Longevidade é conquista, mas o CEP decide de quem
A pergunta incômoda é: quais partes das cidades permitem envelhecimento digno e quais produzem apenas uma sobrevivência prolongada?
Existe uma pergunta que o Brasil ainda não aprendeu a fazer sobre o envelhecimento da sua população. Não é quantos anos os brasileiros estão vivendo a mais, pois esse número já está nos relatórios do IBGE. A pergunta é outra: quantos desses anos são vividos com saúde, autonomia, dignidade — e, principalmente, onde?
A distinção não é semântica. É a diferença entre uma conquista civilizatória e uma estatística que oculta um drama desconcertante.
O Mapa da Desigualdade de São Paulo 2024, da Rede Nossa São Paulo, traz um dado que deveria estar no centro desse debate. Entre os 96 distritos mapeados da capital paulista, a idade média de morte varia em 20 anos: na Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, morre-se aos 62; no Alto de Pinheiros, zona oeste, aos 82. A série histórica do indicador, que a RNSP acompanha desde 2006 com base em dados públicos oficiais, mostra que essa desigualdade permanece levemente inalterada. Não estamos diante de uma variação estatística e sim de um sistema urbano que distribui vida de forma desigual — e que encontrará, em velocidade acelerada, uma população envelhecida sem ter onde envelhecer com dignidade.
O país, a propósito, envelhece rápido. A proporção de idosos quase dobrou entre 2000 e 2023 — de 8,7% para 15,6%, segundo o IBGE. Em 2070, quase quatro em cada dez brasileiros terão 60 anos ou mais. Esse processo não é o problema; é uma conquista da saúde pública. A questão é o que vem junto: uma estrutura urbana que distribui condições de envelhecimento, de maneira desigual, conforme o CEP.
Renda, educação, moradia e território explicam a maior parte das diferenças nos resultados de saúde entre populações. O que o urbanismo não incorporou foi essa dimensão territorial: não é apenas a renda que mata mais cedo e sim o lugar onde ela obriga as pessoas a viver. A calçada quebrada, a ausência de sombra, o transporte que consome horas do dia, a unidade de saúde que transforma consulta em expedição. Para idosos com mobilidade reduzida ou doenças crônicas — maioria dos que envelhecem nas periferias —, esses elementos representam isolamento, dependência e adoecimento acelerado.
Os dados sobre desigualdade territorial medem, quase exclusivamente, quando as pessoas morrem e não como vivem os anos que antecedem a sua morte. Pesquisa publicada em 2022 nos Cadernos de Saúde Pública, com dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 e 2019, mostrou que as desigualdades na esperança de vida saudável entre unidades federativas persistiram ao longo da década, com os piores indicadores concentrados no Norte e no Nordeste. Aos 60 de idade, a variação chegou a seis anos entre os extremos em 2019. No entanto, não existe, em fontes abertas, métrica equivalente desagregada por bairro ou distrito. Sabemos que o morador da Cidade Tiradentes morre 20 anos antes daquele do Alto de Pinheiros. Não sabemos, todavia, quantos desses anos já eram vividos com dor crônica, limitação funcional ou dependência. Essa ausência não é neutra: é uma escolha sobre quais perguntas o sistema de saúde decide não fazer sobre os mais pobres.
São Paulo, como se sabe, é a maior cidade da América Latina, a mais rica do Brasil e uma das que mais produz dados sobre si mesma. Não faltam institutos, universidades ou secretarias com capacidade técnica para cruzar informações territoriais, sociais e de saúde com a precisão que a gestão pública exige. O que falta é agir a partir do que os dados revelam. Quando a capital paulista escolhe não integrar essas informações, não comete uma omissão técnica: ela abre mão de saber onde estão os idosos mais vulneráveis antes que precisem de uma UTI; de antecipar quais territórios concentrarão maior demanda por cuidado na próxima década; de redirecionar recursos enquanto ainda há tempo. Essa desinformação tem custo — financeiro, humano e geracional. E recai, como sempre, sobre aqueles cujo CEP nunca esteve no centro das decisões políticas da cidade.
A pergunta que o planejamento urbano precisa fazer não é como tornar as cidades “amigáveis” aos idosos — expressão genérica o suficiente para justificar desde um corrimão até um certificado da Organização Mundial da Saúde (OMS). A questão, insista-se, é mais incômoda: quais partes de quais cidades produzem envelhecimento com dignidade e quais produzem apenas sobrevivência prolongada? Enquanto essa pergunta não entrar nos planos diretores e nos indicadores de política pública, o país continuará celebrando o aumento da expectativa de vida como conquista coletiva e distribuindo essa conquista conforme o endereço de cada um.
* Gabriela Vasconcelos, coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é economista, urbanista social e mestranda em Saúde Pública na FSP/USP







