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Tecnologia ajuda médicos a ‘ver’ local e intensidade da dor de pacientes

Cientistas de uma universidade americana liderados por um brasileiro desenvolvem óculos de realidade virtual que tornam diagnósticos mais objetivos

Por André Lopes Atualizado em 12 jul 2019, 11h58 - Publicado em 12 jul 2019, 06h30
Dor
Arte/VEJA

“De 1 a 10, qual o seu nível de dor?” A pergunta é frequentemente dirigida, já no setor de triagem, aos pacientes que chegam a um hospital. Apesar da base numérica, tanto a indagação como qualquer resposta passam longe da objetividade. Até hoje não havia, de fato, um modo eficiente e rápido de medir a sensação incômoda, persistente, que toma conta muitas vezes de corpos enfermos. Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Michigan (EUA), recém-publicado na revista científica americana Journal of Medical Internet Research, acena com a possibilidade de resolver essa questão.

O trabalho, coordenado pelo odontologista fluminense Alexandre DaSilva, professor de sua área de atuação na prestigiosa instituição de Michigan, resultou na criação de um algoritmo capaz de interpretar funções cerebrais que indicam a localização e, sobretudo, a intensidade da dor. O diagnóstico é exibido ao médico nos visores de óculos de realidade virtual (RV) adaptados para a tarefa (confira no quadro acima).

A tecnologia foi testada em um experimento realizado com 21 voluntários. DaSilva e seus colegas aplicaram um jato de ar a 0 grau nos dentes dos indivíduos, o que provoca desconforto. Um capacete com 36 sensores mapeou como se traduziu essa sensação de acordo com o fluxo sanguíneo detectado no cérebro. Assim foi possível começar a desenhar um, digamos, mapa da dor, segundo a intensidade e a localização de cada área afetada da massa cefálica. “Elaboramos o que chamamos de ‘assinaturas’, que apontam o momento no qual o paciente passa do incômodo ao sofrimento”, afirma DaSilva. “A dor é um fruto cognitivo, antecipado pelo comportamento do cérebro”, acrescenta ele.

A região afetada do corpo chega aos óculos de RV como se fosse um holograma da anatomia humana. Quanto mais avermelhada a cor na figura, mais intenso é o incômodo. Quando há atenuação, em razão, por exemplo, da aplicação de analgésicos, a coloração torna-se azul.

A odontologia deverá ser a área médica que desfrutará mais rapidamente os resultados da novidade, tendo em vista a facilidade de rastrear dores em regiões mais próximas do cérebro. A expectativa dos cientistas, porém, é expandir a detecção para todo o organismo — e de forma cada vez mais precisa e minuciosa. “Até agora, se se quisesse aferir com detalhes a dor, era necessário apelar para procedimentos demorados, custosos e, ironicamente, muitas vezes doloridos — como a ressonância magnética”, diz DaSilva. Caso evolua, a tecnologia desenvolvida pela equipe do odontologista brasileiro poderá se espalhar por várias modalidades da medicina e, consequentemente, dos hospitais, respondendo em segundos, e com espetacular precisão, quanto sofre um enfermo.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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