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Balanço Social

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Um olhar diferente para as desigualdades do Brasil

Menos de 2% dos ministros da história do STF são mulheres

Ainda estamos muito longe de alcançar, no mínimo, 30% de mulheres em espaços de poder e decisão, estabelecidos pela ONU

Por Andréia Peres 6 jan 2026, 06h45 • Atualizado em 6 jan 2026, 07h24
  • Os espaços de poder continuam masculinos, brancos e não inclusivos. Fotos de eventos oficiais são a melhor prova disso. Mulheres e negros são tão difíceis de achar quanto Wally, o célebre personagem infantil. Não entendo como ainda hoje a rara presença de mulheres e negros é vista com naturalidade, sem estranhamentos ou constrangimentos.

    “Precisamos ter mais mulheres nos espaços de poder e decisão. Quando as mulheres estão nesses espaços, a perspectiva e a vivência são focadas na defesa dos direitos das mulheres”, diz Ana Carolina Querino, representante da ONU Mulheres no Brasil, em entrevista exclusiva à coluna. Segundo ela, o mínimo para promover uma mudança no padrão de tomada de decisão são os 30% estabelecidos na Plataforma de Ação de Pequim.

    MAIS DE 50% DO ELEITORADO E MENOS DE 20% DOS DEPUTADOS ELEITOS

    Infelizmente, ainda estamos muito longe disso. Apesar de as mulheres corresponderem a 52,7% do eleitorado e da representatividade na Câmara dos Deputados ter tido um aumento recente, alcançamos pouco mais da metade da meta mínima.

    Passamos de 14,8%, em setembro de 2020, para 17,9% de deputadas federais em exercício em novembro de 2023, de acordo com publicação de 2024 do IBGE, a mais recente disponível. No ranking de proporção de parlamentares mulheres, o Brasil ocupa a 133ª posição entre 186 países, sendo o último colocado entre os países da América Latina.

    Em relação aos cargos ministeriais, também não alcançamos a meta de 30%. Dos 38 cargos ministeriais, apenas nove eram ocupados por mulheres. Saímos de apenas 8,7%, em 2020, para 23,7%, em 2023. Apesar do salto, seguimos sub-representadas.

    MULHERES SÃO SÓ 1,7% DOS MINISTROS DA HISTÓRIA DO STF

    Entre os governadores, em toda a história do Brasil, foram eleitas apenas dez mulheres. Nas últimas eleições, apenas duas governadoras se elegeram: Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, e Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte.

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    Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a participação feminina na Justiça, ainda que com variações entre os diferentes ramos, também segue baixa mesmo com o aumento identificado na série histórica (de 24,6%, em 1988, para 40%, em 2022). A maior paridade foi encontrada na Justiça do Trabalho, com 49% de magistradas.

    Para se ter uma ideia do tamanho da disparidade, as mulheres são só 1,7% dos ministros do Supremo Tribunal Federal em toda a história. O Tribunal já teve 172 magistrados, sendo apenas três mulheres. Carmen Lúcia é hoje a única que ainda continua na Corte. No Superior Tribunal de Justiça, menos de um quarto dos magistrados é mulher.

    SEM UMA ESTRUTURA DE CUIDADOS, AS MULHERES NÃO AVANÇAM

    Para a representante da ONU Mulheres no Brasil, aumentar a representatividade feminina nos espaços de poder e decisão é um “ponto crucial” para avançarmos. Outro ponto relevante é o empoderamento econômico das mulheres e a existência de uma estrutura voltada para os cuidados.

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    “Devemos ir direto no ponto nevrálgico das desigualdades estruturantes entre homens e mulheres”, diz. “Além da política, precisamos de uma melhor divisão e corresponsabilidade pelos cuidados. Senão, só a parcela da população feminina que tem condições de terceirizar esse cuidado conseguirá avançar”, avalia.

    Hoje, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo que os homens (21,3 horas ante 11,7 horas) aos cuidados de outras pessoas ou afazeres domésticos. A maior dedicação a essas atividades acaba por restringir uma participação feminina mais ampla no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, enquanto a taxa de participação dos homens é de 73,2%, a das mulheres é de 53,3%. Uma diferença de quase 20 pontos percentuais.

    Nesse cenário, pouco mais de um terço dos cargos gerenciais (39,3%) estão nas mãos das mulheres. Uma assimetria entre os gêneros que impacta na remuneração e, mais tarde, na aposentadoria.

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    Chegar a pelo menos 30% de mulheres em espaços de poder e decisão não resolve todos esses problemas, mas, sem dúvida, já é um bom começo. Uma das metas para 2026.

    * Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

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