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Viadutos verdes

Estrada fluminense abrigará primeiro elevado dedicado exclusivamente ao trânsito de espécies da Mata Atlântica. A ideia pode ser replicada em outros biomas

A BR-101, rodovia que se estende por 4 772 quilômetros, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, servirá de laboratório para um projeto sustentável inovador. No próximo ano, um trecho dela — a partir do quilômetro 218, no Estado do Rio de Janeiro, entre os municípios de Casimiro de Abreu e Rio Bonito — deve ganhar um viaduto nada usual. Em lugar de servir aos automóveis dirigidos por seres humanos — ou, vá lá, no futuro, por algum tipo de inteligência artificial —, ele será usado por animais silvestres. As obras do chamado “viaduto vegetado”, sob responsabilidade da concessionária Arteris Fluminense, começaram neste ano. A estrutura verde tem o objetivo de funcionar como passagem para exemplares da fauna da Mata Atlântica, que hoje têm de enfrentar o movimento dos carros, ônibus e caminhões na hora de passar de um lado da estrada para o outro. Nos últimos dez anos, ao menos 3 200 bichos das mais variadas espécies — algumas exclusivas daquela área — foram vítimas de atropelamentos na região. Com a iniciativa, esti­ma-se que sejam salvos, anualmente, cerca de 320 animais.

A novidade foi inspirada em experiências internacionais. Os primeiros viadutos vegetados surgiram na França na década de 50. Hoje, a Holanda é referência no assunto, com cerca de cinquenta dessas estruturas espalhadas pelo país e outras planejadas para os próximos anos. Há também viadutos desse tipo em nações como a Austrália, onde existe até mesmo uma estrutura construída tão somente para a travessia de caranguejos, e o Canadá, que ergueu a famosa passarela do Parque Nacional Banff, dedicada ao trânsito de mamíferos de grande porte, como os ursos, por exemplo.

O Brasil, país detentor da maior biodiversidade do planeta, ainda não conta com um elevado dessa modalidade. O viaduto da BR-101 foi uma das exigências do licenciamento ambiental pelos órgãos ICMBio e Ibama, reforçada por uma ação judicial. Em 2016, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública determinando que o viaduto vegetado fosse construído por causa das obras da Arteris na rodovia. De início, impunha-se a criação de quatro estruturas do gênero. Depois de negociações, encerradas no início do ano passado, chegou-se ao consenso que levou ao projeto em andamento. Estão previstas também quinze passagens subterrâneas e dez passarelas mais simples — todas destinadas a animais. “Encontramos uma solução que atendeu a todas as demandas”, diz o gerente de meio ambiente da Arteris Fluminense, Marcello Guerreiro. No total, o valor investido deve chegar a 52 milhões de reais. A despesa pode ser compensada com o aumento do pedágio na estrada.

Cogita-se, para o caso de a proposta dar certo — não se sabe se as espécies vão se adaptar ao elevado e se realmente o atravessarão —, a construção de um segundo viaduto vegetado na mesma BR-101, no prazo de uma década. Em teoria, qualquer espécie terrestre da Mata Atlântica poderá se beneficiar da passagem. Contudo, espera-se que os principais favorecidos sejam os micos-leões-dourados. À margem da rodovia está a Reserva Biológica de Poço das Antas, criada em 1974, na qual a Associação Mico-Leão-Dourado atua desde 1992. O primeiro programa de conservação desses simpáticos bichinhos começou ali em 1970, quando restavam apenas 200 exemplares da espécie na natureza. Hoje, há 3 200 micos na floresta. Além deles, símbolos da Mata Atlântica, outros animais do bioma, como a preguiça-de-coleira e a onça-parda, correm por lá o risco de atropelamento. Essas espécies precisam de um hábitat extenso para formar grupos e acasalar-se com indivíduos de outras populações, garantindo assim a variabilidade genética. A abertura do viaduto também visa a facilitar tal processo.

“Só devemos sentir os resultados a longo prazo, mas já é uma vitória, pois a iniciativa poderá servir de motivação para que esse modelo de viaduto seja replicado na Mata Atlântica e em outros biomas”, afirma o secretário executivo da Associação Mico-Leão-­Dourado, Luís Paulo Ferraz. De acordo com dados do Sistema Urubu, rede que coleta informações sobre a fauna brasileira, 475 milhões de animais selvagens são atropelados por ano em todo o país. Os mais ameaçados são os de pequeno porte, como os anfíbios e roedores, que representam 90% do total. Os viadutos verdes, repletos de flora e fauna local, poderiam levar à diminuição desse assombroso número de mortes.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612