Tecnologia não basta para uma cidade ser inteligente
Sem uso compartilhado a serviço da população, os bilhões de dados urbanos disponíveis se tornam apenas ruídos
Ao longo das últimas décadas, as cidades vêm passando por uma profunda transformação impulsionada pela tecnologia e pelo uso estratégico de dados. Mais do que adotar soluções digitais, esse processo representa uma mudança gradual na maneira como os governos planejam, gerenciam e se relacionam com seus cidadãos, afetando diretamente a vida cotidiana da população. O caminho rumo às chamadas “cidades inteligentes” começou com a consolidação do que viriam a ser chamadas “cidades digitais”, quando a digitalização de processos administrativos foi combinada com a expansão da conectividade para viabilizar a comunicação entre secretarias e a oferta de serviços remotos (como emissão de certidões, pagamento de tributos e acesso a sistemas governamentais). A conectividade também permitiu integrar unidades de saúde, conectar escolas, ampliar o acesso a conteúdos educacionais e aproximar o cidadão da gestão pública.
Em uma etapa seguinte, com a ampliação das redes de conectividade fixas, sem fio e de telefonia móvel (3G, 4G e 5G), dispositivos conectados passaram a integrar a infraestrutura urbana, incluindo câmeras de monitoramento, sensores ambientais, semáforos inteligentes, radares de velocidade e medidores de consumo de água. Isso viabilizou a leitura do território urbano, a transmissão e o processamento de dados municipais em tempo real para apoiar decisões imediatas, como a identificação de acidentes, infrações de trânsito e alagamentos.
Recentemente, as cidades avançaram ainda mais, alcançando um estágio em que não somente coletam informações como também as integram e analisam. Esses dados, somados aos registros históricos e às contribuições dos próprios cidadãos — através, por exemplo, de plataformas de atendimento e zeladoria urbana, adotadas em diversas metrópoles brasileiras —, alimentam sistemas inteligentes capazes de compreender padrões, antecipar cenários e apoiar ações imediatas e o planejamento urbano de longo prazo. Tal evolução tecnológica, no entanto, só faz sentido, naturalmente, quando se traduz em melhorias concretas para a população. Não se trata apenas de ampliar o número de sensores, aplicativos ou plataformas mas sim de usar essas ferramentas para que gestores definitivamente tomem ações específicas visando reduzir desigualdades, ampliar o acesso a serviços, tornar os deslocamentos mais eficientes, prevenir desastres e fortalecer a inclusão social.
No Brasil, o desafio da construção de cidades inteligentes é maior. Aqui, as urbes cresceram rapidamente e, em grande parte, sem planejamento adequado ou com modelos ainda rudimentares. Hoje, cerca de 87% da população do país reside em áreas urbanas, convivendo diariamente com os efeitos dessa expansão desordenada. Esses efeitos se manifestam em problemas como insegurança — a maior preocupação de quem mora nas cidades brasileiras —, trânsito congestionado, desigualdade habitacional, enchentes, ilhas de calor, exclusão social, educação precária, dificuldades no acesso à saúde e falta de infraestruturas básicas, como saneamento. São desafios interligados, que atingem sobretudo as populações da periferia.
Com 5.570 municípios, dos quais aproximadamente 93% têm menos de 100 mil habitantes, o Brasil tem escancarada uma enorme diversidade de realidades, capacidades institucionais — e, claro, demandas locais. Quando esses desafios são tratados de forma fragmentada, tornam-se um emaranhado de sintomas que nenhuma área da gestão pública consegue resolver atuando isoladamente. Diante de tal cenário, não é mais possível administrar as cidades de modo tradicional, baseando-se apenas em intuição ou improviso. É indispensável adotar uma gestão de cidade inteligente, vale dizer, orientada por dados, evidências e planejamento consistente. A esta altura, já ficou cristalino que uma cidade inteligente é, antes de tudo, aquela que melhora a vida das pessoas, sem deixar ninguém para trás. Mais do que uma cidade digital ou automatizada, é preciso pensar em um território que compreenda seus desafios — presentes e futuros — combinando tecnologia, processos, insumo das pessoas e intervenções capazes de enfrentar os problemas não só com inteligência, mas também empatia. Para que esse modelo funcione, setores como o da segurança, mobilidade, defesa civil, habitação, saúde, educação e saneamento, para citar apenas alguns, não podem utilizar somente seus próprios dados — eles devem ser compartilhados, garantindo interoperabilidade, alinhamento operacional e planejamento conjunto.
Essa integração é essencial, por exemplo, no atendimento a acidentes de trânsito, quando equipes do Samu precisam decidir rapidamente qual ambulância será despachada e por quais rotas, considerando as condições do tráfego em tempo real. O mesmo ocorre em situações de previsão de tempestades, nas quais a defesa civil e a secretaria de mobilidade atuam de maneira coordenada no planejamento, na preparação e na resposta a eventos extremos, protegendo vidas. Nesse sentido, é essencial conhecer profundamente o território e seus problemas. Um conhecimento assim nasce da combinação entre dados, observação direta, participação cidadã e gestão pública eficiente. Gestores públicos têm papel central na formulação de políticas, na alocação de recursos e na coordenação de ações. Todavia, os cidadãos, além de beneficiários dos serviços públicos, devem ser protagonistas urbanos. São eles que vivem o dia a dia das comunidades, são afetados pelas questões mais urgentes e, portanto, podem e devem contribuir com informações que alimentam sistemas de gestão e decisões públicas.
Nas cidades inteligentes, dados e tecnologia são o divisor de águas entre o achismo e a realidade. Parte significativa dos dados gerados todos os dias no planeta nasce justamente nos ambientes urbanos, a partir de celulares, sensores, câmeras e sistemas públicos. Hoje, esse volume chega a cerca de 2,5 quintilhões de bytes por dia, o equivalente a bilhões de fotos em alta definição e centenas de milhões de horas de vídeo. Tal volume, por si só, não torna uma cidade inteligente. Dados não são o “novo petróleo”. São matéria-prima que só ganha valor quando é lapidada, organizada, analisada e interpretada para orientar políticas públicas visando o bem comum. Sem contexto e capacidade de interpretação, os dados se tornam apenas ruído. Seu verdadeiro valor está em revelar padrões, antecipar problemas, orientar investimentos e apoiar decisões que impactam diretamente a população. Alguns exemplos:
- Nas áreas de mobilidade e segurança, sistemas inteligentes analisam enormes volumes de imagens captadas por câmeras para detectar congestionamentos, acidentes e comportamentos suspeitos, sempre dentro dos limites da legislação;
- Na gestão de riscos e na resiliência climática, sensores ambientais alimentam sistemas que simulam e preveem alagamentos e inundações, permitindo antecipar respostas e mobilizar equipes;
- Na área social e educacional, a análise integrada de dados revela padrões antes invisíveis. Em Fortaleza, para citar um caso, o cruzamento de informações do CadÚnico com dados de saúde e educação e referentes à distância entre casa e escola levou à criação de políticas específicas de apoio a adolescentes grávidas e de retenção escolar;
- Na saúde pública, ferramentas de inteligência artificial analisam e interpretam prontuários eletrônicos para identificar sinais precoces de violência contra a mulher. Em Recife, projetos-piloto permitiram detectar padrões associados a feminicídios antes de sua ocorrência;
- A mobilidade e a sustentabilidade também se beneficiam do uso intensivo de dados. No Rio de Janeiro se utiliza inteligência artificial para otimizar semáforos, reduzir congestionamentos e diminuir emissões;
- Em áreas de encosta, sensores subterrâneos e dados satelitais permitem prever deslizamentos e emitir alertas antecipados, salvando vidas. Esses exemplos mostram que a inteligência urbana não está na quantidade de dados disponíveis nem na sofisticação das tecnologias, mas na capacidade de usá-los de forma integrada, ética e orientada ao bem-estar coletivo, convertendo informações em decisões práticas, políticas públicas mais eficazes e serviços que respondam, de fato, às necessidades da população.
Mauricio Bouskela e Adriano Borges Costa são coordenadores do Núcleo Economia Urbana, Cidades Inteligentes e Big Data do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper





