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Augusto Nunes

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Deonísio da Silva: Pensando na morte da bezerra

Muitos séculos se passaram, já estamos no segundo milênio, mas ainda usamos a expressão para designar uma tristeza que foi originalmente inconfessável

Por Augusto Nunes 2 jul 2017, 11h23 • Atualizado em 4 jun 2024, 20h10
  • deonisio11
    (reprodução/Reprodução)

    No Brasil atual, há muita gente pensando na morte da bezerra. Mas a bezerra agora é outra e pode ser a prosperidade, substituída pela crise e pelo desemprego.

    Está pensando na morte da bezerra a pessoa triste, desanimada ou às vezes carrancuda. Alguma coisa lhe aconteceu para estar assim, num estado bem diferente da outra expressão “que bicho foi que te mordeu?”, uma vez que esta última descreve a pessoa agindo de uma forma bem diferente da habitual, quando o bicho ainda não tinha mordido.

    Faz tempo que a escola brasileira abandonou, em todos os níveis, o estudo destas expressões, o que é uma pena. Houve tempo em que os professores de Português e de suas literaturas explicavam estas frases feitas, como as definiu João Ribeiro, mestre em pesquisar suas origens.

    Tais frases e expressões, à semelhança dos provérbios e dos ditos populares, compõem uma lição de sabedoria. E muitas delas revelam as profundezas de nossa alma, de nosso modo de sentir e pensar, da identidade que faz do brasileiro aquilo que ele é: uma das nacionalidades mais ricas do mundo, a começar pela herança e modificação destes saberes.

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    Quem as pesquisou de maneira magistral foi o escritor e filólogo carioca João Ribeiro, também jornalista, pintor, tradutor e historiador, falecido em 1934, aos 74 anos.

    Ele diz que a expressão “morte da bezerra” foi tirada dos autos de fé. A bezerra não era o bezerro de ouro, cujo culto levou Moisés a quebrar as tábuas da lei quando descia do Monte Sinai, mas a Torá, do Hebraico Torah, como os judeus chamam o Pentateuco, do Grego penta, cinco, e têukhos, livro, os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio.

    Duramente perseguidos, torturados e mortos em Portugal, ou convertidos ao cristianismo à força (daí o substantivo cristão-novo), os judeus eram acusados e levados à fogueira, como foi o caso de Violante Mendes e seu marido, queimados vivos em 1591 por denúncia de que um filho do casal, uma criança ainda, tinha sido visto brincando com uma bezerrinha de marfim. O caminho para bezerra pode ter sido este: de torá para tourinha, ensejando a mudança de significado para bezerra.

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    Muitos séculos se passaram, já estamos no segundo milênio, mas ainda usamos a expressão para designar uma tristeza que foi originalmente inconfessável.

    Há, contudo, uma grande diferença: todos que estão pensando na morte da bezerra já podem confidenciar o que está se passando com eles para estarem tristes e acabrunhados.

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