O segredo dos centros prósperos: transformar informação em conhecimento
Cidades competitivas oferecem regras claras, segurança jurídica, infraestrutura adequada e previsibilidade
Uma semana antes da pandemia, solicitei a um cliente que participasse de uma reunião por meio do então popular Skype. O projeto estava localizado a cerca de 350 quilômetros de São Paulo, e a alternativa virtual evitaria percorrer uma rodovia de pista simples na noite anterior. A reação foi de completo ceticismo: a conexão de internet da região seria insuficiente — e uma reunião daquela importância não funcionaria remotamente. Poucas semanas depois, o mundo inteiro passou a se comunicar maciçamente por videoconferências. A pandemia ensinou que mudanças estruturais podem ocorrer em velocidades muito superiores às que imaginamos. Mais do que tentar prever o futuro, tornou-se fundamental detectar e compreender tendências, desenvolvendo, a partir daí, capacidade de adaptação.
Diversas empresas perceberam rapidamente que o período pós-pandemia dificilmente representaria apenas uma retomada do passado. Muitas revisaram seus modelos de negócio, suas estruturas físicas e até mesmo sua localização, apostando em cidades próximas aos grandes centros e em novas formas de organização do trabalho.
A lógica parecia simples: se a tecnologia permite trabalhar de qualquer lugar, uma das principais razões para viver nas grandes metrópoles deixaria de existir. Essa análise ignorou, no entanto, a própria essência das cidades. Muito antes da internet e dos modernos escritórios, as cidades surgiram como espaços de encontro. São ambientes onde as pessoas compartilham conhecimento, experiências e oportunidades. A proximidade física continua sendo um dos principais motores da inovação e do desenvolvimento econômico porque favorece algo difícil de reproduzir integralmente no ambiente digital: as interações espontâneas.
As grandes ideias raramente surgem apenas em reuniões agendadas. Elas costumam nascer de conversas informais, encontros inesperados e da convivência entre pessoas com diferentes experiências. É justamente nesse ponto que surge uma questão complexa, porém incontornável: se as cidades continuam sendo espaços privilegiados de geração de oportunidades, por que algumas prosperam mais do que outras? Como explicar que municípios vizinhos, inseridos em uma mesma dinâmica regional, apresentem resultados tão distintos?
A resposta parece estar menos no território e mais na qualidade da governança. Cidades competitivas não são necessariamente aquelas que possuem mais recursos naturais ou localização excepcional, mas as que conseguem oferecer regras claras, segurança jurídica, infraestrutura adequada e previsibilidade. Investimentos, empregos e inovação tendem a se concentrar onde existe confiança nas instituições e estabilidade nas decisões públicas. Isso exige prioridades bem definidas, projetos estruturantes tratados como políticas de Estado, alinhamento entre órgãos governamentais e processos decisórios transparentes, além de caracterizados por sua coerência e eficácia.
Se a pandemia deixou a lição de que o futuro pode não durar muito tempo, a dinâmica urbana mostra que as cidades mais preparadas não são necessariamente as maiores ou mais ricas. São aquelas capazes de transformar informação em conhecimento, planejamento em estratégia e governança em resultados concretos para as suas populações — sobretudo as mais vulnerabilizadas.
*Luciano Virgílio: docente-líder do curso de educação executiva Planejamento Urbano e Regulações das Cidades, do Laboratório Arq.Futuro do Insper, é arquiteta e urbanista, mestre em Engenharia Urbana pela Poli-USP






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