Tailândia: o ‘Vale do Silício’ da Cannabis
Depois de legalizar o uso medicinal e tirar a substância da lista de narcóticos, o país virou polo interessante e criativo de pesquisa aplicada
Enquanto grande parte do mundo ainda discute os limites da Cannabis medicinal, a Tailândia vem consolidando uma posição singular no cenário científico. A história é bastante interessante. Em 2019, a Tailândia foi o primeiro país do Sudeste Asiático a legalizar a Cannabis para uso medicinal. Três anos depois, retirou a planta da lista de narcóticos, o que provocou uma explosão de cultivos, novos negócios e, o fundamental, novas pesquisas.
Em 2025, o governo voltou a restringir o uso, porque achou que a abertura foi permissiva demais, exigindo prescrição médica para comercialização. Mesmo assim, o período de abertura deixou uma enorme infraestrutura científica e clínica instalada. O país virou um dos polos mais interessantes e criativos do mundo em pesquisa aplicada de Cannabis. Estados Unidos e Canadá concentram ainda a maior parte das investigações, mas a Tailândia se diferencia por misturá-las com a medicina tradicional, alimentação e saúde pública.
Em vez de concentrar os estudos apenas em óleos purificados ou medicamentos industrializados, como ocorre com frequência nos Estados Unidos e na Europa, pesquisadores tailandeses investigam também preparações tradicionais, como chás, bebidas e alimentos enriquecidos com Cannabis. O objetivo é validar cientificamente práticas já utilizadas pela medicina tradicional tailandesa, avaliando sua eficácia, segurança e padronização.
O estudo mais recente, publicado neste mês no Journal of Health Science and Medical Research, chamou atenção ao indicar que um chá com infusão de Cannabis consumido antes de dormir foi associado à melhora da sensação de felicidade entre os participantes. Embora preliminar, a pesquisa é mais um exemplo de uma estratégia nacional que colocou a Tailândia entre os polos mais ativos da Ásia na investigação dos usos medicinais da planta.
Um dos destaques é a Rajamangala University of Technology Isan (RMUTI), responsável pelo novo estudo sobre o chá de cannabis. Os pesquisadores dividiram 30 voluntários em grupos que receberam infusões com diferentes concentrações da planta durante uma semana. Ao final do experimento, observaram aumento estatisticamente significativo dos índices de bem-estar, especialmente entre aqueles que consumiram a maior concentração da bebida. O próprio grupo já havia publicado, anteriormente, outro trabalho indicando melhora da qualidade do sono com formulações semelhantes, sugerindo que o benefício observado sobre o humor possa estar relacionado ao descanso mais eficiente.
Instituições como a Mahidol University e a Chulalongkorn University também ampliaram suas linhas de pesquisa sobre cannabis, investigando desde aplicações clínicas em distúrbios do sono e da ansiedade até aspectos de saúde pública, segurança e impactos da legalização. Já a Suan Sunandha Rajabhat University criou um departamento dedicado às Ciências da Saúde da Cannabis e desenvolve estudos comparando formulações tradicionais da planta com medicamentos convencionais utilizados no tratamento da insônia.
Ao mesmo tempo, a comunidade científica também acompanha os desafios trazidos pela expansão da Cannabis. Diversos estudos recentes analisam os efeitos da liberalização sobre adolescentes, o aumento do consumo recreativo e a necessidade de aperfeiçoar as políticas públicas. Essa produção demonstra que a pesquisa no país não se limita a investigar benefícios, mas procura compreender os impactos da Cannabis sob diferentes perspectivas.






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