A invisível e monumental produção cotidiana de dados
Sinônimo de vida urbana, eles têm orientado ações do setor privado, enquanto o público ainda avança lentamente nessa agenda
“Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã…”
Décadas atrás, Chico Buarque traduziu a rotina repetitiva da vida cotidiana. Hoje, talvez a letra daquele clássico da MPB pudesse ganhar uma versão digital. Todo dia, quase tudo se repete: desperto às seis horas da manhã, pego o celular no criado-mudo, olho as mensagens da madrugada, consulto as notícias, vejo a previsão do tempo, acompanho os dados do meu sono e dos meus batimentos cardíacos. Antes mesmo de sair da cama, já estou conectado. Assim como eu, milhões de pessoas despertam praticamente da mesma maneira, com o celular fazendo as vezes de extensão do próprio corpo.
Antes do banho, já respondo mensagens, percorro redes sociais, me coloco a par do trânsito, organizo compromissos. Pouco depois, verifico o clima, aciono o relógio inteligente, acesso uma rede Wi-Fi. Já na rua compro um café pagando com cartão digital e mergulho na “roda-viva” — Chico de novo — quase automática da rotina digital que se tornou sinônimo de vida urbana.
Mas existe algo invisível acontecendo em paralelo a essas ações. Cada toque na tela, cada curtida, cada deslocamento e cada conexão deixa rastros digitais. Um aplicativo registra que acordei cedo. Meu relógio monitora quantas horas dormi e qual foi a qualidade do meu sono. A rede social entende quais assuntos prendem mais minha atenção. O aplicativo de mobilidade sabe de onde saí, para onde fui e quanto tempo levei. O sistema de pagamento documenta onde comprei meu café e minhas demais transações comerciais ao longo do dia. Mesmo sem perceber, vou produzindo uma narrativa detalhada sobre hábitos, preferências, horários.
Coletivamente, fazemos isso em uma escala gigantesca: a cada dia, produzimos cerca de 2,5 quintilhões de bytes de dados. Trata-se de um volume monumental que vem sendo lapidado principalmente pelo setor privado. É graças a esse dados que plataformas digitais conseguem prever interesses, personalizar conteúdos etc.
O problema começa quando percebemos que ainda compreendemos muito pouco sobre o real valor estratégico dos dados que geramos. Também sabemos pouco sobre quem os controla, como são utilizados, quais inferências podem ser feitas sobre nossas vidas e quais limites deveriam existir em relação à privacidade, transparência e segurança digital.
Enquanto o setor privado já domina ferramentas de big data, inteligência artificial e aprendizado de máquina para transformar dados em previsões e modelos sofisticados de comportamento, o setor público ainda avança lentamente nessa agenda. E isso é particularmente preocupante em um país urbanizado como o Brasil.
Os dados têm potencial para transformar profundamente a gestão urbana. Quando analisados de maneira integrada e intersetorial, podem antecipar enchentes, melhorar o trânsito, apoiar o planejamento das cidades, otimizar serviços públicos, reduzir tempos de resposta em emergências, identificar áreas de maior vulnerabilidade social e orientar políticas públicas mais eficientes. O verdadeiro conceito de cidade inteligente não está apenas na tecnologia e sim na capacidade de usar dados para melhorar concretamente a vida das pessoas.
Para isso, no entanto, é fundamental avançar em algumas frentes. A primeira delas é governança. Quem pode acessar os dados? Como garantir privacidade e segurança? Como evitar discriminação algorítmica ou usos abusivos dessas informações? A segunda é capacitação. Ainda existe enorme desconhecimento estratégico, sobretudo no setor público, sobre o potencial do uso de dados. A terceira é infraestrutura e integração. Muitas cidades ainda trabalham com sistemas isolados, sem interoperabilidade e sem visão integrada dos problemas urbanos.
A grande questão contemporânea não é mais apenas quantos dados geramos todos os dias: importa saber como transformá-los em desenvolvimento para melhoria concreta da qualidade de vida.
Enquanto isso, amanhã cedo, farei quase tudo sempre igual outra vez.
* Mauricio Bouskela coordena, ao lado de Adriano Borges Costa, o Núcleo Economia Urbana, Cidades Inteligentes e Big Data do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper





