUS, mostrou que a juventude (15 a 29 anos) lidera as internações por problemas de saúde mental, com 579,5 casos por 100 mil habitantes. Entre pessoas de 20 a 24 anos e de 25 a 29 anos, as taxas são ainda mais elevadas: 625 e 720, respectivamente, em números arredondados. É uma incidência que ultrapassa a dos adultos com mais de 30 anos. Logo, falar de saúde mental é, também, falar de futuro.
Pode não parecer à primeira vista, mas espaços de lazer e convivência, por exemplo, são ferramentas de cuidado e prevenção quando o assunto é saúde mental. Lazer não é um luxo nem um detalhe. Praças, parques, centros culturais, bibliotecas, quadras esportivas, pistas de skate e demais equipamentos urbanos públicos e acessíveis cumprem um papel fundamental ao promover encontro, pertencimento e circulação de afetos, oferecendo alternativas reais à tela do smartphone e da televisão. São esses espaços que ajudam a reduzir o isolamento, estimulam o movimento do corpo e fortalecem vínculos.
Sabemos que o uso excessivo de telas está associado a quadros de ansiedade, distúrbios do sono, sedentarismo, isolamento social e comparação constante, o que pesa de forma particular sobre o psicológico da população jovem. O problema se agrava quando consideramos a desigualdade no acesso ao lazer: jovens das periferias são justamente os que dispõem de menos espaços seguros e estruturados de convivência.
Logo, estimular parcerias entre governos, escolas e comunidades é, sim, uma maneira de fazer política pública voltada à saúde mental. A abertura de escolas nos fins de semana, projetos comunitários de esporte e cultura e a ocupação criativa de espaços ociosos são estratégias concretas para ampliar o acesso ao lazer e à convivência. Investir nessas iniciativas é investir em prevenção, oferecendo condições reais para que o bem-estar psíquico se construa também fora dos consultórios.
Falando em políticas públicas, é fundamental que o cuidado com a saúde mental deixe de ser tratado como ação pontual ou resposta emergencial e passe a ocupar o lugar de uma política de Estado. Campanhas pontuais e ações pontuais cumprem um papel relevante, mas são insuficientes se não vierem acompanhadas de políticas permanentes, com orçamento definido, metas claras e mecanismos objetivos de avaliação, além, é claro, de dados. A escassez de informações confiáveis sobre sofrimento psíquico, prevalência de transtornos e acesso ao cuidado ainda dificulta a formulação de políticas públicas eficazes no Brasil. Sem dados, não há diagnóstico preciso; sem diagnóstico, não há política pública consistente.
Precisamos garantir que a atenção preventiva comece desde cedo, ainda na infância e na adolescência. Programas estruturados nas escolas, capazes de identificar precocemente sinais de sofrimento psíquico e situações de bullying, podem ser ferramentas poderosas de redução dos nossos índices epidêmicos de depressão e ansiedade. É preciso, sobretudo, reduzir estigmas, deixando claro para a população que cuidar da saúde é, também, olhar para a saúde mental.
Outro eixo importante é a ampliação e o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do nosso sistema público, que inclui os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), ambulatórios especializados, leitos psiquiátricos em hospitais gerais e sua articulação com a atenção básica.
Até porque uma boa estratégia nesse campo começa pela atenção primária. Essa deve ser a principal porta de entrada para o cuidado psicológico, pois muitas vezes ansiedade, depressão e estresse aparecem de forma difusa, mascarados por queixas físicas, e passam despercebidos quando falta formação adequada.
Daí a importância de preparar médicos generalistas, enfermeiros e agentes comunitários para reconhecer sinais precoces de sofrimento psíquico. Nós, profissionais da saúde, precisamos de uma capacitação que vá além da lógica estrita da prescrição medicamentosa. Escuta qualificada, acolhimento, criação de vínculo e uma abordagem biopsicossocial são elementos centrais. Profissionais bem-preparados conseguem orientar, acompanhar e encaminhar de forma mais adequada, reduzindo tanto a medicalização excessiva quanto a cronificação do sofrimento.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que os próprios profissionais de saúde estão entre os grupos mais expostos ao adoecimento psíquico. Burnout, ansiedade e depressão têm se tornado cada vez mais comuns em um contexto de sobrecarga, pressão e escassez de recursos. Cuidar de quem cuida, com políticas institucionais de apoio emocional, condições dignas de trabalho e espaços de escuta, também precisa ser debatido.
O avanço dos índices de sofrimento mental entre a população brasileira mostra que estamos lidando com um desafio estrutural coletivo. Logo, o cuidado com a mente é tão urgente quanto o cuidado com o corpo; requer prevenção, escuta e políticas públicas que não podem ser adiadas. Por fim, os números deixam claro que silenciar sobre saúde mental nunca foi uma opção tão cara.





