Ricardo Arcon: Diretas já!? Quem sabe espera a hora
Não tenho simpatias por emendas à Constituição. De 1992 para cá, já foram 95
Democrata que sou, acho mui bacana votar para presidente (exceto em domingos de sol e quando estou de ressaca). Mas, com todo o respeito, o atual movimento pelas “diretas já” não é para mim, não. As razões são múltiplas. Para começo de conversa, não tenho simpatia por emendas à Constituição. Dada a razoabilidade da Carta brasileira ─ e o costumeiro oportunismo da classe política ─, parece-me alto demais o risco de a emenda sair pior que o soneto. Sempre que surge o papo de mexer na “Lei Suprema”, urge estar com os olhos mais abertos que Alex DeLarge naquela aflitiva cena de Laranja Mecânica. As chances de por trás de “boas intenções” estarem desejos casuísticos de gosto duvidoso, para dizer o mínimo, não são poucas.
Não me deixam mentir a emenda constitucional nº 21 (de março de 1999), que permitiu a prorrogação do imposto do cheque e elevou sua alíquota, e a nº 16 (de junho de 1997), que tornou possível a reeleição de presidentes da República, governadores e prefeitos. Ainda que se trate de países e constituições bastante diferentes, é sintomático que a do Brasil, de 1992 para cá, tenha sido emendada 95 vezes, enquanto a dos Estados Unidos, promulgada há 230 anos, some apenas 27 alterações. Depois, penso no bolso do Estado brasileiro, já tão esvaziado. Como bem lembrou Hélio Schwartsman em sua coluna na Folha de S.Paulo, “só a parte operacional de uma eleição nacional sai por cerca de 500 milhões de reais.
Se somarmos a isso o ressarcimento às rádios e TVs pelo horário eleitoral e a verba que seria preciso repassar aos partidos para a campanha, chegamos fácil à casa dos bilhões. Talvez seja muito dinheiro para escolher um presidente que ficará pouco tempo no cargo”. Vale perguntar em voz alta: 1) Por quanto tempo o novo mandatário ocuparia o posto?; 2) Precisamos de mais um presidente tampão? Tudo isso, embora importante, fica em segundo plano. O fundamental decorre da seguinte questão: quem colocar no lugar daquele que, sim, já deveria ter pegado seu banquinho e saído de fininho, o excelentíssimo Michel Miguel Elias Temer Lulia (sic)?
Os nomes de maior relevo da política nacional, quase todos, estão à espera de um milagre que faça escafeder-se, a um só tempo, a operação Lava Jato e a memória do povo. Pior ─ ou melhor, a depender do ponto de vista: ao que tudo indica, a Lava-Jato está longe do fim. Há ainda muito a investigar. Uma alcateia de ladrões está à solta, suspeito. Espera-se um sem-número de condenações. A do ex-presidente Lula ─ e aqui não se expressa torcida ─ pode sair. Afinal, é um penta-réu. Daí me ocorre um pensamento com o qual, juro, não pretendo ofender nem provocar ninguém. As pesquisas de intenção de voto mostram que o petista poderia vencer a corrida à Presidência. Ou seja, havendo disputa, ele estando no páreo
“Lula lá” tem tudo para de slogan novamente virar indicação de localidade ─ Palácio do Planalto. Corta para os manifestantes/artistas que a plenos pulmões andam gritando “Fora Temer!” e “Ão, ão, ão, queremos eleição!”. Parte deles são fãs incondicionais do ex-presidente. Não há reflexão possível sob a bandeira do fanatismo. Seria necessário um ensaio sobre a cegueira. Sigamos, pois. Outra parte é de gente que, de modo sincero ou não, garante que os protestos pelas “diretas já” são supra ou apartidários e não canalizam necessariamente o desejo pela volta de Luiz Inácio. Pode ser.
As duas partes, contudo, estão cientes de que uma eleição presidencial ─ cuja periodicidade, aliás, é cláusula pétrea ─ direta, para agora, pode mais do que a qualquer outra figura servir a um penta-réu sobre o qual, se não reprovação, deveria pairar ao menos. desconfiança. Diretas já! Em 2018.





