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Canabidiol e autismo: o que a ciência tem a dizer?

O CBD parece ser promissor no tratamento de diversos sintomas do transtorno do espectro autista (TEA), porém um longo caminho ainda deve ser percorrido

Por José Diogo Souza e Rodrigo Bressan
12 abr 2023, 10h00

O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social, além de padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. O termo “espectro” é utilizado porque a gravidade dos sintomas e o nível de funcionalidade variam amplamente entre as pessoas com autismo. Em geral, o surgimento dos sintomas é observado nos primeiros três anos de vida, com maior prevalência no sexo masculino. Estima-se que 1% da população mundial tenha diagnóstico de TEA. Os indivíduos com TEA frequentemente apresentam outros transtornos psiquiátricos associados como ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno obsessivo compulsivo (TOC), além de condições médicas como epilepsia.

A intervenção precoce, terapias cognitivo-comportamentais e seguimento multiprofissional são fundamentais para a melhora da qualidade de vida no TEA. Até agora, não há medicamentos específicos comprovadamente eficazes para tratar os principais sintomas do TEA. Embora várias classes de psicofármacos sejam utilizadas para reduzir alguns sintomas associados, como irritabilidade, agitação, agressividade, bem como comorbidades, seus efeitos benéficos muitas vezes são contrabalançados pelos possíveis efeitos colaterais desses medicamentos.

O canabidiol (CBD) é um composto medicinal derivado da cannabis que não possui efeitos psicoativos, ao contrário do tetrahidrocanabinol (THC). Isso significa que o CBD não causa alterações na consciência ou na percepção sensorial, além de não ter potencial de abuso e apresentar poucos efeitos colaterais. O CBD possui um amplo potencial terapêutico, incluindo ação anticonvulsivante, ansiolítica, neuroprotetora, antiinflamatória, entre outras. No entanto, embora apresente tal potencial, até agora a única evidência científica robusta é de sua ação anticonvulsivante em três síndromes epiléticas raras na infância.

Como epilepsia é uma comorbidade frequentemente encontrada no TEA, nos últimos anos, há um interesse crescente em explorar o potencial terapêutico do CBD para os sintomas centrais e associados nesse transtorno, não somente por apresentar perfil terapêutico para tratar as condições psiquiátricas associadas, mas também por desempenhar um possível papel modulador na regulação de neurotransmissores excitatórios e inibitórios, cujo equilíbrio é frequentemente comprometido em pessoas com TEA. Entretanto, a avassaladora disponibilidade de informações na internet e redes sociais sobre o CBD, torna difícil distinguir o que é teoria, fatos cientificamente comprovados ou apenas mitos sobre esse composto e sua aplicabilidade no TEA.

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Embora haja evidências promissoras em pesquisas com modelos animais e estudos em humanos sobre o uso do CBD em pacientes com TEA, a falta de estudos com alta qualidade metodológica limita a compreensão de seu potencial. No entanto, relatos de casos e estudos abertos mostraram resultados positivos, incluindo melhorias nas
interações sociais, comunicação verbal e diminuição da agressividade e hiperatividade. Atualmente, muitas pesquisas são realizadas em grupos com número limitado de indivíduos, o que dificulta a compreensão do comportamento do medicamento em diferentes organismos.

Os produtos medicinais CBD disponíveis envolvem formulações orais de fitofármacos(CBD isolado com grau elevado de pureza) e fitoterápicos(extratos cannabis com predominância deste fitocanabinoide e presença de outros compostos, podendo incluir o THC). Essa variedade de produtos e a baixa padronização ainda é um problema. O uso de extratos com outros fitocanabinoides torna a segurança dessas formulações um assunto que precisa ser estudado com mais profundidade. A exposição ao THC durante o neurodesenvolvimento pode aumentar o risco de problemas cognitivos e comportamentais futuros, mesmo em pessoas sem transtornos psiquiátricos. Esses efeitos podem ser ainda mais graves em pessoas com TEA, que são mais propensas a ter essas
comorbidades.

A crescente demanda global pelo uso medicinal do CBD tem sido maior do que a velocidade em que os dados científicos são produzidos. Logo, não significa que o CBD não funcione para outras condições médicas além de epilepsia, mas sim que as evidências ainda estão em construção à medida que estudos clínicos são realizados, o que não é diferente para o TEA.

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Muitas vezes, os sintomas do TEA podem ter um impacto significativo na vida dos indivíduos e de seus familiares. Frequentemente, famílias buscam tratamentos alternativos, na tentativa de melhorar alguns sintomas. Nesse sentido, muitos médicos têm recebido pedidos de familiares para prescrição do canabidiol, mas a decisão compartilhada só pode ser alcançada com uma compreensão adequada das características clínicas individuais, dos benefícios esperados e dos potenciais riscos envolvidos. É fundamental que pacientes, familiares e profissionais de saúde estejam bem informados sobre o tema.

Portanto, embora o CBD pareça ter um potencial promissor no tratamento dos sintomas do TEA, seu uso ainda é baseado em um número limitado de estudos e na experiência individual dos médicos e expectativas de familiares de pacientes. Nesse momento, as principais preocupações com o uso do CBD no autismo são além dos possíveis efeitos colaterais de longo prazo, as interações com outros medicamentos e a baixa padronização dos produtos CBD. Novas pesquisas estão sendo realizadas e esperamos que, nos próximos anos, tenhamos mais dados sobre a possível eficácia e segurança do CBD em indivíduos com TEA.

*José Diogo Ribeiro de Souza épsiquiatra. Doutorando pelo Programa de Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Colaborador do Grupo de Apoio às Psicoses Iniciais (GAPi) – Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp).

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*Rodrigo Affonseca Bressan é professor adjunto livre-docente do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp). Presidente do Instituto Ame Sua Mente.

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