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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Roberto Pompeu de Toledo: A desoras, desfeliz

Publicado na edição impressa de VEJA ROBERTO POMPEU DE TOLEDO Encenou-se no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no feriado de 21 de abril, em forma de peça teatral, uma celebração chamada “desenforcamento de Tiradentes”. Com advogado, promotor e júri popular, refez-se o julgamento do herói da Inconfidência Mineira, tudo mais ou menos conforme […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 01h29 - Publicado em 3 Maio 2015, 19h23

Publicado na edição impressa de VEJA

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Encenou-se no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no feriado de 21 de abril, em forma de peça teatral, uma celebração chamada “desenforcamento de Tiradentes”. Com advogado, promotor e júri popular, refez-se o julgamento do herói da Inconfidência Mineira, tudo mais ou menos conforme o que registram os autos de dois séculos atrás, mas com resultado inverso: no final o réu é inocentado. Ou seja, desenforcado. O melhor de tudo foi o título. “Desenforcamento” entra para o rol de mágicas palavras que o des inicial permite criar, invertendo significados e instituindo um mundo às avessas.

Em Apesar de Você, sua música contra a ditadura, Chico Buarque pediu: “Você, que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar”. Talvez já se invocasse o “desinventar” antes; depois, invocou-se mais ainda. Até foi acolhido no dicionário digital Aulete, que lhe dá o significado de “retroceder, retroagir na ação de inventar”, e oferece como exemplo um trecho do poeta Manoel de Barros: “É preciso desinventar os objetos. O pente, por exemplo. É preciso dar ao pente a função de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia”.

Numa de suas malucas aventuras no País das Maravilhas, Alice comemora seu unbirthday, como escreveu o autor do livro, o inglês Lewis Carroll. Unbirthday foi traduzida em português para “desaniversário”, bela palavra para significar um belíssimo não evento. E, por falar em belo, a escritora Ana Miranda deu o título de Desmundo ao romance em que narra a sina de uma órfã portuguesa enviada à força ao Brasil da época do Descobrimento para servir de esposa a um dos desbravadores da terra. “Desmundo” é mais que fim do mundo; é o mundo ao avesso.

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É o que aguarda, no romance, a inocente Oribela. Há bons exemplos mais antigos. No livro Roteiro de Macunaíma, de 1950, o crítico M. Cavalcanti Proença escreveu que o personagem de Mário de Andrade resumia as “desvirtudes nacionais”. O próprio Mário de Andrade engendrou por sua vez outro oportuno des ao lamentar, num poema (Louvação da Tarde), a “pátria tão despatriada”.

Desvirtudes nacionais e despatriamentos da pátria continuam em cartaz, 87 anos depois da publicação de Macunaíma e setenta depois da morte de Mário de Andrade, completados neste ano, mas não é disso que se trata aqui – por que raios, ó insistente leitor, o colunista teria sempre de afundar no mar de nossas misérias públicas? Refugiemo-nos nas palavras. O tema de hoje são as que portam o prefixo des, começando com as inventadas mas não se esgotando nelas. O exímio criador/recolhedor de palavras que foi Guimarães Rosa espalhou por suas obras, entre muitas outras, “desamigo”, “desendoidecer”, “desdormido”, “desexistir”, “destriste”, “desfeliz”, “desviver”, “desfalar”.

No precioso livro O Léxico de Guimarães Rosa, da professora Nice Sant’Anna Martins, registram-se exatas 230 palavras com des, sinal de que o des é uma tentação irresistível para quem gosta de brincar com as possibilidades do idioma. Até “desmim” Guimarães Rosa inventou. “Querer mil gritar, e não pude, desmim de mim mesmo, me tonteava, numas ânsias”, diz Riobaldo, no Grande Sertão: Veredas.

O des traz em si a atração anarquista de pôr o mundo de cabeça para baixo. Mesmo as palavras em des perfeitamente acomodadas à língua, e acolhidas nos dicionários há muitos anos, nos chegam com novo viço quando nos detemos a examiná-las. A uma família melancólica pertencem “desamor”, “desventura”, “desencanto” e a fatal “desespero”, ao inverter o alto significado moral de “amor”, “ventura”, “encanto” e “esperança”. “Desassossego” vai no mesmo caminho.

“Desentendimento” é mais bruta; é eufemismo para briga. Ao contrário, de alto valor moral são “destemor” e “desassombro” ao opor-se ao temor e ao assombro. “Desatino” é humilhante; é perder o tino. “Desoras” só pode ter sido criada por um surrealista. Usa-se no sentido de “altas horas”, mas na pura raiz etimológica significa estar fora das horas – como assim, fora das horas? “Desasnar” é o inspirado sinônimo de aprender pela via de deixar de ser asno.

Uma ida ao dicionário, onde dormem as palavras em estado de inocência, revela maravilhas. O leitor não deve saber, como o colunista não sabia, que existe a palavra “desnamorar”, assim como “desnamorado”. A difícil arte do dicionarista revela-se em seu melhor na definição de “namorar” do Houaiss: “terem duas pessoas relacionamento amoroso em que a aproximação física e psíquica, fundada numa atração recíproca, aspira à continuidade”. Descontinuada tal relação, fica-se com a desconsolada figura do desnamorado, que se imagina desamparado, a desoras, desnorteado e desterrado de si mesmo, desfeliz.

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