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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A construção de uma candidata

TEXTO PUBLICADO EM 31 DE OUTUBRO NO SITE DE VEJA Marina Dias Dilma Vana Rousseff, 62 anos, economista, divorciada, mãe de uma filha e avó de um neto, ex-militante da luta armada no período negro da ditadura militar no Brasil, fez história e é, desde hoje, a primeira mulher a ocupar a Presidência em 121 […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 13h15 - Publicado em 29 dez 2010, 20h00

TEXTO PUBLICADO EM 31 DE OUTUBRO NO SITE DE VEJA

Marina Dias

Dilma Vana Rousseff, 62 anos, economista, divorciada, mãe de uma filha e avó de um neto, ex-militante da luta armada no período negro da ditadura militar no Brasil, fez história e é, desde hoje, a primeira mulher a ocupar a Presidência em 121 anos desde a deposição do imperador D. Pedro II e a proclamação da República. Antes de chegar a este domingo festivo, porém, ela teve de atravessar os 118 dias de sua primeira disputa a um cargo eletivo ─ uma agitada, pesadíssima agenda.

Os dias mais duros foram os primeiros do segundo turno. Por mais que a cúpula da campanha insistisse que nunca houvera “salto alto”, e embora Dilma jamais houvesse comentado pesquisas de intenção de voto ─ mesmo as que a mostravam bem à frente de seu adversário, o tucano José Serra ─, o PT acreditou de fato, por muito tempo, que a fatura seria liquidada no primeiro turno. O baque em 3 de outubro foi grande.

Com isso, a primeira semana de volta ao combate foi de cansaço, tensão, perplexidade. Para os jornalistas que acompanharam Dilma Rousseff durante a corrida, um dos eventos mais singulares foi o do dia 7 de outubro, em Belo Horizonte.

A comitiva chegou ao estacionamento do Mercado Central às 15h20 daquela quinta-feira. Quatro carros ─ todos pretos e modelo sedan ─ aceleravam em meio às pessoas que esperavam por Dilma. Ela saiu de um dos veículos com olhar cansado e, como de costume, ajeitou o casaqueto que usa sempre com calças compridas pretas, puxando o tecido para baixo firmemente, com as duas mãos. Cercada por seguranças, assessores e centenas de militantes, a candidata do PT à Presidência parecia carregar um grande peso nas costas. Ela já havia percorrido 46 cidades em 13 estados diferentes, feito 21 comícios, a maioria ao lado do presidente Lula ─ seu principal cabo eleitoral ─, e voado por mais de 85.000 quilômetros no jatinho alugado por sua campanha.

Dilma caminhou aos trancos até uma capela no estacionamento do mercado mineiro. Tratava-se de uma aparição estratégica em meio à polêmica sobre religião que tomou de assalto a campanha no segundo turno. Amparada pelos seguranças que formaram um cordão a sua volta, esforçou-se para sorrir, mas a fadiga de quatro meses de compromissos diários, as dores no tornozelo contundido pela torção que sofreu ao exercitar-se na esteira ergométrica ─ num esforço para não se manter sedentária ─ e toda aquela confusão fizeram com que exalasse, no máximo, um suspiro entediado.

Durante o empurra-empurra que se tornou a entrevista coletiva daquele dia, foi a agora presidente da República quem ajudou a posicionar os microfones e gravadores dos jornalistas em cima da mesa de toalha branca, em frente ao crucifixo que ficaria estrategicamente posicionado ao fundo das imagens. Após oferecer o lenço para uma repórter que, assim como ela, tinha o rosto suado no meio da confusão, a candidata não deixou de dizer:

─ Vocês precisam fazer um movimento pela volta do porta-microfone.

A falta de formalidade visivelmente a incomodava. Desde o início da campanha eleitoral, em junho deste ano, fitas de isolamento, cercadinhos para jornalistas e até púlpitos de acrílico com porta-microfones ─ que os assessores, brincando, chamavam de “Alberto” e “Alfredo” ─ davam o tom da aparição de Dilma Rousseff frente às câmeras. Os motivos, além de dar um tom solene aos eventos: o temor de seu staff de que a ex-ministra, candidata pela primeira vez a um cargo eletivo, cometesse deslizes com os jornalistas, prejudicando sua imagem ou, por outro lado, deixasse transparecer sua face mais impaciente e impulsiva (quem a conhece de perto garante que Dilma Rousseff é de educação e delicadeza exemplares, a despeito de sua postura física um tanto rígida, hierática, e do tom formal que, com frequência, adota em relação às pessoas).

A organização das coletivas era cinematográfica. Primeiro chegavam os repórteres, com todos os aparatos a que têm direito. Depois, os assessores, que posicionavam o púlpito, Alfredo ou Alberto, a fita de isolamento e ajudavam os jornalistas com microfones e gravadores. Por último, sempre escoltada por um de seus fiéis escudeiros (ou por todos eles) ─ o presidente do PT, José Eduardo Dutra, o deputado federal e ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o deputado federal José Eduardo Cardozo ─, chegava Dilma.

Na briga pela primeira ou até pela última pergunta, não eram os gritos mais altos ou as mãos freneticamente agitadas dos jornalistas que venciam a disputa. Todos sabiam: era Dilma quem escolhia a quem e sobre o que iria responder. O olhar fixo da candidata selecionava o repórter e, aos poucos, os pedidos iam se calando, até que uma das duas reações possíveis era esboçada antes de sua resposta. Se gostava da pergunta, sorria e respondia rapidamente. Se não gostava, fechava a cara, fazia uma pausa para dar um gole no copo d’água sempre à mão ou balançava a cabeça negativamente antes de animar-se a falar.

Após participar do último debate do primeiro turno, em 30 de setembro na Rede Globo, no Rio de Janeiro, Dilma concedeu uma entrevista coletiva quando já passava da meia-noite. Os jornalistas só tinham direito a três perguntas e a segunda pegou a candidata de surpresa.

─ Ministra, a senhora não perguntou a José Serra mesmo quando teve oportunidade. Foi uma estratégia?

Ela mediu a jornalista dos pés à cabeça, estendeu a mão para pegar o copo com água e bebeu um gole:

─ Olha, as regras não me permitiram perguntar a ele. Não foi estratégia. Perguntei para quem achei que era melhor perguntar.

E assim ficou. Dilma responde a seu modo, e não adianta insistir ─ porque, todos sabiam, não era culpa das regras. Ela poderia ter feito perguntas a Serra no início de um dos blocos. Caso alguém repetisse a pergunta, a candidata também repetiria cada palavra da resposta anterior e uma terceira tentativa custaria um olhar enviesado e uma cara feia de Dilma. Com repórteres mais inquisidores, essa era a fórmula da agora presidente.

Mas, certa vez, a ex-ministra ouviu conselhos da jornalista Olga Curado, sua media trainer particular, de que era melhor abandonar o tratamento de “minha querida” ou de “meu querido”, que dispensava indiscriminadamente aos repórteres, e chamar alguns pelo nome. Eis as eleitas: Vera Rosa, do Estadão, Ana Flor, da Folha de S.Paulo, e Delis Ortiz, da Rede Globo. Obediente, uma vez Dilma atrapalhou-se e citou incansavelmente Ana Flor durante uma coletiva em Brasília, como se estivesse se dirigindo a ela. Vera Rosa precisou alertar:

─ Ministra, a Ana Flor trabalha em São Paulo.

A candidata apenas sorriu.

Após o primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu as coordenadas: menos formalidade e mais proximidade com a imprensa. Alberto e Alfredo saíram de cena e, em 5 de outubro, na primeira coletiva depois do dia 3, Dilma apareceu aos jornalistas não apenas sem os aparatos, mas sem a companhia de Dutra, Palocci e Cardozo, seus três mosqueteiros.

Ela falava o quanto queria durante as coletivas e era bem simples saber se um repórter a agradava ou não ─ humor transparente podia ser seu grande trunfo, mas também sua própria armadilha. Muitas vezes, percebendo assuntos mais ásperos ou de difícil resposta, entravam em ação os escudeiros. Eram assessores, coordenadores de campanha ou até aliados, amigos de juventude. O resultado, pois bem, podia não ser dos melhores. No mesmo cansativo 7 de outubro, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel quis acabar logo com as perguntas dos jornalistas.

─ Ok, muito obrigado, gente ─ disse Pimentel.

Não foi ouvido. Nem pelos repórteres, nem pela ex-ministra, que se apressou em dizer:

─ Obrigada, meu querido [voltou com o velho “meu querido”], mas vou continuar respondendo por aqui.

Conhecido como Gigante ─ com quase dois metros de altura, claro, olhos azuis e mais de cem quilos, que justificam completamente o apelido ─, um bem humorado gaúcho é motorista da candidata no Rio Grande do Sul. Ela fazia questão de seus serviços e ele, de estar sempre a postos ─ é o que diziam os mais próximos. Durante seus trajetos pelo território gaúcho, Dilma gostava de ouvir músicas relaxantes enquanto estava no carro, como barulho de água corrente e passarinhos típicos dos CDs de mantra, mas havia dias em que arriscava as melodias da banda de rock inglesa Pink Floyd. Ela não costumava dormir nos percursos. Sentada no banco de couro traseiro do Ford Fusion preto em que circulava pelo estado, preferia conversar com assessores enquanto bebia muita água. Vários copinhos de plástico eram colocados cuidadosamente em uma mesinha do mesmo material para que ela pudesse hidratar a garganta tão prejudicada pelos discursos diários.

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Mas não era só com esse tipo de cuidado que Dilma precisava se preocupar. A candidata teve que conviver com o tratamento de um linfoma, ou câncer no sistema linfático. A doença, descoberta em 20 de março de 2009, custou sessões de quimioterapia que, naturalmente, a abalaram do ponto de vista físico e psicológico. Em abril do ano passado, os enjoos e cansaço eram parte integrante do calendário de alguém que se preparava a todo o vapor para ser a sucessora do presidente Lula. A depressão que costuma acompanhar a erupção da doença a candidata não deixou entrever.

O câncer de Dilma, de acordo com reportagem de VEJA publicada em 6 de maio de 2009, foi descoberto após uma tomografia realizada durante um check-up conduzido por seu médico pessoal, o cardiologista Roberto Kalil, diretor do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O exame identificou um gânglio de tamanho anormal (2,5 centímetros) na axila esquerda.

Para determinar a causa do inchaço, a equipe médica fez uma cirurgia para a retirada total do gânglio e, após ratificação do MD Anderson Cancer Center, da universidade americana do Texas, em Houston, o diagnóstico da ex-ministra foi fechado: o tumor era o que se denomina em termos médicos um linfoma não-Hodgkin, uma forma agressiva de câncer no sistema linfático.

Sem mencionar que já começara a se submeter a um tratamento, Dilma anunciou publicamente que estava doente em 25 de abril de 2009. A ex-ministra passaria por seis sessões de quimioterapia, mas como reagiu bem e o nódulo foi descoberto em fase inicial, apenas quatro delas foram consideradas suficientes ─ em 25 de junho, o tratamento mais agressivo havia chegado ao fim. Dilma entrou em 2010 como candidata à Presidência pelo PT e tecnicamente curada do câncer, embora a prática médica recomende um período de pelo menos cinco anos sem sintomas para considerar definitiva a vitória contra a doença. Um alívio. Tanto para Dilma, naturalmente, como para os petistas que teriam dificuldades em substituir uma candidata já ungida há quase dois anos pelo presidente Lula.

O tratamento de suporte, para a doença não voltar a atormentá-la, deixaram marcas físicas em Dilma ─ o cansaço e o aumento de peso durante a campanha. Diante de pergunta sobre este segundo aspecto, a ex-ministra afirmou que não sabia quantos quilos tinha engordado nos últimos meses, e brincou:

– Não me peso para não ficar triste.

Os cuidados, porém, não se voltavam apenas para a saúde. A preocupação com a aparência começou antes mesmo de abril de 2009. Dilma se submeteu a um tratamento de correção dos dentes que incluía o alinhamento da arcada, clareamento e o preenchimento do espaço entre os incisivos. Em clínicas badaladas, esses procedimentos, juntos, podem custar de 2.500 a 4.500 reais. O sorriso mais bonito ajudou a suavizar o ar um tanto sisudo, para alguns até mesmo antipático, que projetava nos tempos de ministra da Casa Civil, cargo que ocupou de meados de 2005 até março passado.

Além disso, a candidata já havia trocado os óculos de aro de metal ovalados, estilo professora universitária, por lentes de contato e se submetido a uma cirurgia plástica. Por mais que fizesse consultas regulares à dermatologista Denise Steiner, de São Paulo, a mesma que cuida da pele da senadora eleita pelo PT Marta Suplicy e cobra 480 reais por consulta, Dilma resolveu recorrer também ao bisturi.

A dupla de cirurgiões plásticos, formada por Renato Vieira e Sérgio Panizzon, operou-a em 20 de dezembro de 2008, na clínica Moinhos Plastic Center, em Porto Alegre. Nos olhos, fez uma blefaroplastia, operação que, com incisões finas, remove, na parte inferior, as bolsas de pele e gordura responsáveis pelo ar abatido e, em cima, o excesso de pele nas pálpebras. No resto do rosto, fez lifting, intervenção que puxa a pele da face e do pescoço para os lados e para cima, prendendo-a cirurgicamente ao couro cabeludo, e esticando rugas e dobras. Pelo procedimento, a clínica cobra cerca de 7.000 reais.

O protetor solar fator 60 e a hidratação da pele eram cuidados básicos que Dilma tentou seguir à risca, mesmo com a correria de campanha. Em seus compromissos públicos, invariavelmente portava um corretivo ou base para esconder as olheiras ─ frenquentes devido às noites pouco ou mal dormidas ─ acompanhados do pó facial. A maquiagem incluía ainda lápis delineando as pálpebras superior e inferior dos olhos e um rímel preto para marcar o olhar.

O realinhamento do visual para melhor se apresentar ao eleitorado, é claro, precisava abranger o guarda-roupa e os cabelos. Em 24 de agosto, o estilista Alexandre Herchcovitch confirmou, via Twitter, que havia aceitado ser o consultor de moda da candidata. Além dele, outro nome de peso do mundo da moda foi chamado a incorporar-se ao time da boa aparência: o cabeleireiro Celso Kamura. Dilma, então, começou a desfilar casaquetos, paletós e jaquetas das cores vermelho, laranja, cinza e tonalidades mais claras, como rosa, azul e verde-água. A calça social ou de brim escuro eram acompanhadas pelo sapatênis preto. Quase um uniforme, acompanhado de acessórios clássicos: brincos de pérola e colares do mesmo estilo e um relógio discreto, com pulseira de couro preta, usado no braço esquerdo.

Os comentários de que não era possível ter saído das tesouras de Hercovich aquela jaqueta laranja com a qual Dilma apareceu ao lado de Lula em um comício em Joinville (SC), em 13 de setembro, faziam sentido. O combinado entre os dois desandou e no dia 1º de outubro, via assessoria de imprensa, o estilista anunciou que em razão das “agendas desencontradas” a consultoria não se concretizara, para alívio dos profissionais do ramo. Dilma e Hercovich não teriam se encontrado mais de quatro vezes. De personalidade conhecidamente forte, a hoje presidente não aceitava novidades estilísticas e nem abria mão dos modelitos de seu próprio guarda-roupa.

Mas era uma candidata devidamente repaginada aquela que deveria enfrentar, no dia 16 de julho, no Rio de Janeiro, um grande desafio: seu primeiro comício diante de uma multidão. O PT é o único partido que ainda faz grandes comícios no Brasil, e Dilma precisou respirar fundo para penetrar nesse universo desconhecido. Antes de chegar sua vez de falar, debaixo de uma forte chuva e diante de um atraso de mais de duas horas, a candidata discursou depois de Lula, para fechar o evento, e assistiu à debandada dos militantes que já pareciam satisfeitos por terem visto e ouvido o presidente. Enquanto falava, ela andava de um lado para o outro do palanque, assim como Lula costuma fazer, mas estava visivelmente nervosa, ao contrário do presidente. Com frases sem grande impacto e, muitas vezes, voz tremida, Dilma não empolgou.

Depois de três ou quatro eventos nesse formato, ficou decidido que o correto seria Lula encerrar, e não abrir os comícios ─ de forma a segurar os militantes até o discurso da candidata. Para não perder o hábito, o presidente em geral se estendia por muito mais tempo do que sua apadrinhada.

Muito concentrado no que fala e quando fala, o presidente, contudo, apresentou ao longo da campanha uma característica curiosa. Durantes as intervenções dos aliados, ou até mesmo quando a própria Dilma discursava, Lula parecia não prestar atenção. Preferia jogar beijos para a plateia, rir, conversar com companheiros no palanque e olhar para trás. Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência, foi, ao longo da campanha, um de seus favoritos para os bate-papos.

O comportamento irrequieto do presidente nos palanques chegou a um ponto que, em 15 de outubro, durante um comício em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, o candidato ao Senado Netinho de Paula (PCdoB), que não conseguiria se eleger, precisou pedir:

─ Presidente, ouve aqui o que eu estou falando!

Lula se colocou a postos, mas, em menos de um minuto, já estava novamente acenando para o público e mandando beijos.

Mais uma pausa no discurso de Netinho. Desta vez mais conformado, o pagodeiro comentou:

─ É porque o senhor é querido…

Após a tradicional cantoria de “olê olê olê olá, Lu-lá, Lu-lá”, Netinho desistiu de capturar a atenção do presidente e seguiu com seu discurso.

Lula reincidiria no mesmo comportamento durante comício em Salvador, em 26 de agosto. Não parou de conversar com o governador Jaques Wagner, nem mesmo durante o discurso de Dilma Rousseff. O presidente andava pelo palco e brincava com a mulher do governador, Fátima, e com alguns deputados baianos. Wagner e Fátima são amigos há muitos anos do presidente e da primeira-dama, Marisa Letícia.

O fato de zanzar no palanque e conversar durante os discursos alheios não significa, no entanto, que o presidente não se ligasse no que ocorria à sua volta. Em 31 de julho, por exemplo, durante comício em Curitiba, Lula notou aplausos calorosos vindo do público quando a então candidata petista ao Senado, Gleisi Hoffmann (eleita a 3 de outubro), saudou os professores. O presidente puxou Dilma pelo braço e cochichou alguma dica em seu ouvido. Quando chegou sua vez de dirigir-se à multidão, Dilma começou:

─ Companheiros e companheiras, primeiro eu gostaria de cumprimentar os professores e professoras aqui presentes.

Lula não podia esconder seu ar de contentamento.

Dilma também conversava no palanque, mas, em geral, com o presidente Lula. Com seu candidato a vice, Michel Temer (PMDB), a relação, ao longo de toda a campanha, manteve-se completamente formal. O presidente da Câmara não acompanhou a candidata em todos os compromissos de sua carregada agenda e, quando o fazia, quase nunca chegava junto com ela. No comício em São Paulo, em 27 de setembro, o último do primeiro turno ─ mais uma vez sob uma tempestade de tirar o fôlego e o ânimo dos militantes ─ Temer esboçou cumprimentar Dilma com um aperto de mão. Logo, os colegas de chapa lembraram-se que a formalidade em público podia não pegar bem. O jeito foi um abraço e um beijo no rosto desajeitados. Logo estavam um de cada lado do palco.

Seria uma metáfora de eventuais dificuldades que a nova presidente da República poderá vir a ter com seu problemático aliado, o PMDB de Temer? Pode ser. Para Dilma, porém, esta não é certamente a hora de pensar nisso. Afinal, a filha do dr. Pedro Rousseff, imigrante búlgaro que se estabeleceu em Belo Horizonte depois de casar-se com a carioca Dilma Jane Silva, acaba de entrar para a história ─ e tem 1461 dias para enfrentar esse e outros problemas.

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