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Roberto Pompeu de Toledo: Vida que segue

Publicado na versão impressa de VEJA ROBERTO POMPEU DE TOLEDO Uma singela cartinha, estampada no jornal Folha de S.Paulo, na coluna de Mônica Bergamo, do último dia 7, começava assim: “Senhor vice-presidente, Com os meus cordiais cumprimentos, dirijo-me a Vossa Excelência para encaminhar as seguintes indicações para cargos de diretorias na Companhia Docas do Estado […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 00h39 - Publicado em 23 ago 2015, 10h55

Publicado na versão impressa de VEJA

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Uma singela cartinha, estampada no jornal Folha de S.Paulo, na coluna de Mônica Bergamo, do último dia 7, começava assim:

“Senhor vice-presidente,

Com os meus cordiais cumprimentos, dirijo-me a Vossa Excelência para encaminhar as seguintes indicações para cargos de diretorias na Companhia Docas do Estado de São Paulo ─ Codesp”.

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Quem assinava a carta, dirigida ao vice-presidente Michel Temer, era o deputado Beto Mansur (PRB-SP), primeiro-secretário da Câmara dos Deputados. Seguiam-se os nomes de três indicados, respectivamente para as diretorias Comercial e de Negócios, de Infraestrutura e Obras e de Planejamento e de Assuntos Estratégicos, cada um deles diligentemente acompanhado dos nomes de quem o indicou. O primeiro, o da diretoria Comercial e de Negócios, era indicação do deputado Ricardo Izar (PSD-SP) e do próprio Beto Mansur; o segundo, dos deputados Milton Monti (PR-SP) e Nelson Marquezelli (PTB-SP); o terceiro, dos deputados Marcelo Squassoni (PRB-SP) e Baleia Rossi (PMDB-SP). Em suas escassas 22 linhas, a carta tinha o efeito de enfim trazer um segredo à tona.

Ora, direis, então não sabias que era assim? Seria necessário ter passado as últimas décadas em outra galáxia para ignorar que cargos no governo são leiloados, e que o vice-presidente Michel Temer, hoje na pele de “articulador político”, tem função equivalente à de leiloeiro oficial. E eu vos direi no entanto que uma coisa é estar cansado de saber que os hipopótamos existem, e outra é deparar com um exemplar em carne e osso. A carta do deputado Beto Mansur era como o hipopótamo que enfim se expunha por inteiro para fora do pântano. Não é qualquer dia que isso ocorre. Frequentadores de zoológicos muitas vezes têm de se contentar com não mais que uma narina a emergir da água. A carta do deputado é um tesouro do qual se extraem duas lições para os dias que correm.

No mesmo dia em que a carta era estampada na coluna de Mônica Bergamo, o site do jornal O Estado de S. Paulo apresentava uma entrevista com o deputado Baleia Rossi, um dos que figuram como indicadores do candidato a diretor de Planejamento e de Assuntos Estratégicos da Codesp. Rossi, que é presidente da seção paulista do PMDB, afirmava, sobre a atual crise: “É preciso que haja alguma reação por parte do governo, e o PMDB fez sugestão clara de redução de ministérios, que viria com corte de 38 para vinte”. O comum das pessoas, indagadas sobre o que vale mais, se um ministério ou uma boca na estatal que gere as docas de Santos, responderia que é um ministério. O deputado Baleia Rossi fazia a opção contrária. Ministérios ele descartava aos montes, enquanto defendia a boca na estatal.

Daí se extrai a primeira lição: recomenda-se cautela com a conversa de redução de ministérios. Reduzir ministros é bom sem dúvida para fins de mais facilmente decorar seus nomes, harmonizar suas posições e conseguir alojá-los todos numa mesma mesa. Mas o mal que corrói as vísceras da política e da administração pública brasileira está mais embaixo, na massa de 23 000 cargos federais de livre nomeação. Cortar ministérios sem avançar sobre eles, atacando-os aos milhares, profissionalizando-os ou extinguindo-os, equivalerá a fazer uma operação plástica num organismo que exige intervenção nos órgãos vitais.

A segunda lição é: recomenda-se cautela com as expectativas geradas pela Operação Lava-Jato. Crimes vêm sendo denunciados e seus autores punidos, mas os motores que permitiram aos governos do PT levar a corrupção a inéditas alturas continuam em funcionamento. Os cargos seguem abertos à traficância. Campanhas alimentadas por somas escabrosas continuam garantidas, e até, a depender da Câmara de Eduardo Cunha, reforçadas, com a elevação a preceito constitucional da permissão da contribuição empresarial aos partidos. Re­ve­lam-se vãos tanto o exemplo do tráfico de cargos na Petrobras quanto o ensinamento de que contribuições de campanha são empréstimos, a ser cobrados com juros (apud Paulo Roberto Costa).

Da derrubada de Collor pensou-se que surgiria um país mais decente. Idem do escândalo dos Anões do Orçamento e idem do mensalão. A cada uma de tais monstruosas roubalheiras, no entanto, seguiu-se uma maior. Em pleno julgamento do mensalão, aprimorava-se o petrolão. Agora, em pleno curso da Operação Lava-Jato, prossegue o mercado dos cargos. Semeia-se o terreno para o próximo escândalo.

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