Marcos Troyjo
Com o Relatório da Competitividade Global 2018, produzido pelo Fórum Econômico Mundial, ficamos com a certeza de que o tema industrialização tem de passar por uma inevitável atualização conceitual.
Estamos acostumados a pensar em métricas como G7, grupo das economias industrializadas; ou referir-se a alguns países em desenvolvimento como meramente produtores de bens primários.
Talvez tal forma de pensar se refira a três grandes revoluções industriais por que já passamos — aquela (primeira) associada à introdução de máquinas a vapor ao longo do século 18; a (segunda) caracterizada por organizações produtivas a partir de métodos como fordismo ou taylorismo, e a (terceira) marcada pela introdução de semicondutores e informatização nos bens finais.
Em cada uma dessas três revoluções não se desafiou com vigor o âmbito das manufaturas como referência para a divisão de setores econômicos. Daí dizer que o setor primário está formado por agricultura, mineração ou extrativismo, o secundário por manufaturas e o terceiro por serviços e comércio. Por essa divisão tradicional, o setor primário fornece matérias-primas para o setor secundário.
É justamente aqui que se localiza uma particularidade da atual fase de evolução econômica. Em vez de simplesmente uma Quarta Revolução Industrial, a presente dinâmica de modelos de negócios e inovação tecnológica nos leva a algo além da indústria. É de maior precisão chamar o movimento em curso de nova transformação econômica.
Isso se deve à constatação de que os novos parâmetros da competitividade — como aponta o estudo do Fórum Econômico Mundial — abrangem indistintamente todos os setores, e não apenas a manufatura.
Nesse contexto, termos como industrialização ou países pós-industriais ganham novo sentido. Muito da literatura sobre estratégias de crescimento esteve centrado na suposição de que a transição de sociedades que tem na agropecuária a ênfase de sua economia para o setor de manufaturas implicava tendencialmente um aumento de renda.
Tal elevação de rendas, hoje, estará menos relacionada à mera industrialização e mais ao conteúdo de valor agregado em uma ou outra atividade. Num quadro industrial em que a automação e robótica são cada vez mais onipresentes, mão de obra locada no setor industrial — se despreparada para interagir com novas ferramentas tecnológicas — experimentará desemprego ou rendas decrescentes.
Estão se desintegrando, assim, as divisões que segmentavam os diferentes setores da economia. Na agricultura, mineração, indústria ou serviços, o que interessa é o grau de valor agregado e componentes tecnológicos.
Em países como Brasil e EUA, reclama-se do fenômeno de desindustrialização. E este conceito está associado à diminuição da fatia relativa que a produção de manufaturas ocupa no âmbito geral do produto interno bruto (PIB).
Para enfrentar tal desafio, é bom ter em mente duas constatações inevitáveis. A primeira, a grande industrialização em vigor hoje no Sudeste Asiático apresenta aspectos de alta tecnologia como na China, onde em muitos setores o país lidera na introdução de robótica e inteligência artificial. A segunda, a região ainda apresenta expressiva manufatura intensiva em mão de obra barata.
Ou seja, a competição para países como Brasil e EUA, se concentrada apenas em industrialização intensiva em custos baixos do trabalho, está fadada a comer poeira de asiáticos como Vietnã, Índia, Indonésia, etc.
A grande aposta é na capacitação tecnológica dos recursos humanos — em uma palavra, no talento. Se bem treinada, mais importante que o conceito tradicional de sua utilização na indústria, é que tais profissionais poderão atuar em qualquer setor da nova economia.
Mais importante que industrialização, o desafio é preparar, não importa qual seja o setor, trabalhadores para o mindfacturing. A força-motriz da nova transformação econômica é a mentefatura.