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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Nilton Santos: o último capítulo da Enciclopédia do Futebol

Publicado no Globo desta quinta-feira JOÃO MÁXIMO Se é lenda, e não fato, que o grande centro-médio argentino Nestor Rossi, ao ver o companheiro Vairo desesperado com os sucessivos dribles de Garrincha, aconselhou-o a passar a mão nos pés de Nilton Santos, porque ali, naqueles pés, estava “o futebol de todos os beques do mundo”, […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 04h54 - Publicado em 28 nov 2013, 15h57

Publicado no Globo desta quinta-feira

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JOÃO MÁXIMO

Se é lenda, e não fato, que o grande centro-médio argentino Nestor Rossi, ao ver o companheiro Vairo desesperado com os sucessivos dribles de Garrincha, aconselhou-o a passar a mão nos pés de Nilton Santos, porque ali, naqueles pés, estava “o futebol de todos os beques do mundo”, fiquemos com a lenda. Pois só uma soma de virtudes — equilíbrio, elegância, reflexos, seriedade, coragem, sabedoria, tudo isso somado a uma técnica individual refinada, antecipação do estilo dos melhores zagueiros que o sucederam — explica que Nilton Santos seja, realmente, o melhor lateral-esquerdo que o Brasil já teve e o “melhor do século” em todo o mundo, segundo eleição promovida pela Fifa em 1998.

Quando ele começou, em 1948 (já com 23 anos, substituindo Sarno na linha de zagueiros do Botafogo), refinamento só era virtude do meio-de-campo para frente. Beque que se prezasse tinha de marcar como “carrapato”, como se dizia então. Ou seja, colar no atacante adversário para impedir que jogasse. Jogar, ele próprio, nunca. Beque de respeito tinha de marcar e rebater, nem que fosse para fora, de bico. E só. Se ousasse um passe de efeito, um drible dentro da área, um avanço ao campo oposto, tais ousadias eram chamadas de “domingadas”, alusão ao extraordinário Domingos da Guia, o primeiro a transgredir com brilho o manual dos zagueiros, uma geração antes da de Nilton Santos. A este, mais que seguir o mestre, coube aperfeiçoar-lhe a mestria.

Nascido na Ilha do Governador, Rio, em 16 de maio de 1925, Nilton Santos costumava atribuir grande parte do seu estilo à paixão pelo futebol descompromissado, ou mesmo anárquico, que povoou a infância de praticamente todo brasileiro, seja em forma de pelada de rua, seja nos amistosos do Flecheiras. Acreditava então que sua vocação era ser centroavante, o artilheiro, o driblador, o que gozava das maiores liberdades em campo. Mas, quando chegou ao Botafogo, foi escalado na linha média, depois na zaga e, por fim, embora destro, na lateral esquerda. Era ali que o técnico Zezé Moreira precisava de um reforço para ser campeão naquele ano, como de fato foi.

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Quem o levou para General Severiano foi o major Honório, que o conhecera como o soldado 105, servindo na Aeronáutica. O major, que tinha um tio influente no Botafogo, confiava tanto no futuro de Nílton Santos que achou por bem passar por cima dos problemas disciplinares que ele criara em seus tempos de caserna. Prestou, assim, inestimável serviço ao futebol brasileiro.

Menos de dois anos depois, já estava o lateral, agora na direita, convocado para a seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1950. O fato de ficar na reserva de Augusto convenceu-o de que o técnico Flávio Costa não gostava de seu estilo. Sequer lhe aprovava as chuteiras mais finas, mais leves, privilégio dos atacantes, dos que tinham de tratar a bola com sutilezas vetadas aos beques. Augusto era o oposto de Nílton Santos, marcador, taticamente preso à defesa, incapaz de cometer a “loucura” de sair jogando. Tão obediente que Flávio acabou fazendo dele o seu capitão.

Perdida aquela Copa, nunca mais Nílton Santos foi reserva de quem quer que fosse. Tornou-se não só o dono absoluto da posição, novamente na esquerda, como também uma espécie de modelo do moderno lateral, uma espécie de ala à frente do seu tempo. Custou um pouco a convencer alguns treinadores que pareciam concordar com Flávio Costa. Vicente Feola, por exemplo. Entrou para a história o avanço de Nílton Santos pela área austríaca adentro, na Copa do Mundo de 1958, ao som dos gritos de Feola: “Volta, Nílton, volta, seu maluco!”. O mesmo Feola que o aplaudiria quando aquele avanço terminasse em gol.

Sua carreira também pode ser medida em números, a começar pelos 729 jogos em 17 anos vestindo a camisa do Botafogo, clube a que se manteve fiel por toda a vida, a ponto de geralmente assinar em branco a renovação de seus contratos. Marcou 11 gols com aquela camisa, número expressivo para um lateral daqueles tempos. Foi campeão carioca em três ocasiões (1948, 1957 e 1961) e conquistou mais de 20 títulos regionais ou nacionais. Pela seleção brasileira, foram 82 jogos, quatro títulos, três gols, um deles o segundo contra a Áustria.

Nílton Santos disputou quatro Copas do Mundo: reserva na de 1950, titular derrotado pela Hungria nas quartas-de-final de 1954 e titular insubstituível no bicampeonato de 1958 e 1962 (ele, Gilmar, Didi e Zagallo foram os únicos a participar das 12 partidas).

Se a condição de reserva não deu para traumatizá-lo em 1950 (pelo menos não tanto quanto aos que estiveram em campo), 1954 foi dos piores momentos de sua carreira. Contra a Hungria, vencido pelos nervos, trocou pontapés com Bozsic e os dois foram expulsos de campo. Sem ser um temperamental, levava o futebol tão a sério que cada jogo significava um impressionante desgaste físico e emocional (comparava o Maracanã a uma panela de pressão, capaz de elevar temperaturas a níveis insuportáveis). A cabeça quente levou-o a agredir duas vezes o árbitro Armando Marques, uma como jogador, já em fim de carreira, quando não aceitou o dedo em riste que o juiz lhe apontava, e a segunda como dirigente do Botafogo, resultando num soco espetacular que fez Armando, desta vez sem culpa no cartório, rolar escada abaixo no vestiário dos árbitros.

Nílton Santos só teve um amor clubístico: o Botafogo. E uma admiração maior que todas: Garrincha. Foi padrinho de uma de suas muitas filhas, numa amizade só estremecida quando ele não aceitou a separação de Garrincha da primeira mulher para viver com Elza Soares. Mesmo nesse breve período de amizade abalada, o lateral do século não se cansava de dizer que muito do seu futebol enciclopédico se devia a uma bênção dos deuses: a de nunca ter como missão marcar o compadre Garrincha.

Aos 88 anos, Nilton Santos faleceu nesta quarta-feira, na Fundação Bela Lopes, em Botafogo. Ele foi internado com infecção pulmonar. Há cinco anos, ele sofria do Mal de Alzheimer.

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