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Augusto Nunes

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O outono da procissão de espantos

PUBLICADO EM 21 DE JUNHO DE 2009 Seria um outono extraordinário, pressentiram os brasileiros quando  a chuva de atos secretos e parentes pedintes começou a cair e o maranhense José Sarney, presidente do Senado e ficcionista imortal, tirou do bolso do jaquetão um vivente chamado Epitácio Cafeteira. Era o mais velho dos senadores, e continuaria a […]

Por Augusto Nunes 21 jun 2009, 19h21 | Atualizado em 31 jul 2020, 17h24
O outono da procissão de espantos Priorize VEJA no Google

PUBLICADO EM 21 DE JUNHO DE 2009

Seria um outono extraordinário, pressentiram os brasileiros quando  a chuva de atos secretos e parentes pedintes começou a cair e o maranhense José Sarney, presidente do Senado e ficcionista imortal, tirou do bolso do jaquetão um vivente chamado Epitácio Cafeteira. Era o mais velho dos senadores, e continuaria a sê-lo até o fim dos tempos, porque o donatário da capitania hereditária do Maranhão lhe estendera a graça de jamais morrer em troca da garantia de emprego e vida mansa para o neto do chefe, as sobrinhas da mulher do chefe, as agregadas do genro do chefe, o irmão menos esperto do chefe, a candidata a miss que o filho do chefe emprenhou e quem mais o chefe mandasse.

Seria um outono assombroso, certificaram-se os brasileiros quando apareceu na procissão de espantos um certo Amaury de Jesus Machado, 51 anos, que em 2003 passou a ganhar do Senado R$ 12 mil por mês, somados salários, gratificações e penduricalhos de praxe, para fingir que era motorista a serviço dos pais da pátria enquanto trabalhava como mordomo na casa de Roseana Sarney em Brasília.

A filha era mais criativa que o pai, descobriu o Brasil ao saber que Amaury de Jesus tinha o apelido de Secreta, o que obrigou o senador que jurava nunca ter visto um ato secreto a admitir que pelo menos esse Secreta não só conhecia faz tempo como vivia encontrando. Como não topar com frequência com o servidor da nação que, além de general dos serviçais da mansão no Lago Sul,  conquistou ainda moço a patente de cabo eleitoral da família? Como fazer de conta que nunca vira o homem que tinha acabado de completar 10 dias de vigília no hospital em São Paulo, ao lado do leito da patroa que convalescia da operação para assumir o governo do Estado? Os dois sempre foram muito ligados, ele era afilhado dela, explicou Roseana.

E enfim o Brasil entendeu por que o presidente da República tinha avisado que José Sarney deve ser tratado como uma pessoa incomum. Não pode ser gente como a gente o pai de uma filha que com 6 anos, idade em que todas as crianças comuns são afilhadas,  já era madrinha e guardava na cabeça o presente para o protegido. Ele seria o motorista mais bem pago da história do Maranhão. Mas pago com o dinheiro dos brasileiros comuns.

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