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Augusto Nunes

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Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Você conhece?

Pelé experimentou, talvez pela primeira e única vez, o desinteresse de um menino que conseguiu a proeza de estar ao seu lado num ambiente puro do futebol

Por Heraldo Palmeira 28 abr 2018, 12h02 • Atualizado em 30 jul 2020, 20h29
  • Heraldo Palmeira

    Domingo especial em dezembro de 1971. O Brasil ganhara a Copa do México ano e meio antes, com aquele show de futebol de uma das melhores seleções de todos os tempos. O clima daquela campanha memorável ainda dominava o país. Pelé, na plenitude do seu reinado, jogaria ali pela primeira vez, num amistoso contra um clube local.

    A cidade estava em festa depois de dias de preparativos. Como o estádio era pequeno, colocaram “cadeiras especiais” atrás do gol ─ ingressos mais caros, disputados a tapa, mesmo com o risco de levar uma bolada na cara ou cair no bolo de jogadores n’alguma trombada na região da linha de fundo.

    O pai zeloso adorava aquele filho, que se vestiu a caráter com o uniforme do time local, em vermelho e branco, bandeirola com escudo à mão. Sentariam naquele lugar VIP no gramado, veriam o jogo quase jogando. Mal haviam terminado o almoço e já estavam de saída, apesar de o jogo da bola estar marcado para o finalzinho da tarde. Uma multidão rumaria para o estádio e era prudente chegar cedo, garantir lugar mesmo com ingresso caro à mão. Sabe-se lá!

    O menino, impaciente, já estava na calçada. O tio querido chegou e cochichou alguma coisa em seu ouvido, sem que o pai percebesse, ocupado que estava em manobrar o carro para fora da garagem.

    O pequeno torcedor era já leitor ─ gibis Disney, revistas Recreio, Placar e Realidade ─ e achou aquela conversa estranha, pois jamais vira qualquer referência ao que ouvira ali. Confiava demais no próprio tio, mas quis ter certeza:

    – Tio, o senhor tem certeza?

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    – Claro. Pode perguntar a ele ─ respondeu o homem, convicto.

    O carro partiu com o rádio ligado numa emissora que transmitiria o jogo, locutores, comentaristas e repórteres já em completo alvoroço. E o menino seguiu mais calado do que de costume, repassando na memória duas lendárias matérias de capa da Realidade, que o pai colecionava e ele havia lido com grande interesse ─ porque adorava Pelé.

    A da edição número 1, cuja capa foi produzida na Argentina aproveitando uma visita do Santos para uma série de apresentações. Cenário montado, o repórter da Realidade Sérgio de Souza vira-se para Pelé e avisa:

    – Vai começar, crioulo, abra o sorriso!

    Diante daquele sorriso perfeito, espetacular ─ tempos sem politicamente correto nesse molde exagerado atual ─, o fotógrafo portenho bateu as primeiras trinta e seis das noventa e duas poses do ensaio sem ter colocado o filme na câmera, de tão emocionado por estar cara a cara com o mais fotografado dos brasileiros.

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    O Negão que imortalizou a camisa 10 de todos nós aparecia com um busby na cabeça, um daqueles chapéus peludos usados pelos guardas da rainha Elizabeth. A matéria traduzia nossa esperança de ganhar o tri na Copa da Inglaterra. Lançada em abril de 1966, a revista esgotou em três dias e a capa foi reproduzida semanas depois em página inteira da renomada Paris Match.

    Nosso time era ruim, Pelé foi caçado em campo por búlgaros e portugueses e nós sumimos em campo sem ele e com um Garrincha em indisfarçável decadência. Chegamos lá como favoritos e voltamos para casa mais cedo.

    A da edição 58 trazia uma previsão de como seria Pelé aos 50 anos, grisalho, de bigode e com uma bola de futebol em cada mão. Na direita a famosa Carijó da Copa de 1970 ─ a primeira bola a ganhar um nome de batismo para uma copa e denominada oficialmente Telstar, para homenagear o satélite que permitiu a transmissão dos jogos do México para a Europa. Na esquerda uma pelota anônima recoberta de cédulas prevendo sua fortuna.

    Pai e filho chegaram antes da uma da tarde às cercanias do pequeno estádio já animado pelo fluxo de torcedores, verão inclemente, o sol a pino. Enfrentaram a fila que saracoteava ligeira diante dos portões e em poucos minutos estavam acomodados atrás do gol, naquelas velhas cadeiras de ferro e flandre usadas nos bares (com marcas de cervejas no espaldar), traseiros pegando fogo pela quentura do sol acumulada no metal. Sem contar a visão tracejada pelo emaranhado da rede branca, alvíssima, que veriam balançar mais tarde. Desconfortos ínfimos ante a possibilidade de reverenciar o maior jogador de futebol de todos os tempos, o rei Pelé.

    Mais uma hora e pouco e a delegação do Santos chegou. Alvoroço no estádio quase cheio, pois os jogadores desceram do ônibus, entraram pelo portão de serviço na rua dos fundos e cruzaram todo o campo. Passaram ao lado de pai e filho, o menino mesmerizado com a imagem do rei caminhando a poucos passos dele.

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    O pai, que frequentava o mundo do futebol local, conseguiu acesso ao ambiente dos vestiários. Diante do titã negro, o menino não perdeu tempo:

    – Pelé, você conhece tio Tota?

    O Negão, famoso pela forma carinhosa com que tratava qualquer fã, ainda mais as crianças, olhou aflito para o pai também aflito e, em resmungos disfarçados, perguntou baixinho a quem estava ao redor se Tota era algum jogador local.

    Diante do aperreio e da negativa do pai do menino por meneio de cabeça, e do silêncio sepulcral que se instalou, o rei, desarmado por esse zagueiro imaginário invencível, ficou na marca do pênalti, parado naquela sua paradinha famosa. E como a resposta não saía, o menino, irritadíssimo, deu as costas e não deixou barato, foi saindo aos resmungos:

    – Ah, você nem lembra de tio Tota!

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    Ali, o rei Pelé, acostumado a receber afago de reis, rainhas e maracatus de toda espécie, perdeu cetro e coroa no reino do futebol daquele menino decepcionado com seu ídolo. Ora, afinal era o velho e bom tio Tota. Como é que aquele sujeito não lembrou dele?

    Até o meteórico Deodato Dantas, velho e folclórico fotógrafo sempre vestido em conjuntos cinzas ou azuis de mescla Renaux, que apesar da idade dava piques descomunais para não perder nenhum flagrante e agitava a torcida com suas correrias, sequer conseguiu apontar a câmera! O menino já estava longe e não quis saber de autógrafo ou foto de recordação.

    O jogo encantou a torcida e o time local abriu o placar. A dez minutos do fim do primeiro tempo, Amorim estufou a rede na cara do menino e do seu pai, ambos emburrados com a cena do vestiário ─ cada qual com seu motivo. Mas festejaram. Nove minutos depois, o espetacular Edu balançou a rede do outro lado do campo e empatou o jogo. O menino desviou o olhar para a lateral quando Pelé passou a caminho do vestiário. E repetiu o gesto de desprezo quando as equipes retornaram para o segundo tempo.

    Por azar, na troca de campo, o menino teve de conviver um segundo tempo inteiro com o Negão sempre rondando o gol diante do seu nariz. Foi difícil evitar cruzar o olhar. Foi difícil não se encantar com aquele jeito único de jogar bola. Foi difícil conviver com o perigo iminente de gol naqueles quarenta e cinco minutos finais, como se aquela trave estivesse sub judice, à mercê de uma sentença do rei.

    E ela veio. O juiz deu um minuto de acréscimo, o suficiente para o Negão balançar a rede do time do menino e do pai, a bola tirando fino nas ventas dos dois depois de vencer o goleiro. O Santos venceu o jogo, 2×1. Resultado suficiente para aumentar o mau humor dos dois. A bandeirola com escudo do time local ficou esquecida no gramado, debaixo das cadeiras especiais de ferro e flandre. Quem lembra se havia alguma logomarca de cerveja?

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    Em casa, o pai quis saber do menino que diabo de história era aquela. O moleque contou em detalhes.

    – Tá indo pra onde, meu filho?

    – Ver o jogo do América com o Santos. Pelé vai jogar!

    – Se você encontrar o Negão, diga que mandei um abraço pra ele.

    – E você conhece Pelé, tio Tota?

    – Claro! Fui eu que ensinei ele a jogar bola. No colégio. Ele nem levava muito jeito, mas insisti e ele terminou aprendendo.

    – Onde foi isso?

    – Em Caicó. A gente chamava ele de Charuto. Mas não chame de Charuto, pois ele não gosta, não.

    Pelé experimentou, provavelmente pela primeira e única vez, o desinteresse de um menino que conseguiu a proeza de estar ao seu lado num ambiente puro do futebol. O pai e Deodato já foram embora daqui. O filho é homem de meia-idade especialista em fazer amigos e scotch. Pelé nem deve lembrar da “ingratidão” com quem lhe ensinou o ofício. E tio Tota segue tirando onda com a cara alheia. É da sua natureza.

    Dedicado a:

    Zé Marinho Lopes, o pai.

    Jenner Marinho, o filho.

    Antônio Lopes, tio Tota.

    Deodato Dantas, o veloz.

    Pelé, o deus da bola.

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