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Os melhores amigos dos cegos

Branca Nunes Em 1985, aos 5 anos, Jucilene Braga perdeu a visão depois de um incidente com uma arma de chumbinho disparada por um amigo. Nas duas décadas seguintes, consultou dúzias de médicos, submeteu-se a sucessivas cirurgias, reaprendeu a enxergar na escuridão e adaptou-se, na medida do possível, ao uso da bengala. Até que Charlie […]

Por Augusto Nunes
Atualizado em 31 jul 2020, 13h01 - Publicado em 28 jan 2011, 13h26

Jucilene Braga, deficiente visual, caminha com seu cão guia na Avenida Paulista, São Paulo 20/01/2011 (Breno Rotatori)

Branca Nunes

Em 1985, aos 5 anos, Jucilene Braga perdeu a visão depois de um incidente com uma arma de chumbinho disparada por um amigo. Nas duas décadas seguintes, consultou dúzias de médicos, submeteu-se a sucessivas cirurgias, reaprendeu a enxergar na escuridão e adaptou-se, na medida do possível, ao uso da bengala. Até que Charlie chegou: vindo dos Estados Unidos, ele trouxe os olhos que faltavam.

Charlie é um cão-guia, sonho de consumo de oito em cada 10 cegos. Se no mundo os integrantes dessa linhagem não são tão numerosos quanto desejariam os deficientes visuais, no Brasil são artigos de altíssimo luxo. Não pelo preço – já que os cães guia são doados gratuitamente –, mas pela escassez. Estima-se que sejam 70. Isso é quase nada num país que, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, tem 1,4 milhão de cegos e 4 milhões de pessoas com problemas sérios de visão.

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Guiando o cão e guiada por ele, Jucilene sai todos os dias da Zona Leste de São Paulo, onde mora, embarca na estação Carrão do metrô, faz a baldeação na Sé e desembarca na estação São Joaquim, caminha algumas quadras e chega ao trabalho na sede da Unimed da Rua Tamandaré. Também frequenta a academia de ginástica, encontra os amigos, vai ao teatro, bares e restaurantes. “É como se eu enxergasse”, explica.

Jucilene e Charlie foram apresentados um ao outro há três anos, nos Estados Unidos, num encontro patrocinado pelo Projeto Íris, de São Paulo. Foram 30 dias até se transformarem em um time – expressão aplicada à dupla composta pelo cachorro e pelo deficiente visual. É a última etapa de um treinamento que começa antes mesmo do nascimento dos filhotes.

O passo inicial é a escolha da raça. Charlie é um golden retriver. Labradores e pastores alemães também dão ótimos cães guia, mas o último é menos utilizado, por intimidar algumas pessoas. A triagem inicial acontece nos primeiros 45 dias de vida. Depois de observarem a ninhada, os treinadores selecionam os filhotes que têm porte, resistência e temperamento adequados para enfrentarem a etapa seguinte, dedicada à socialização.

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Jucilene Braga, em frente ao Masp

Na melhor das hipóteses, 70% dos cães que começam o treinamento conseguirão tornar-se um profissional. Os demais serão deslocados para outras funções por não apresentarem algumas aptidões imprescindíveis: inteligência, serenidade, vontade de aprender, capacidade de concentrar-se por períodos longos de tempo, atenção a toques e sons, boa memória e excelente saúde.

Durante 18 meses, os cães guia são criados por uma família socializadora – grupo de voluntários que se dispõem a abrigar o animal, ensinar-lhe as noções básicas de obediência e, principalmente, expô-lo ao maior número de experiências possíveis. Provido dos mesmos direitos que um cão-guia formado, o aprendiz pode entrar em shoppings e supermercados, acompanhar o dono ao local de trabalho, usar o sistema de transporte público e viajar a bordo de aviões, entre outras regalias.

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Encerrado esse período é hora de voltar à escola para o início do treinamento que diferenciará para sempre o cão-guia de um cão doméstico comum. O ensinamento inclui, por exemplo, aprender a andar em linha reta, ignorar atrativos como odores, outros animais e pessoas, parar nas esquinas, reconhecer e driblar obstáculos, manter o passo à esquerda e ligeiramente à frente do acompanhante, virar à esquerda e à direita quando ordenado, levar o acompanhante aos botões do elevador e ajudá-lo a subir e a movimentar-se em ônibus e no metrô.

Os cães-guia no Brasil

Para conseguir o que os treinadores chamam de “um casamento perfeito”, Jucilene viajou para os Estados Unidos numa das quatro excursões organizadas especialmente com essa finalidade pelo Projeto Íris. Fundado em 2002 pela advogada Thays Martinez, que perdeu a visão aos 4 anos, o Íris leva deficientes visuais para fazerem o treinamento nos EUA e voltarem para o Brasil com um cão-guia do lado. Outro projeto, o Integra, do Distrito Federal, conseguiu treinar alguns cães antes de naufragar com o governo de José Roberto Arruda. Sua mulher, a ex-primeira-dama Flávia Peres Arruda, comandava a instituição que trabalhava com o Corpo de Bombeiros da capital.

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A única escola de cães-guia do Brasil é a Helen Keller, em Camboriú (SC), fundada em julho de 2000 por Augusto Luiz Gonzaga, e reaberta em 2008 por João Diel depois de ter passado dois anos com as portas fechadas. Embora precise formar mais seis duplas de cães e deficientes visuais para obter o reconhecimento pela Federação Internacional de Escolas de Cães-Guias, a Helen Keller é aprova veemente de que é possível melhorar – e muito – a vida dos cegos brasileiros.

Fabiano Pereira, durante o curso de formação de instrutores de cães-guia

O principal problema é a escassez de recursos. Formar um cão guia custa, em média, 30 mil reais e nem um centavo sai do bolso dos deficientes visuais.Tudo é bancado por doações de empresários e da sociedade civil. Nos últimos dois anos, três cães foram entregues a deficientes visuais. Dez estão na fase de treinamento. “Todos os dias alguém liga perguntando como faz para conseguir um cão-guia”, conta Diel, também presidente da Helen Keller.

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A chave do sucesso da escola é o instrutor Fabiano Pereira, um dos três treinadores profissionais de cão-guia do Brasil. Tanto Fabiano quanto Moisés Vieira Júnior e Lester Chraim se formaram no exterior, num curso que dura até 48 meses, com o patrocínio da Helen Keller.

Os instrutores brasileiros

Há anos em busca de um cão guia para o filho Elias Ribeiro, o Figue, João Diel teve o apoio financeiro da Helen Keller para subvencionar a ida de Fabiano para a Austrália. Na volta, além do diploma de instrutor, ele trouxe de presente a Winter, uma golden retriver. “Com a bengala eu demorava cerca de uma hora e meia para ir até a padaria”, lembra Figue. “Eu e a Winter chegamos em no máximo 10 minutos. Foi o fim de uma espera de uma vida inteira”. Figue é instrutor de yoga, lutador de jiu-jitsu, surfista, alpinista e cego. Desde os 16 anos.

Fabiano Pereira, Elias Ribeiro e Winter

Fabiano está até hoje na Helen Keller. Moisés, o mais qualificado dos instrutores brasileiros, com 15 anos de experiência – oito deles vividos na Nova Zelândia – trabalhava no Projeto Íris até seis meses atrás. Teve de colocar a profissão de lado “para não morrer de fome”, brinca, tentando camuflar a tristeza. Lester transferiu-se para o exterior. Preferiu ganhar dinheiro fazendo o que ama, mesmo longe da pátria. “Com pouco mais de 4 milhões de habitantes, a Nova Zelândia tem 250 cães-guia”, compara Moisés. “Quando atingirmos esse número, mesmo com 186 milhões de pessoas a mais, será uma festa”.

Cada instrutor consegue formar quatro cães guia por ano. Se Moisés e Lester estivessem por aqui, a cada 12 meses a vida de 12 cegos mudaria para melhor. Mais: os três poderiam potencializar esses números com a formação de novos treinadores. Com as escolas e os profissionais especializados esquecidos pelo governo federal e amparados em doações sempre insuficientes das empresas privadas, os deficientes visuais brasileiros continuarão a engrossar a fila interminável dos que sonham com a chegada de um cão-guia.

https://veja.abril.com.br/complementos-materias/cao-guia/galeria.html

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