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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O custo da alfabetização

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA Fernando Reinach A leitura e a escrita são invenções recentes na história do Homo sapiens. Faz menos de 7 mil anos que a escrita foi inventada. Parece muito, mas 7 mil anos é nada do ponto de vista evolutivo. Significa que provavelmente a atividade de ler e escrever utiliza […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 13h13 - Publicado em 6 jan 2011, 14h12

TEXTO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

Fernando Reinach

A leitura e a escrita são invenções recentes na história do Homo sapiens. Faz menos de 7 mil anos que a escrita foi inventada. Parece muito, mas 7 mil anos é nada do ponto de vista evolutivo. Significa que provavelmente a atividade de ler e escrever utiliza habilidades que já existiam em nosso cérebro muito antes de a inventarmos. O mesmo ocorre com o ato de tocar piano, uma atividade relativamente recente, mas que somos capazes de aprender porque, muito antes de o primeiro piano ser construído, nosso cérebro já era capaz de controlar com precisão o movimento dos dedos e integrar esse movimento com nossa capacidade auditiva.

Quando uma nova atividade utiliza parte de nossa capacidade cerebral, duas coisas podem ocorrer. A primeira é que essa nova atividade integra diversas áreas do cérebro, melhorando outras atividades. Isso foi demonstrado em ratos treinados para se localizarem em labirintos. Eles melhoram sua capacidade de orientação quando soltos em ambientes complexos. Outra possibilidade é que a nova atividade, ao desviar para uma nova função parte de nossa capacidade cerebral, prejudica outras atividades. É o que ocorre com os grandes pianistas, nos quais a área do cérebro responsável pelo controle dos dedos aumenta e invade áreas vizinhas, que controlam outros músculos.

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Um grupo de cientistas, que inclui dois brasileiros da Universidade de Brasília, resolveu estudar as consequências da alfabetização no funcionamento do cérebro. Sessenta e três pessoas, dividas em três grupos, foram estudadas: adultos analfabetos (10), que aprenderam a ler na idade adulta (22) e alfabetizados na infância (31). Cada grupo foi submetido a testes de leitura. Como esperado, os analfabetos acertaram 0% das palavras, os alfabetizados na idade adulta, entre 60 e 90%, e os alfabetizados quando crianças, mais de 95%.

Cada uma dessas 63 pessoas foi colocada em uma máquina de ressonância magnética, capaz de medir a atividade de diferentes áreas do cérebro. Enquanto estavam na máquina, os cientistas pediam que a pessoa executasse diferentes tarefas. A máquina determinava que áreas do cérebro eram ativadas durante a execução. A primeira classe de tarefas incluía responder a frases escritas. Como esperado, a imagem de perguntas escritas não causava grande ativação em nenhuma área do cérebro dos analfabetos. Nos alfabetizados, diversas áreas eram ativadas quando essas pessoas eram submetidas a perguntas escritas.

De maneira geral, o cérebro dos alfabetizados era ativado em um número maior de áreas e com mais intensidade quando elas eram submetidas a testes de reconhecimento de imagens. Quando diversos tipos de formas geométricas ou sequências de objetos foram apresentados aos voluntários, os cérebros dos alfabetizados sempre eram mais ativos que os dos analfabetos, o que sugere que o aprendizado da leitura e da escrita permite que o cérebro processe de maneira mais eficiente imagens não relacionadas à escrita. De certa forma isso era esperado, pois os mecanismos cerebrais utilizados na leitura são os mesmos que utilizamos quando processamos outros estímulos visuais.

A grande surpresa foi o resultado obtido nos testes em que se media a capacidade de distinguir faces semelhantes em fotografias. Neles, o cérebro dos analfabetos reagia de modo mais intenso e em uma área maior que o dos alfabetizados. Esse resultado sugere que a parte de nosso cérebro responsável pelo reconhecimento de faces (característica presente em diversos macacos) é em parte desviada para a atividade de reconhecimento dos caracteres escritos. Se isto for verdade, é de se esperar que pessoas analfabetas sejam capazes de distinguir melhor os detalhes visuais presentes nas faces do que pessoas que foram alfabetizadas.

Esses resultados mostram que a alfabetização, tanto de crianças quanto de adultos, melhora o rendimento de muitas atividades do cérebro. Mas a alfabetização tem um custo: a capacidade diminuída de reconhecer faces. Isso sugere que a parte do cérebro que utilizamos para ler e escrever é, em parte, aquela que nossos ancestrais utilizavam para reconhecer sentimentos expressos nas faces dos membros de sua tribo. Se hoje não reconhecemos visualmente a angústia na face de um amigo, não temos dificuldade em ler o e-mail em que ele nos conta que está angustiado.

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