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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Palavras de guerra e Brasil em armas

As armas atuais são outras e vocês, prezados leitores, podem estar manejando uma neste exato momento

Por Deonísio da Silva 12 Maio 2019, 11h44

Deonísio da Silva

Ontem, dia 11, Rubem Fonseca fez 94 anos. Dedico esta coluna a meu querido amigo de tantos anos, que ainda na década de 70 mostrou num livro proibido que os bandidos tinham feito a sociedade brasileira refém de seus atos execráveis. Hoje, em muitas das grandes e médias cidades, os reféns não são mais apenas aqueles que festejavam o réveillon numa mansão. Somos todos nós. Menos eles, é claro.

O Brasil vive tempos de guerra. O “mouse”, uma das armas mais letais, ainda não foi aportuguesado, mas a máuser já.

Tudo porque os irmãos Mauser deram seu sobrenome alemão ao rifle e à pistola, mas os americanos Bill English e Douglas Engelbart, os inventores do “mouse”, chamaram de camundongo o dispositivo que movimenta o cursor nos computadores.

O rato já estava na palavra músculo, do Latim “musculus”, rato pequeno. Os antigos gregos e romanos comparavam o movimento dos músculos da perna ou do braço a um rato circulando por ali, e os cardiologistas, aliás, levaram-no também para perto do coração, o músculo cardíaco.

O reino das palavras está repleto destas curiosidades. Camundongo, que popularmente é também chamado de rato, veio do Quimbundo “kamundongo”, que nessa língua africana designa o morador das cidades, o habitante civilizado, de acordo com interessante reflexão de Nei Lopes, estudioso das culturas africanas, além de cantor e compositor. Provavelmente mesclou-se ao Umbundo “okamundongo”, e a sílaba inicial transformou-se em artigo definido no Português.

Ratos e homens habitam juntos as cidades há muitos séculos. Já há mais ratos do que homens no mundo, e bem antes do escritor americano John Steinbeck comparar ratos a pessoas em seu famoso romance Ratos e Homens, trágica história de dois trabalhadores rurais ele os chama George e Lennie durante a a Grande Depressão de 1929-1939, nos EUA, que só terminaria com a Segunda Guerra Mundial.

O título deve-se a um ratinho morto que um dos personagens leva no bolso quando estão a caminho de um novo emprego em outra fazenda. Steinbeck gostava muito de ler poemas, e o título do romance lhe foi inspirado por estes versos do poeta escocês Robert Burns: “Os projetos mais bem elaborados, de homens ou de ratos, fracassam com muita frequência e, em vez das boas promessas, nos dão apenas tristeza e sofrimento”.

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De seu lado, o cursor sempre foi quem corre seja o rio em seu leito, seja o aluno em seu curso e na antiga Roma designava o escravo que seguia a pé o carro de seu senhor, como, aliás, fazem hoje os guardas do carro presidencial nos EUA.

Na semana passada, falamos pouco da Segunda Guerra Mundial e deste memorável 74º aniversário de seu fim, ocorrido em 7 de maio de 1945, em Berlim, às 23h01, quando já era dia 8 em Moscou, que fica mais ao leste. Afinal, foram os russos que tomaram o Reischtag alemão.

Demoramos mais a comentar o longo decreto Nº 9.785, do presidente Jair Bolsonaro, de 67 artigos, mas, como usualmente se faz, reduzido a uma única interpretação imposta a todos por poucos, segundo os quais, agora, o brasileiro está autorizado a matar, nas ruas, em casa, onde quiser. Coube a alguém esclarecer: quem ficou apreensivo foram aqueles que estão acostumados a matar desarmados… que agora podem estar armados.

Genocídio e holocausto. Estas palavras foram referências solares da penúltima guerra mundial, cujo fim voltamos a celebrar na semana passada. Albert Einstein, o maior cientista do nosso tempo, disse não saber como será a terceira guerra mundial, mas a quarta será com paus e pedras, de novo, como no princípio.

Quem inventou a palavra genocídio, em 1944, um ano antes de terminar a Segunda Guerra, foi o advogado polonês Raphael Lemkin, filho de uma linguista e professora, mas ele o fez para designar o massacre dos armênios pelos turcos otomanos na Primeira Guerra, quando foram exterminados 1.800.000 armênios.

Ele recorreu ao composto greco-latino (“génos”, em grego; “genus”, em latim), étimo que está em gente e também em gênio, indígena, gendarme, patogênico, colágeno, genitora (substantivo cafona de mãe na linguagem policial antiga), e a “cídio”, vindo do verbo latino “caedere”, matar, nosso velho conhecido de homicídio, feminicídio, suicídio, fratricídio, matricídio etc.

Holocausto estava nos dicionários desde que a Bíblia foi traduzida do Hebraico para o Grego e os estudiosos adaptaram a expressão hebraica “korbán olá”, vítima queimada, constante dos sacrifícios de animais realizados pelos sacerdotes no templo, para o Grego “holókaustos”, de “holos”, inteiro, e “kaustos”, queimado, de onde chegou ao Latim “holocaustum”, na tradução da Vulgata, a bíblia para ser divulgada. Vulgar e divulgar têm o mesmo étimo: levar aos vulgos, aos simples, aos vulgares.

De todo modo, as armas atuais são outras e vocês, prezados leitores, podem estar manejando uma neste exato momento, ao ler esta coluna.

*Deonísio da Silva
Diretor do Instituto da Palavra & Professor
Titular Visitante da Universidade Estácio de Sá
http://portal.estacio.br/instituto-da-palavra

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