Sinais do que seria a chamada ‘matéria escura’ são detectados por pesquisador
Apesar da celebração, cautela é a palavra de ordem
A dúvida — emoldurada por perguntas — é postura que a humanidade parece ter varrido para debaixo do tapete, como se fôssemos sabichões. Não somos, apesar de todo o avanço da ciência. E em ao menos um campo do conhecimento os enigmas são alimento compulsório: a cosmologia. Há mistérios no espaço que fazem os estudos caminhar, e do ponto de interrogação brotam exclamações. O mais celebrado fantasma é a chamada “matéria escura”. Sabemos, depois de décadas de pesquisas e intenso debate, que parte do universo — algo em torno de 23% — não é feita de átomos nem de qualquer outra substância conhecida e identificada, mas de algo que não irradia nem reflete nem absorve luz. O suposto “esqueleto cósmico” intuído pelo astrônomo suíço Fritz Zwicky em 1933, uma das mais belas construções teóricas da civilização, a trama invisível que nos faz estar aqui e agora, de mãos dadas com o infinito, parece enfim ter uma comprovação real da existência. Há, é claro, muito terreno de investigação, ainda, mas a virada de 2025 para 2026 foi marcada por uma extraordinária revelação.
Uma equipe de profissionais do Telescópio Espacial Fermi, da Nasa, liderada pelo japonês Tomonori Totani, da Universidade de Tóquio, identificou pistas dessa força elusiva, depois de quinze anos de trabalho. Como? Foram detectados raios gama formando um halo no centro da Via Láctea, na região onde a massa sem “digitais” seria mais abundante. “Ainda precisamos confirmar os resultados, mas agora temos o privilégio de poder conduzir uma busca mais direcionada”, celebrou Totani. Segundo ele, outros fenômenos astronômicos não explicam o padrão observado: “Se estivermos corretos, será a primeira vez que a humanidade vê matéria escura. E isso significa que a matéria escura representaria uma nova porção não incluída no modelo-padrão da física de partículas”. É espantoso, ainda que um tanto intangível. “Entender o funcionamento da massa escura é fundamental para saber como o universo funciona”, diz Thiago Signorini Gonçalves, diretor do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
É busca incansável, que não termina por aqui, por óbvio. Ao longo das últimas décadas, experimentos subterrâneos gigantescos foram construídos para tentar detectar partículas individuais da matéria escura. Nada apareceu, contudo. O Grande Colisor de Hádrons, o maior acelerador de partículas existente, na fronteira da França com a Suíça, trabalha desde 2008 ao encontro do Santo Graal, e nada. O campo científico viu apostas se perderem, teorias desmoronarem e pesquisadores admitirem frustração diante de enigma tão resistente, que povoa corações e mentes.
A natureza invisível da matéria escura sempre transbordou para a cultura pop. Em Star Trek: The Next Generation, um episódio clássico mostra a Enterprise navegando por uma nebulosa de “bolsões” de matéria escura que distorcem o espaço e ameaçam a nave, tornando o invisível perigoso. A ficção recente também retomou esse tema. A quinta temporada de Stranger Things, recém-lançada, volta a explorar a ideia de uma presença que não pode ser vista, mas que altera o mundo real; uma metáfora simples para explicar ao público como algo que não vemos pode moldar o universo.
Ora, toda a evolução do cosmos depende dessa força adicional. Sem ela, galáxias não teriam se formado a tempo, estrelas não teriam se agrupado e planetas como a Terra talvez nem existissem. A situação é comparável à descoberta de Netuno, pois, antes de ser visto, o planeta foi inferido porque puxava gravitacionalmente as órbitas de seus irmãos. A matéria escura faz o mesmo, mas em escala ainda mais gigantesca.
Mesmo assim, apesar da celebração, cautela é a palavra de ordem. “O mais difícil agora é eliminar todas as outras possibilidades”, afirma Gonçalves, da UFRJ. É raciocínio que ecoa uma das máximas do físico Carl Sagan (1934-1996), um dos grandes evangelizadores do que anda acima de nossas cabeças, poeta das estrelas: “Hipóteses extraordinárias exigem evidências extraordinárias”. É o ponto no qual estamos, com as revelações de Tomonori Totani. Desvendar a matéria escura, ainda que nos subtraia o charme do desconhecido, abre janelas para outra procura infindável: o Big Bang, o primórdio, a explosão inicial, mito em torno do qual estão pendurados tanto os raciocínios das mentes mais céticas quanto as fábulas que bebem da religião. Convém, contudo, sempre a modéstia, como a de uma claridade na escuridão: podemos responder a muita coisa, mas não a tudo, como ensina o passo dado agora em torno da matéria escura.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977





