O desafio da longevidade saudável e sustentável
Prevenção é a chave para lidar com o envelhecimento da população
Há apenas 50 anos, a expectativa de vida do brasileiro ficava em torno de 60 anos de idade, em parte porque os altos índices de mortalidade infantil pressionavam a média para baixo. Hoje, segundo os dados mais recentes do IBGE, a média subiu para 76,6 anos – sem dúvida, um avanço impressionante em tão pouco tempo, fruto de diversas políticas, entre as quais a criação do SUS e as campanhas de vacinação em massa. O que soa como uma boa notícia, no entanto, é motivo de preocupação – sobretudo quando consideramos o aumento contínuo da população de idosos (com mais de 60 e com mais de 80 anos), fator que produz impacto significativo sobre os sistemas de saúde e previdência social.
O envelhecimento vem acompanhado do risco aumentado de surgimento de doenças crônicas, como as cardiovasculares, o diabetes tipo 2, a hipertensão, a obesidade e alguns tipos de câncer, entre muitos outros problemas que, além de prejudicarem a qualidade de vida, oneram o sistema de saúde. Um contingente maior – e crescente – de idosos pode afetar a sustentabilidade do sistema, se nada for feito. O mesmo raciocínio vale para a previdência, que depende da contribuição da população ativa, cujo crescimento é inferior ao de idosos. No caso específico da saúde, como a maior parte dos recursos custeia tratamentos de doenças evitáveis, a solução do problema passa necessariamente pela medicina preventiva: tratar é caro, prevenir é barato.
Prevenção, porém, exige compromisso com o cultivo de hábitos saudáveis. Não existe milagre: tabagismo, sedentarismo, alimentação desequilibrada, abuso de bebidas alcoólicas, nada disso dá bons frutos na idade avançada – e, é preciso dizer, os efeitos negativos da negligência com a saúde têm chegado cada vez mais cedo. Fumo e álcool, principalmente, são escolhas mais fáceis de evitar mediante decisão consciente, excetuados os casos de dependência. A alimentação correta e a prática de exercícios, em boa medida, são também escolhas, mas podem não estar ao alcance de todos da mesma forma, o que é um reflexo da desigualdade social.
É preciso haver ambiente e condições que tornem as escolhas possíveis para a coletividade, de modo que as pessoas vivam mais e o sistema de saúde gaste menos. A obesidade e os problemas relacionados a ela, paradoxalmente, são mais frequentes em populações de renda mais baixa, que passaram da vulnerabilidade alimentar para o consumo de alimentos ultraprocessados – em geral, muito mais baratos, mas pobres em nutrientes. O uso de conservantes permite a produção em larga escala e o custo mais baixo – mas, com o tempo, a saúde cobra o preço do acúmulo de ingredientes artificiais no organismo.
Governos já têm atuado para evitar – ou diminuir ao máximo – esse tipo de alimento na merenda escolar, o que é um passo positivo na educação alimentar das próximas gerações. É necessário, porém, criar mais políticas públicas que favoreçam a alimentação saudável nas camadas de menor poder aquisitivo da sociedade: redução de impostos sobre frutas, verduras, legumes e proteínas frescas, programas de cozinhas comunitárias e hortas urbanas, entre outras iniciativas, podem viabilizar alimentação de qualidade para a população. Campanhas de educação alimentar e a introdução desse tema nas escolas desde cedo são formas de criar uma cultura de prevenção de doenças. Esse é um investimento barato que traz ganhos em escala.
Outro problema preocupante é a vida sedentária, em parte resultado da vida moderna, que estimula a permanência inativa diante de telas – não só durante o trabalho como nas horas de lazer. A atividade física tem de ser inserida na rotina. Não podemos esquecer que a falta de movimento gera consequências: reduz o gasto calórico, desacelera o metabolismo e enfraquece o sistema cardiovascular. O resultado são distúrbios metabólicos, doenças cardiovasculares, como hipertensão e colesterol alto, além do risco aumentado de infarto do miocárdio e de AVC. Todos esses problemas – e também os osteomusculares, mais frequentes entre a população idosa – podem ser evitados ou minimizados com a prática de exercícios físicos, mesmo que moderados, no dia a dia.
Mais uma vez, temos de lembrar que é tarefa do poder público oferecer à população condições de acesso a um estilo de vida saudável. Parques e praças bem cuidados, bem iluminados e seguros, ciclovias conectadas e calçadas bem pavimentadas já são um passo importante, uma vez que viabilizam caminhadas e corridas ou mesmo o uso da bicicleta como meio de transporte. Governos podem promover aulas gratuitas de ginástica em parques ou mesmo em unidades básicas de saúde e outras atividades em parceria com a iniciativa privada, como organização de eventos esportivos abertos ao público. Ações desse tipo têm custo baixíssimo e geram efeito altamente positivo.
Um estudo da Universidade Federal Fluminense, feito em 2019, estimou que naquele ano a inatividade física tenha custado ao SUS cerca de R$ 300 milhões, consideradas apenas as internações hospitalares, sem os gastos com consultas, exames e medicamentos. Imaginemos esse mesmo recorte hoje, sete anos depois, com uma população idosa em ascensão. O que se economiza com prevenção pode ser usado na inovação e na tecnologia, que custam caro, mas alargam as fronteiras da medicina, permitindo tratamentos de alta precisão para os casos que realmente precisam deles.
Com a redução da carga das doenças evitáveis por meio de políticas de prevenção, libera-se um volume significativo de recursos hoje consumidos por tratamentos longos, caros e previsíveis. Essa economia não é apenas um alívio para o orçamento: ela abre espaço para investir em áreas historicamente negligenciadas, como as doenças raras, que têm permanecido invisíveis por falta de diagnóstico, de tecnologia e de interesse econômico. Prevenir o que já sabemos tratar é o caminho mais inteligente para financiar a inovação que vem pela frente.
Os custos, sem dúvida, são o elemento central da equação: uma população que vive mais demanda mais do sistema de saúde, afetando a sua sustentabilidade. A prevenção é, desse ponto de vista, uma solução econômica. Em contrapartida, está o ganho em qualidade de vida: a prática de exercícios melhora a saúde física, retarda o declínio cognitivo, aumenta a disposição e favorece a convivência social. Não por acaso, o mais longo estudo sobre desenvolvimento humano, conduzido pela Universidade de Harvard ao longo de mais de oito décadas, demonstrou que a qualidade dos relacionamentos é um dos fatores mais fortemente associados à longevidade saudável. Viver mais depende não apenas de bons hábitos e acesso à saúde, mas também da capacidade de preservar vínculos familiares, amizades, participação na comunidade e um propósito de vida.
Mesmo com a perspectiva de um envelhecimento mais saudável, o declínio virá e, com ele, a necessidade de apoio e cuidados, tarefas que antes eram delegadas aos familiares, mas que já começam a ser exercidas por profissionais. Assim, a nova etapa da vida, cada vez mais, requer planejamento financeiro para arcar com novos custos. Segundo recentes projeções feitas pelo Ipea, o número de idosos que vão precisar de cuidados de longa duração deve evoluir de cerca de 5 milhões hoje para algo em torno de 17 milhões até 2050. A sociedade precisa avançar no debate sobre longevidade saudável e sustentável, incorporando a cultura da prevenção, fortalecendo os vínculos sociais e incluindo o planejamento financeiro na agenda da saúde.






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